O futebol de salão na literatura

Por Edônio Alves

Em homenagem ao heptacameponato mundial de futebol de salão conquistado ontem, na Tailândia, pela Seleção Brasileira da modalidade, trago a este blog, dentro daquela nossa proposta de relacionar sempre o futebol com a arte da literatura, a análise de um conto de ficção em que este esporte figura como tema central. Dententor de uma hegemonia inquestionável no futebol de salão do planeta, o Brasil – como se não bastasse ter ganho sete vezes a taça mundial -, ostenta ainda o privilégio de possuir o maior jogador de futebol da modalidade, o nosso Falcão, que acaba de disputar a sua última Copa do Mundo pela seleção canarinho. A narrativa que segue, analisada em seus detalhes literários e estéticos – e porque não dizer técnico e táticos – trata da figura do goleiro no futsal, um personagem do futebol sempre rico em caracteres humanos e esportivos. Boa leitura!

Homem vestido de negro

Lourenço Cazarré

 Como já antecipamos acima, esta narrativa tem como objeto o futebol de salão e como tema o talento e a figura de um goleiro virtuose na sua função debaixo das traves. É narrada em primeira pessoa para um interlocutor virtual inominado a quem outro goleiro confessa sua admiração pelo mestre que certa vez enfrentou sem sucesso. Desta feita, a figura do goleiro é heroicizada utilizando-se para isso um recurso narrativo adequado: o solilóquio – tipo de diálogo sempre útil por meio do qual uma personagem pode expressar para outra, com a verossimilhança da sinceridade testemunhada, as suas impressões sobre as coisas e os seres deste mundo.

Isso pode ser visto já no início do conto quando a história principia com a resposta a uma pergunta virtualmente feita pelo interlocutor do narrador que, a partir daí, toma a palavra numa conversa em primeira pessoa: “A melhor partida? Sei lá! Foram tantas”.

E a prosa continua, em ritmo de papo informal com o relato que segue, em seus momentos principais:

“Ah, tem uma! Aquela foi inesquecível: jogamos contra uns caras que trabalhavam num matadouro. Uma noite infernal.

Foi assim”.

Com esse gancho dêitico, o narrador continua o relato esmerando-se em apresentar as circunstâncias de tempo e de espaço em que a tal partida se desenrolara, numa tarde-noite de muito calor em certo dia, no ginásio da cidade. Os pormenores da atmosfera pesada do clima e sua influência sobre a fisiologia humana são realçados ao máximo como pretexto funcional para que se apresente ao leitor as características daquela variante do jogo de futebol, o futebol de salão, ou futsal, como a modalidade é hoje mais conhecida:

“Ah, sim, claro, estou falando aqui é de futebol de salão e não desse negócio sem graça que é o futebol de campo. Estou falando de um jogo que é disputado numa quadra de cimento liso por caras que correm feito loucos, que trombam e caem a todo instante porque o campo é pequeno e a velocidade deles é tremenda. Caem e levantam no mesmo instante. Não tem aquela moleza do futebol de campo, com o sujeito se rebolando na grama só para engabelar o juiz”.

E a comparação entre os dois tipos de futebol não pára por aí. Prossegue com o intuito claro de supervalorizar o futsal em oposição ao congênere dos gramados – como, aliás, costumam fazer muitos dos amantes do jogo de futebol em geral – que, com efeito, quaisquer que sejam suas condições de prática, se na rua ou nos estádios, nas praias ou nas quadras fechadas, é o mesmo, no geral, para os goleiros. É aqui, pois, que o narrador introduz habilmente, sugestivamente, sorrateiramente, na conversa, o tema da sua história:

“De repente, o Magro me bateu no ombro e disse:

– Eu é que não queria estar na tua pele: vestir camiseta de goleiro com este baita calor!”

Pronto, está dada a deixa para a figura do goleiro entrar na narrativa como seu tema principal. E mais: com toda a sua carga de personagem um tanto marginal, mescla de herói e anti-herói, um tanto síntese ambígua e polissêmica (por isso, um tanto polêmica) de salvador e de vilão em meio à plataforma estrutural e comunicativa do jogo de futebol. E para demonstrar a sua capacidade criativa, no que tange à construção de estórias curtas de cunho ficcional tematizando o jogo da bola, o escritor Lourenço Cazarré aproveita-se da estrutura do conto – sempre curto, otimizado ao máximo em seus recursos expressivos – e com apenas dois diálogos sintetiza o universo funcional sempre controverso do goleiro; tanto no contexto do jogo como no da trama, simultaneamente:

“- Jogar no gol é moleza – continuou o magro. – Goleiro fica o tempo todo parado.

– Parado não quer dizer descansado – retruquei”.

E arremata (ele, o narrador) com essa: “Não se podia dar muita conversa ao magro. Ele vivia sempre tentando arranjar uma discussão”.

Segue agora, depois de um papo de vestiário entre os colegas de time, o momento em que o Magro, companheiro de clube, coloca em cena o personagem central do conto:

“- O pior para nós é o goleiro deles…”

Após o esclarecimento de quem se tratava, o narrador é taxativo:

“- Claro – eu disse. – Não vai dá pra nós. Ninguém mete gol nele”.

