La liga no es cosa de hombres, (Ignacio F. Iquino, 1972)

 

Voltando a comentar filmes espanhóis que tematizam o futebol, hoje vimos apresentar La liga no es cosa de hombres (Ignacio F. Iquino, 1972). De cara poderíamos, pensamos, classificá-lo como uma comédia erótica. Um tipo de filme que foi muito popular na Espanha e que nos parece paralelo às nossas conhecidas chanchadas. De forma análoga, elas também foram felizes na sua relação com o público e nem tanto com a crítica. Ignacio Iquino (1910/1994) foi um laborioso homem de cinema, tendo dirigido muitos filmes e escrito outros tantos roteiros, muitos dos quais nesse mesmo gênero cinematográfico (para uma relação, ver http://www.imdb.es/name/nm0409757/ . Consultado em 28 de outubro de 2012).

Uma outra presença central nessa obra é a do ator/humorista Casto Sendra Barrufet, mais conhecido com Cassen (1928/1991). O filme, na verdade, está baseado na pretensa graça desse intérprete. Recorrendo novamente a analogias tupiniquins, Casen lembra o papel desempenhado, aqui, por um Oscarito, um Mazzaropi, um Renato Aragão. Participou e protagonizou, também ele, de várias películas do gênero. Provavelmente teremos oportunidade de comentar ao menos mais uma delas, posto que também tem a ver com futebol, embora seu maior marco localiza-se na paródia aos filmes de espionagem (refiro-me a 07 com el 2 delante  – com o “agente Jaime Bonet”, de 1966; onde re-encontramos a dupla Iquino & Cassen).

Não obstante, assim como podemos tecer diferenças consideráveis entre nossos atores citados acima (não esquecendo de incluir Grande Otelo), Cassen apresenta vicissitudes incríveis em sua trajetória. Iniciou seu trabalho artístico na Rádio e tornou-se verdadeiramente popular com programas humorísticos na Televisão. E continuou encarnando tipos cômicos em filmes pouco pretensiosos, ao longo de sua carreira. O curioso é que também trabalhou em obras inesquecíveis do cine espanhol, incluindo entre elas participações chave em Amanece, que no es poco, 1988, de Jose Luis Cuerda (uma bem conceituada comédia surrealista) e o papel título em Placido, 1961, filme do cultuado diretor Luis G. Berlanga, tido como um dos filmes fundamentais do cinema espanhol, de todos os tempos (ver http://www.alohacriticon.com/elcriticon/article1010.html . Consultado em 28 de outubro de 2012). Cassem, é quase consenso, arrebentou…

Pois bem, e o filme? E o futebol?

O filme é uma brincadeira baseada na atuação de Cassem que interpreta um jogador aparentemente medíocre nos campos, mas um verdadeiro fenômeno nas camas. O caráter cômico deve estar aí… é só atentar pro sex appeal do comediante.  De qualquer forma o cara faz sucesso. Loiras com mini faldas (ou seja, minissaias, bem ao espírito da época… que moda fantástica…) abundam. Em um desses episódios de alcova, o personagem Julián é pego com a mulher do presidente do clube onde jogava.  Tentando escapar acaba se vestindo de mulher. Ainda na fuga, passa no escritório de uma amiga (loira, com quem ele tem grande e profunda amizade) a “team manager”, Colette Duval.  Esta moça está encrencada porque contratou uma jogadora argentina, Raimunda Coqui, para reforçar a seleção italiana de futebol feminino   – é; havia esquecido; tudo isso se passa em Roma…

Aliás… que bagunça!  Essa “team manager”, aparentemente, tem poder de escalar o selecionado italiano de futebol feminino. Outra coisa, essa seleção italiana joga de camisa amarela e shorts azuis…!!!  O uniforme do Brasil!  Sabemos que é a Itália pelas falas e por uma bandeirinha estilizada, no lado do coração, em cada camisa amarela e, aí sim, com as cores italianas. Será que a produção tava tão caída que não conseguiram um uniforme com a cor correta, ou é puro descaso para com alguma ideia de verossimilhança? (aposto na segunda opção). A propósito, para piorar, a jogadora argentina vem jogar na… seleção italiana?! E por aí vai.

Continuando. Para salvação de Colette e postergação do enredo fílmico, Coqui, a argentina, é bem parecida com a versão feminina de Julián: está montada a confusão. Julián (Cassen) vai se passar pela estrela latino americana e vai fazer sucesso. Desta vez na cama & nos campos.

Dá pra imaginar a série de episódios atrapalhados que se sucedem, até o desmascaramento de Julián e o desfecho no estilo em que a trama se iniciou.

De interessante mesmo, para se pensar algum diálogo com o tempo e o lugar, é quando aparece uma pretensa ‘comissão’ espiã espanhola. A oportunidade de seu aparecimento é porque vai haver uma partida entre Itália e Espanha (essa vai aparecer com as cores certas). Essa ‘comissão’ é formada por um padre, um senhor (cujo detalhe de um panfleto do Barcelona, no bolso de seu terno, é claramente evidenciado pela câmera), e três jogadoras. A dureza das atletas (uma delas diz que por ela fuzilaria todas as adversárias), a indignação do senhor com a contratação de atletas estrangeiras para jogar por selecionados nacionais (prática já utilizada na Espanha e pelo Barça, que se considera uma equipe nacional… da Catalunha) constituem, talvez, a única referência histórico-político-futebolística da trama. Mas já é alguma coisa; é sobre essa pequena sequência que iremos centrar nossas observações no texto que irá compor nosso final de doutorado, que está no forno. Por hoje fiquemos por aqui.

Abraços tricolores (do único time tricolor do mundo… o resto, como se sabe, são times de três cores) !

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