Esporte e eugenia: a Ginástica Feminina da Primavera em Minas Gerais

Por André Schetino

Olá amigos do História(s) do Sport. É com muito prazer que escrevo mais um post sobre a história do esporte em Belo Horizonte e no Estado de Minas Gerais. Hoje, vou falar um pouco sobre as relações entre Esporte e Eugenia, dando como exemplo um evento esportivo do ano de 1959.

As relações entre esporte e Eugenia sempre me interessaram. Vale lembrar, que a eugenia foi uma corrente de pensamento que dominou os círculos de poder desde o início do século XX, e a exemplo do papel representado pela Higiene na transição dos séculos XIX e XX,  foi mais um movimento que conquistou pessoas influentes no campo político, ganhando espaço em países como os Estados Unidos e a Alemanha na administração pública. Por trás do discurso principal de seleção genética e melhoramento da raça, a eugenia conquistaria a partir de um discurso pseudo-científico grande espaço e poder político, e viria experimentar o auge de suas teorias racistas durante a Segunda Guerra Mundial.

O esporte seria então um mecanismo imprescindível para o melhoramento da raça, para elevação espiritual de uma nação. Os atletas, exemplos perfeitos de uma raça melhorada, deixavam multidões boquiabertas com seus feitos. Podemos perceber esse discurso em alguns eventos envolvendo a prática esportiva. O mais conhecido deles, foram os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, retratados no filme Olympia, de Leni Riefenstahl.

Mas não precisamos ir tão longe, pois no Brasil os ideais eugênicos também estiveram em voga. Mesmo com o fim da Segunda Guerra, esses valores ainda perduraram por muito tempo, e eram frequentemente relacionados à prática esportiva. É o que podemos constatar em um evento que aconteceu em Belo Horizonte em novembro de 1959. A II Ginástica Feminina da Primavera era um festival de ginástica, que reuniu delegações de cidades como Ubá, Rio de Janeiro e Belo Horizonte em torno da prática esportiva.

Destaco abaixo o texto da reportagem da Revista Alterosa nº 318, de novembro de 1959.

Aos olhos encantados do grande público que acorreu para prestigiar as equipes integrantes – desfilaram, em números aplaudidos, jovens que bem expressam, na exuberância de seu aprimoramento físico e beleza feminina, o esplendor da nova geração brasileira. (…) Todas as equipes se caracterizaram pela homogeneidade de movimentos coreográficos e alto índice de beleza física, numa comprovação dos benefícios resultados da ginástica moderna. Foi, na realidade, festa de eugenia e beleza, evidenciando a eternidade da legenda helênica: mens sana in corpore sano, que deveria ser o roteiro da mocidade universal para a elevação espiritual dos povos. (p.56)

A Ginástica Feminina da Primavera mostra que os ideais eugênicos estiveram em voga durante muito tempo no Brasil e no mundo. O esporte seria também responsável pelo desenvolvimento do corpo e o aprimoramento da raça, que deveria ser dotado de força, utilidade e beleza. Os valores esportivos se disseminaram mundo afora, o que contribuiu para que ele se tornasse uma das práticas mais massificadas do planeta.
Para saber mais:
Livro: BLACK, Edwin. A Guerra contra os Fracos: a eugenia e a campanha dos Estados Unidos para criar uma raça dominante. São Paulo: A Girafa Editora, 2003.
Filme: Olympia – Leni Refensthal (1938). Link para o filme no Youtube
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