Educação Physica na província de Goyaz (1876-1892)

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

 Até os fins da primeira metade do século 20, o desenvolvimento do esporte e da educação física em Goiás esteve profundamente relacionado, se não quase totalmente dependente de instituições militares – o Exército, sobretudo. Sintomaticamente, a primeiríssima iniciativa de ensino formal de ginástica em instituições educacionais da região data de 1876, quando o governo Imperial criou a Companhia de Aprendizes Militares de Minas Gerais e Goiás, em resposta às preocupações deflagradas pela Guerra do Paraguai. O objetivo da iniciativa era garantir mecanismos de treinamento e mobilização militar em regiões onde não houvesse Arsenal de Guerra e que estivessem mais ou menos próximas de fronteiras potencialmente susceptíveis a beligerância, como o vasto Oeste do Mato Grosso, que até 1978 dizia respeito também ao atual Mato Groso do Sul e que mostrara-se de patrulhamento particularmente difícil durante a Guerra do Paraguai.

“Órfãos”, “indigentes”, “desvalidos”, “abandonados” e “sem amparo de família” constituíam o principal público-alvo da Companhia de Aprendizes Militares, popularmente conhecida como Quartel de Menores. A maioria dos filhos de famílias ricas, contudo, nem sequer cogitava passar diante dos seus portões. Não lhes parecia atrativo formar um contingente de reservas para eventuais guerras sangrentas, quiçá mortíferas, nas fronteiras internacionais do Brasil. As condições gerais de funcionamento de unidades militares, além disso, eram pouco convidativas. Humilhações, castigos corporais frequentes, absoluta falta de higiene, sem mencionar o indesejado convívio com negros e pobres (maioria entre os praças) tendiam a afastar os abastados das fileiras do Exército. A infraestrutura geral das Forças Armadas permaneceu por tanto tempo tão precária, que em princípios da década de 1920, funcionários do alto escalão poderiam ainda dizer em seus relatórios que alguns quartéis pareciam “senzalas imundas”, como o fez João Candiá Calógeras enquanto era Ministro da Guerra no governo de Epitácio Pessoa (1919-1922). Nesse quadro, por muitos anos ainda, as elites brasileiras alimentariam verdadeira ojeriza pelo serviço militar.

Fonte: José Wasth Rodrigues, Uniformes militares. Museu Histórico Nacional.

Mas o Quartel de Menores tinha também um papel educativo, o que eventualmente tornava-o atraente a alguns filhos de famílias pobres, que poderiam estar interessados, além disso, no soldo oferecido a seus alunos: espécie de “bolsa-quartel” da época. Além da instrução militar propriamente dita, aulas de música e primeiras letras compunham as atividades da nova instituição. Do ponto de vista da educação do corpo, especificamente, ginástica e natação eram também ofertadas a seus conscritos. Há tempos oficiais do Exército reconheciam a importância de um adequado treinamento físico para formação dos soldados. Em meados da década de 1880, já se falava do papel da ginástica na educação militar, na promoção de hábitos higiênicos ou no melhoramento da “raça”.

No Quartel de Menores de Goiás, o programa das aulas de ginástica deveria constituir-se por “movimentos de equilíbrio” e “exercícios ginásticos acomodados à sua idade e compleição, próprios para desenvolverem-lhes as forças e agilidade”, conforme previa seu regulamento. Para isso, segundo revelam os relatórios financeiros da instituição, utilizavam-se “escápulas”, “barras de madeira” e “cintos de ginástica”.

Ao longo das primeiras décadas do século 20, militares tiveram presença marcante na organização de práticas de esporte e educação física em Goiás. Na foto, cerimônia do tiro de guerra, do Lyceu de Goyaz, s/d. Fonte: BRETAS, Genesco Ferreira. História da Instrução Pública de Goiás. Goiânia: Cegraf / UFG, 1991, p. 578.

 Até 1892, quando foi extinta, pelo menos três professores assumiram as responsabilidades por tais atividades na Companhia. Pio Ferreira da Silva foi o que permaneceu por mais tempo. A contratação dos “Mestres de Ginástica e Natação”, título pelo qual eram tratados, bem como a de todos os outros professores estava a cargo do presidente da Província, que deveria indicar-lhes, quase sempre por motivos políticos. Eram geralmente civis, sem vínculo formal com o Exército. Apenas os cargos de Comandante, Fiscal, Secretário, Quartel-Mestre e Instrutor eram reservados especificamente a oficiais de carreira.

O salário desses professores girava em torno de quinhentos mil reís, valor suficiente para adquirir 50 assinaturas anuais de algum dos jornais editados em Goiás à época, ou então comprar 750 quilos de toucinho, café ou arroz. Era o mesmo salário de um Mestre de Música ou de um Enfermeiro, mas quase 50% menor que um Professor de Primeiras Letras e 1/3 do valor pago a um Comandante. Têm profundas raízes históricas, portanto, a valorização desigual de diferentes atividades educativas.

Atletas de Catalão, interior de Goiás, onde funcionou o tiro de guerra 237. Fonte: Paratéca, 1940. Museu da Imagem e do Som de Goiás.

 Com a proclamação da República e o predomínio da influência positivista no Exército, que disseminou em parte de suas fileiras a crença na paz universal, extinguiu-se o Quartel de Menores e junto com ele as aulas de ginástica e natação. Leopoldo de Bulhões, eminente político goiano, correu às páginas do jornal O Publicador Goyano e lamentou o fim da Companhia. Segundo ele, “ninguém ignora a utilidade de tal instituição: ali encontra o órfão, esse coitadinho desprotegido da fortuna, o conforto para os seus sofrimentos, recebendo bom alimento, bom vestuário, o cultivo intelectual necessário, aprende a musica, a ginástica de desenvolver o seu físico, tornando-o forte de fraco que era”.

Seria preciso esperar o século 20 para a retomada de atividades desse tipo em Goiás, mesmo assim, sem relações óbvias de continuidade histórica com as experiências do Quartel de Menores. Em 1890, o Instituto Episcopal, ligado ao Seminário de Santa Cruz, até anunciou o início de aulas de ginástica, mas a iniciativa, se efetivada de fato, durou pouco de todo modo, extinguindo-se por ocasião da transferência da sede do Episcopado para Uberaba. “Transferência”, na verdade, talvez seja apenas um modo polido de dizer o que de fato ocorreu. Em português claro, Dom Eduardo, bispo de Goiás à época, fora praticamente expulso a pontapés. A impopularidade de suas ações repressivas às festas populares goianas concorreu em grande medida para instabilidade política de seu bispado. Uma história incrível, quase burlesca, que mereceria também ser contada…

Assim permaneceu Goiás por alguns anos mais: sem ginástica, sem natação, sem educação física enfim. Apenas em 1917, novamente com marcante presença militar, Goiás voltaria a conhecer iniciativas regulares para a educação física de sua população. Mas isso são cenas de um próximo capítulo, ou melhor, de um próximo post, pois já vou me alongando demais.

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: