Silêncio não significa ausência: Lea Linhares, a primeira judoca faixa-preta do Rio Grande do Sul

por Silvana Goellner

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A história da participação das mulheres no esporte brasileiro é plena de silêncios, ocultamentos, invisibilidades. Basta olharmos os sites de federações, confederações, clubes e associações esportivas para certificar essa afirmação. Por essa razão tenho dito constantemente: silêncio não significa ausência! O fato das mulheres não serem mencionadas em muitos episódios que supostamente narram a história oficial de instituições relacionadas ao esporte, de modo algum significa que dele não participassem.

Significa apenas que essa presença não foi nomeada. Algumas modalidades são exemplares dessa afirmação como, por exemplo, as lutas. Consideradas como atividades  masculinas e masculinizadoras, sua interdição ou mesmo proibição, encontrou subsídios  em argumentos que buscavam preservar  e valorizar uma dada representação de feminilidade segundo a qual, a graciosidade, a suavidade,  a beleza, o recato e a maternidade eram dignificadas como atributos essenciais e constituintes de uma “verdadeira mulher”.

Em que pese essa representação quero registrar que ao longo da história do esporte muitas mulheres o protagonizaram mesmo que oficialmente não sejam reconhecidas, mencionadas ou mesmo lembradas.  Lea Maria Chaves Linhares é uma dessas mulheres.  Seu protagonismo se deu no Rio Grande do Sul, na década de 1960 em uma modalidade na qual a mulheres pouco participavam: o judô.

Lea interessou-se pela modalidade no início da década  de 1960.  Frequentou o Clube Gondoleiros, no qual treinava diariamente com o intuito de tornar-se atleta,  professora e treinadora. Esse sonho e a determinação com a qual encarou o esporte fizeram com que se tornasse, em 1969, a primeira mulher a conquistar a faixa-preta no Rio Grande do Sul na sequencia da obtenção das faixas roxa em 1967 e  marrom em 1968.

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Léa Linhares com a faixa-preta (1969)
Fonte: Centro de Memória do Esporte

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No entanto,  uma barreira estava fortemente colocada:  neste período estava em vigência o Decreto-lei, nº 3.199, de 14/04/41, art. 54, especificado pela Norma 7/65-2 cujo conteúdo proibia a luta competitiva entre mulheres. Em função dessa normatização seu título não foi reconhecido pela Confederação Brasileira de Desportos.  Ou seja, seu pioneirismo desestruturou a oficialidade do esporte fazendo, inclusive, com que a Federação Gaúcha de Pugilismo (que à época congregava o Judô) buscasse estratégias para reconhecer tal ineditismo. O que também ficou no plano da intencionalidade.

Além de ser uma atleta de destaque no cenário gaúcho da época Léa envolveu-se em outras atividades relativas ao judô: ministrava aulas para crianças e jovens, era árbitra, realizava demonstrações antes de competições masculinas, atuava como instrutora da defesa pessoal, enfim, investiu na modalidade. Investimento que, ao ser subvalorizado pelo não reconhecimento de seu título e pela limitação de participar em competições esportivas, lhe causou mágoas profundas levando-a a romper com o judô diante da necessidade de trabalhar e de certo modo seguir a vida abandonando, assim  o seu sonho. Em entrevista concedida ao Centro de Memória do Esporte (ESEF/UFRGS) no ano de 2005 afirma que ficou tão desiludida ao ponto de negar e esconder, por muitos anos,  a sua  vivência no esporte.

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Demonstração de defesa pessoal em clube de Porto Alegre (1964)
Fonte: Centro de Memória do Esporte

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Na década de 1970 o presidente da recém-criada Federação Gaúcha de Judô, Ricardo Rodrigues Gaston, fez contato com a atleta incentivando-a a enviar sua documentação à Confederação Brasileira de Desportos reclamando o reconhecimento de seu título, ao que responde negativamente. Seu afastamento não foi apenas do tatame mas de uma etapa da sua vida cujas memórias são acompanhadas de tristeza e desencanto.         Interrompida sua trajetória no esporte, Lea contentou-se com o reconhecimento de amigos e familiares evitando, inclusive, lutar pelo havia conquistado: uma carreira, um título, uma história.

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Aloísio Bandeira de Melo entrega a faixa roxa à Lea Linhares. Ao fundo, Ricardo Gaston. (1967)
Fonte: Centro de Memória do Esporte

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Visibilizar aqui  o seu protagonismo no judô gaúcho não se traduz apenas em uma questão política que contrapõe o discurso oficial da modalidade. É, fundamentalmente, uma ínfima atitude de respeito e consideração por uma pessoa que rompeu barreiras, desestabilizou verdades, transpôs fronteiras. Uma mulher que ousou num tempo que algumas ousadias não eram pensadas, aceitas ou vividas. Léa as viveu de forma intensa na alegria e na tristeza.

Para além disso, o rememorar desses pequenos fragmentos carrega outros sentidos: problematizar o silêncio que pesa sobre outras tantas mulheres cujas trajetórias esportivas são comumente ignoradas.  Não porque não existiram mas, sobretudo, porque delas não se fala. Pensa nisso!

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Assista ao vídeo Memórias em Cor-De-Rosa produzido por Karine Dalsin (CEME) no qual há um depoimento de Lea Linhares e de outras protagonistas do esporte n Rio Grande do Sul. Está disponível no Repositório Digital do Centro de memória do Esporte http://www.lume.ufrgs.br/handle/123456789/170

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