JORNAL A TARDE E A REPRESENTAÇÃO DO ESPORTE NA BAHIA

Coriolano P. da Rocha Junior

     O jornal A Tarde comemora em 2012, 100 anos de sua fundação. Assim, ele passa a fazer parte de um pequeno grupo de jornais brasileiros que chegaram à marca de um século contínuo de publicação. Ao todo, são 25 jornais que podem desfrutar desta marca e destes, apenas 03 estão no nordeste. Foi no último dia 15 de outubro que o A Tarde alcançou esta marca.

   Desde sua criação em 1912, o jornal A Tarde passou a fazer parte do cenário baiano, mais fortemente do soteropolitano. Criado pelo Sr. Ernesto Simões Filho, que procurou trazer para terras baianas os moldes de produções jornalísticas já existentes, principalmente no Rio de Janeiro. Seu nome, A Tarde, se deve ao fato de que em seu início, sua circulação era vespertina.

      No momento de sua fundação existiam na cidade de Salvador outros 06 jornais, que eram: Jornal de Noticias, Diário da Bahia, Diário de Noticias, Gazeta do Povo, A Bahia e Diário da Tarde. Assim, o A Tarde entrou num cenário de disputas pela preferência dos leitores da cidade de Salvador. Para ganhar destaque, o jornal desde cedo apostou na tecnologia e na busca por uma qualidade gráfica e no uso de imagens, lançando-se como um jornal “moderno”, sintonizado com os adventos do projeto de modernidade que o governo estadual de J.J.Seabra procurava implantar na cidade.

      Outro ponto de destaque do jornal foi à construção de sua famosa sede, localizada na Praça Castro Alves, que acabou se tornando um importante e marcante prédio no cenário urbano da cidade de Salvador. Esta edificação já não é mais utilizada, mas continua a existir e a se destacar na cidade.

      No momento da fundação do jornal, seu fundador Ernesto Simões Filho alinhava-se ao poder estadual, apoiando o governo de J.J.Seabra, todavia, em pouco tempo, esta união se esfacelou, passando o jornal a fazer oposição ao governador. Mais a frente, Ernesto Simões Filho assumiu uma carreira política. O jornal, desde cedo, mostrou-se uma importante personagem no jogo político baiano, assumindo o papel de representação ideológica e de interesses de grupos na Bahia, fato que não é exclusivo do A Tarde. Como já dito, desde suas primeiras matérias o jornal procurou representar os desejos de parte da sociedade baiana por um projeto de modernidade e aí, o esporte ganhou importância.

        O esporte, como uma das representações do projeto baiano de modernidade, desde as primeiras edições ocupou as páginas do jornal A Tarde, contando inclusive com a publicação de fotos dos eventos esportivos. O jornal publicava matérias onde destacava a importância do esporte na formação da sociedade baiana, caracterizando-o como um bom hábito, uma boa prática, que só faria melhorar a formação da população, dando a ela a oportunidade de conviver com o que havia de melhor em terras europeias.

      Eram comuns no jornal matérias de destaque, inclusive na primeira página, sobre as práticas esportivas em Salvador. Eram anunciadas a fundação de clubes, de entidades, os acontecimentos, os resultados e ainda, eram escritos textos que procuravam tratar o esporte.

      Exemplo é esta matéria em que o jornal questionava a si e aos leitores as razões do possível abandono do críquete na cidade: “não sabemos porque motivo ficou inteiramente abandonado pelos nossos sportmen, o interessante e nobre jogo inglês, o cricket. A Bahia, teve nesse jogo, a muitos annos, sua primeira manifestação sportiva[1].

    Como um novo hábito, o jornal também escrevia notas sobre as formas da população se comportar nos espaços esportivos: “mais uma vez recomendamos aos que forem por mar assistir a regata de domingo vindouro, não ancorarem suas embarcações no meio da raia, nem cortarem-na na hora do pareo”[2].

       Sobre o futebol, esporte que logo ganhou popularidade o jornal apresentava distintas compreensões, veja:

 moradores à Rua Ferreira França, ao Polytheama, estão inhibidos de chegar as jannelas das respectivas residências, porque garotos, de manhã a noite, jogam bola, com uma gritaria infernal, com gestos e palavras obscenas. Os guarda civis que ali fazem seu quarto de policiamento, não tem ouvidos para ouvir taes offensas a moral e nem energia para cohibilos ao jogo perene.[3]

       Em outra matéria, o A Tarde faz alusão ao futebol como uma boa prática para a juventude:

conforme tinha sido previamente annunciado, realisou-se, hontem, no ground do Rio Vermelho, o match acima refererido [Estudantes x Benjamin Constant], e sua assistência foi numerosa e distincta, apezar de ser um dia útil, o que prova que a nossa população já se vae educando, com a nossa viva satisfação, a este gênero de sport, cultivado em todos os centros adiantados[4].

       Não foi apenas na modelação do jornal que o A Tarde tinha o Rio de Janeiro como referência, também na própria forma de tratar o esporte, se fazia alusão ao então Dsitrito Federal:

entre nós, houve um homem que soube comprehender a necessidade de auxiliar o sport, concorrendo com grandes donativos e emprehendimentos, quando dirigiu os negócios públicos. Foi elle o reformador do Rio de Janeiro, o benemérito prefeito Pereira Passos.[5

     Interessa destacar, neste momento, que o A Tarde, como um importante jornal soteropolitano, desde sua fundação, teve no esporte um de seus temas, dando as práticas esportivas destaque, com um tratamento relevante em suas páginas e manchetes.

     Assim, no ano em que se celebra seu centenário, julgamos de valor abordar o esporte como um elemento das matérias do A Tarde, uma homenagem ao esporte como um fenômeno social e ao jornal, por sua importância para o estado da Bahia.


[1]A Tarde, 08 de novembro de 1912, p. 2.

[2]A Tarde, 24 de outubro de 1912, p.2.

[3]A Tarde, 08 de dezembro de 1914, p.2.

[4]A Tarde, 30 de setembro de 1914, p.3.

[5]A Tarde, 15 de outubro de 1912, p.2.

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: