Gentlemen-riders: os jóqueis amadores

Por Victor Andrade de Melo

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O Jockey Club Brasileiro informa: no dia 22 de setembro de 2012 será realizada a 5ª etapa da Copa de Amadores Ernani Pires Ferreira (homenagem a um dos mais notáveis personagens da história recente do turfe fluminense).

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A Copa foi anunciada em grande estilo: “O tradicional páreo de amadores está de volta. Venha com sua família e amigos, a entrada é franca e o programa é imperdível”. A competição teve início em 28 de janeiro: 6 etapas, 1 páreo a cada bimestre de 2012. Para participar, é necessário ter menos de 60 anos e pesar menos de 80 kg.

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Veja aqui uma matéria sobre a Copa

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Ao recriar essa competição de amadores, o Jockey Club está reeditando uma atividade que existe desde os primórdios do turfe no país. Já nas provas disputadas em 1851, entre os páreos do programa oficial, que seguia os modelos usuais do continente europeu (especialmente da Inglaterra e da França), havia disputas entre cavalos conduzidos não por jóqueis contratados, mas por voluntários, normalmente alguém que tinha algum grau de relação com proprietários e dirigentes: os chamados gentlemen-riders.

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Veja aqui outra matéria sobre a Copa dos Amadores/2012

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José Maria da Silva Paranhos, em sua crônica publicada no folhetim do Jornal do Commércio (por ele denominada de “Cartas ao amigo ausente”), ao comentar as primeiras corridas da nova agremiação criada por Suckow, em 1851, cita o nome de alguns jóqueis que participaram das provas oficiais (Vicente Ajudie, F. P. Ribeiro, Thomaz Shields), mas dedica ainda maior atenção para comentar as contendas de amadores:

No intervalo do meio-dia às 2 horas, enquanto uns passeavam e outros pagavam as letras irreformáveis do estômago, alguns dos espectadores mais apaixonados do divertimento influíram-se e fizeram várias corridas por sua conta e risco. O Sr. Alexandre Reid, que foi um deles, caiu, mas sofreu apenas uma ligeira contusão no lado direito do rosto, junto ao olho e sobre a fonte. Muitas outras quedas tiveram lugar que não vale a pena mencionar, e que foram outras tantas distrações para os amadores.

Em outra crônica de Paranhos, publicada também em 1851, pode-se perceber que os amadores nem sempre primavam pela habilidade, sendo comuns incidentes diversos:

As corridas foram, em geral, boas, e quer as dos jóqueis, quer as dos curiosos ou dos gentlemen-riders que tiveram lugar no intervalo destinado às apostas do estômago, sucederam-se sem desastre. Houve, porém, uma exceção a esta regra, que foi a queda de um dos tais gentlemen-riders que saiu como uma flecha pelo pescoço do seu rocinante, e foi plantar-se de estaca na margem do corredouro. A rapidez com que inverteu as posições dos pés e da cabeça, voltando esta para cima e aqueles para baixo, mostrou que o acidente não foi dos mais graves, e fez admirar a fortaleza daquele pescoço.

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Prado Fluminense

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A motivação desses “curiosos” era certamente o reconhecimento dos seus pares, a experiência de alguns minutos de exposição em um contexto em que essa postura começa a ser valorizada pela própria dinâmica social. Vejamos uma crônica de Francisco Otaviano, de 1853:

A corrida dos amadores foi ganha por um estudante de medicina, o Sr. Carvalho, que entre os exercícios higiênicos recomendados por Londe e por Guillaume dá preferência a este. Como era natural, foi saudado por todos os seus colegas, que se ufanavam com a vitória como se houvesse sido ganha por cada um deles. Houve também muito lenço bordado e almiscarado que aplaudiu o triunfo do futuro Esculápio.

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Prado Fluminense

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Chegou-se a fundar um clube que se propunha a organizar exclusivamente páreos com gentlemen-riders, com o intuito de elitizar ainda mais a prática, além de baixar os custos de manutenção:

se reuniram sexta-feira em casa do Dr. A. da Costa muitas pessoas de distinção, e fundaram um Jockey-Club sob a presidência do Sr. coronel Polydoro, comandante do corpo municipal desta cidade. O club tenciona promover em épocas fixas corridas brilhantes somente de gentlemen-riders. Como o primeiro gentleman do império é S. M. o Imperador acredita-se que ele se dignará de aceitar o protetorado da associação (Francisco Otaviano, 1854).

Esse clube, por vários motivos, não teve êxito, e mesmo que as provas de amadores seguissem existindo por todo o século XIX, os jóqueis contratados se consolidaram na modalidade. Na verdade, como o turfe foi se tornando mais conhecido, até mesmo aumentaram as expectativas por um bom desempenho de cavalos e seus condutores. Os jóqueis tornaram-se os primeiros “atletas profissionais”. Mas isso é assunto para outra ocasião.

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Programa de Corridas do Jockey Club. Diário do Rio de Janeiro, 6 de maio de 1875

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