Os dois filhos de Touro Moreno

Por Valeria Lima Guimarães

Estando em final de doutorado, escrevendo a tese a mil por hora, nada me fazia sair de casa ou sequer levantar da cadeira do computador. Mas as Olimpíadas exercem um fascínio tão grande que ficava difícil não dar uma espiadinha nas competições, na organização daquela megafesta esportiva com todo o seu cerimonial impecável, seus extraordinários equipamentos esportivos e é claro, a presença dos atletas de todos os lugares representando os seus pavilhões.

Escrevo estas palavras simples, de alguém que não estuda o assunto, para saudar particularmente o grande feito do boxe brasileiro em Londres. O boxe era um esporte que não me chamava atenção até bem pouco tempo. Mas comecei a desconfiar dos meus preconceitos a partir dos debates acadêmicos realizados no SPORT. Descobri que havia algo além de surrar e ser surrado num circuito milionário para alguns.

Assistimos em 2010 no Cineclube SPORT o documentário “Touro Moreno”, de Juliano Enrico (2007), debatido pelo nosso craque Rafael Fortes. Fiquei muito impressionada com a abnegação do personagem-título e sua obsessão pelo boxe. Em meio às condições mais adversas na cidade de Serra, no Espírito Santo, considerada uma das mais violentas do país, o jovem senhor septuagenário treinava obstinadamente no fundo do quintal, com recursos rudimentares e estranhos rituais, como beber água de macarrão para manter a forma e continuar derrotando adversários muito mais novos. Trabalhava também na formação de novos lutadores, incluindo muitos dos seus 18 filhos, dando-lhes uma alternativa de vida e de futuro.

Clique aqui e veja um trecho do documentário “Touro Moreno”:

http://www.youtube.com/watch?v=Y04JQ26X26o

 

Em 2011, foi a vez de o Cineclube SPORT exibir “Hurricane”, de Norman Jewison (1999), brilhantemente estrelado por Denzel Washington e debatido pelo Victor Melo. O filme, não necessariamente sobre o boxe, aborda a história real do pugilista campeão que na década de 1960 foi golpeado pelo racismo e pela violência das instituições sociais norte-americanas, dando a volta por cima depois de muito sofrimento.

Neste ano, por uma dessas coincidências da vida, realizei um trabalho com um numeroso grupo de crianças de todas as idades participantes de um projeto social de educação pelo boxe. Definitivamente, não dava mais para ignorar o esporte…

Eis que me surpreendo sentada no sofá, acompanhando todas as lutas dos brasileiros nas Olimpíadas de Londres. Com a estréia do boxe feminino nos jogos, a baiana Adriana Araújo já de cara nos deu um bronze. Foram apenas três categorias no debut do boxe das meninas e já trouxemos medalha, igualando o feito de Servílio de Oliveira, no longínquo 1968, no México. Mas Adriana quebrou também um grande tabu. Se o boxe, como mostrou Victor Melo, é um dos esportes que mais projeta os ideais de masculinade,  Adriana e todas as lutadoras que ela representava naquele momento transgrediram esse imaginário socialmente compartilhado e demonstraram que mulher também tem vez nos ringues de boxe competitivo (e não só nas academias, fabricando corpos desejáveis). Uma dupla vitória!

Ainda faltava algo: O que eu mais queria ver naquelas olimpíadas eram os dois filhos do Touro Moreno, tal qual os do Francisco, subirem no lugar mais alto daquele palco chamado pódio. Os irmãos Falcão, Esquvia e Yamagushi, que tem seus prenomes alusivos à luta, estavam ali protagonizando mais uma história verídica de dramas, dificuldades e vitórias.

O ouro não veio, mas o seu Touro, hoje com 75 anos, se sentiu recompensado: uma prata discutível e um bronze (junto com a medalha da Adriana), representaram o maior resultado da história do boxe brasileiro nos jogos olímpicos. Os irmãos Falcão deram a seus pais uma alegria só sentida pela família dos irmãos Grael, até então os dois únicos irmãos brasileiros a “medalhar” numa mesma olimpíada.

Yamaguchi, Esquiva e Touro Moreno

Os irmãos Falcão, seu grande mentor e o T que o mundo inteiro viu nas Olimpíadas. (Foto: Sportv)

O juiz admitiu ter errado e tirado a vitória de Esquiva Falcão, mais um aspecto humano de uns jogos cada vez mais mercantilizados, espetacularizados e padronizados. Talvez seja por isso que esse evento esportivo ainda seja tão interessante: por trás da megaestrutura, das máquinas de alto rendimento postas à prova e de seus rígidos controladores, há a possibilidade do erro, da falha, do desapontamento, das quedas e também das glórias. (Não sai da minha memória o drama vivido pela esgrimista sul-coreana em função daquele segundo que insistiu em se postergar por uma eternidade…)

Esquiva foi o porta-bandeira do Brasil na cerimônia de encerramento dos jogos, outro feito inédito. Os irmãos Falcão foram recebidos pela Presidenta da República, em Brasília. A imprensa soube aproveitar o momento para revirar suas vidas, ressaltando que o boxe, graças à obstinação de Touro Moreno os salvou dos riscos sociais. Dois brasileiros humildes, que com persistência venceram as batalhas da vida pelo boxe, tornaram-se medalhistas olímpicos e foram homenageados pela Presidenta do país.

Esse é, sem dúvida, um bom enredo para mais um filme de boxe, protagonizado por brasileiros, com final feliz. Na mesma semana em que três dos nossos pugilistas recebiam as honrarias olímpicas e o país festejava seus feitos inéditos, uma notícia de violência brutal contra uma criança de Praia grande, em São Paulo, estampava os jornais. A “arma” do crime, praticado por uma mulher da sua família, foi o emprego de golpes de boxe, sem chances de defesa para a vítima.

Prefiro histórias reais, como a de Adriana Araújo e as dos dois filhos de Touro Moreno, envolvendo o esporte (esse fenômeno humano, demasiadamente humano, como gosta de enfatizar Victor Melo, parafraseando o artista), àquelas em que o domínio das técnicas do esporte – do boxe ou de qualquer outro que seja –  é usado covardemente contra outro ser humano indefeso.

Que os pugilistas do futuro encontrem melhores condições do que os campeões brasileiros em Londres enfrentaram em suas trajetórias. Que o boxe no país seja tratado com mais seriedade e organização. Que as futuras gerações que praticam boxe nos milhares de projetos sociais existentes envolvendo esse esporte, encontrem nesses campeões uma motivação a mais para seguir adiante nesse esporte tão complexo e tão completo, como se diz no jargão esportivo.

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