A narrativa, então, muda de tom, vazada agora num viés mais intimista, quase confessional. É o momento em que o relato torna-se memorialístico, com as reminiscências infantis do personagem-narrador moldando com uma espécie de ternura apaixonada um retrato pouco comum da figura dos goleiros em narrativas de futebol:

“Quando eu era pequeno, nas noites de sábado, meu pai me levava para assistir às partidas do campeonato de futebol de salão da cidade. No início eu não prestava muita atenção nos jogos porque, a todo instante, meus olhos se voltavam para os homens debaixo das traves. Eu era fascinado pelos goleiros. Torcia por eles, vibrava quando um deles, qualquer um, fazia uma defesa. Achava meio estúpido aquilo de correr atrás da bola. O legal era ficar debaixo do gol, esperando o ataque”, registra com saudade.

Uma digressão que não retarda o texto, mas, muito ao contrário, serve para adiantar o ponto nodal da trama, a configuração prosoprográfica do seu personagem nuclear, é utilizada para além disso, para encenar uma representação social muito comumente colada às emblemáticas e fascinantes figuras dos goleiros de futebol:

“Dentre os goleiros, o meu preferido era o Catofe. Não só porque ele era o melhor, e ele era de longe o melhor, mas principalmente porque era o mais elegante. Sempre impecável. Alto, magro, só se vestia de negro: tênis, meias, luvas, calção e camiseta. Até as joelheiras eram negras! Estava sempre bem penteado: o cabelo loiro besuntado de brilhantina, repartido no lado por uma risca perfeita”.

A digressão então se encerra com uma chave retórica típica: “Está bem, volto ao jogo que lhe contava”.

E a história caminha para o seu final com o narrador explicando, antes, como fora a partida: o entrosamento antigo do seu time que de nada servira, embora tenham jogado uma barbaridade; as qualidades do seu principal jogador, o Boca, que chutava muito bem etc., e uma conjectura que lhe viera à cabeça sobre a filosofia pragmática do esporte.

“No futebol de salão, ganha quem erra menos. O sujeito não pode chegar um milésimo de segundo atrasado. Todo erro é fatal. É jogo de paciência, de espera. Pra ganhar é preciso acertar quando o adversário erra. É como na vida, o sujeito só sobe quando o outro falseia a passada”.

Em momento algum, portanto, o grande goleiro falseou a passada porque o time do narrador desta história não venceu aquele jogo.

“E por que isso?, se pergunta, a certa altura.

“Ora, por causa daquele goleiro, o goleiro do time do matadouro de porcos, o alemão velho, o que chamavam Catofe”, responde a si mesmo, para logo em seguida confessar ao seu interlocutor oculto:

“Quando terminou a partida, saí correndo do meu gol, comovido. Atravessei a quadra, abracei o Catofe pelos joelhos e levantei ele. Ele ficou meio espantado com aquilo porque há muito tempo não tinha mais fãs. Mas, depois, passou a mão pelos meus cabelos e disse:

– Valeu Guri!”

Isso porque o narrador registra que ele pegou todas. Que guarnecia o gol inteiro, porque sempre, com uma perna ou um braço, ele mudava a trajetória da bola, viesse ela de onde viesse. Enfim, que o goleiro fechou o gol.

Essa, todavia – esse “Valeu guri”-, é a expressão-chave da história, o seu fecho de ouro, porque logo mais à frente, o narrador conclui, emocionado:

“Como lhe disse, daquela época para cá, joguei centenas de partidas. Esqueço todas, nem contos os gols. Mas aquele zero a zero com os caras do matadouro não consigo esquecer. Até hoje eu ainda me lembro da leveza do corpo magro dele. Vejo o espanto nos olhos dele. Sinto o peso da mão dele, enluvada, na minha cabeça. Escuto a sua voz rouca me dizendo:

– Valeu, guri”.

PARA SABER MAIS:

Lourenço Cazarré, o autor da história acima, nasceu em Pelotas (RS) em 29 de julho de 1953. Desde 1981, ano em que saiu seu primeiro livro, Agosto, sexta-feira, treze, este escritor e jornalista gaúcho já teve mais de duas dezenas de obras publicadas. Grande contista brasileiro, conquistou o Prêmio Açorianos de Literatura, na categoria Contos, em 2002, com Ilhados. Esteve presente por duas vezes na Bienal Nestlé de Literatura, em 1982 e 1984; no Prêmio Jabuti, em 1999 e em mais de uma dezena de outros concursos. Sua novela, O mistério da obra-prima, foi traduzida para o espanhol e editada pela Fondo de Cultura Económica, do México. Entre sua obra infanto-juvenuil destacam-se os livros, Clube dos leitores e histórias tristes, A cidade dos ratos: uma ópera-roque, Quem matou o mestre de matemática? e Nadando contra a morte, que levou o Prêmio Jabuti de 1999. O conto, O homemvestido de negro, foi publicada na coletânea, 11 Histórias de futebol, integrante da Coleção Prosa Presente, da Editora Nova Alexandria, de São Paulo, que saiu em 2006.

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