Seleção Brasileira sim, Nacional não

Por: André Alexandre Guimarães Couto

guimaraescouto@yahoo.com.br

Em tempos em que a seleção brasileira de futebol é tema de discussão da imprensa por seu desgoverno e  não por seus resultados expressivos em campo, cabe uma reflexão e um olhar no passado acerca da composição dos jogadores que nela atuavam.

O Jornal dos Sports (JS), na década de 1930, criava representações sociais e nacionais em suas páginas a partir da defesa dos interesses brasileiros, ou seja, da identidade e das cores do Brasil no cenário internacional, ao propor uma seleção mais técnica, mais forte e, portanto, mais adequada e representativa do verdadeiro futebol brasileiro. Mesmo não tendo uma posição de destaque no cenário mundial, como já era a seleção uruguaia, por exemplo, já se criavam condições na imprensa para exigir uma legítima forma barsileira de se jogar.

Assim, a única Copa do Mundo coberta pelo JS no período de Argemiro Bulcão (seu editor e proprietário no período de 1931 a 1936), a de 1934, era um sinal de derrota não só da seleção brasileira, mas também, da oportunidade de mostrarmos ao mundo como os esportes nacionais estavam avançados e competitivos, símbolos de uma sociedade mais ajustada, moderna, ordenada e disciplinada.

O fiasco dos atletas brasileiros nos Jogos Olímpicos de 1932 e a briga entre CBD e FBF na Copa do Mundo de 1934 eram perdas muito fortes, para o jornal, na construção de um novo brasileiro que merecia maior destaque no âmbito internacional.

Para o JS, o futebol já era, na primeira metade da década de 1930, um símbolo do valor do novo homem brasileiro, mais voltado para o futuro e para uma modernidade cujos sentidos fossem valorizar a excelência na relação entre trabalho, vigor físico e saúde perfeita, disciplina e organização.

Para melhorar a qualidade do futebol brasileiro, todavia, era necessário buscar mais amplitude do principal esporte nacional. Ou seja, era importante que o futebol, que já era praticado em todo o país, pudesse ser mais organizado e que contasse com a criação de clubes e ligas estaduais e regionais para além do eixo Rio-São Paulo. O futebol representava o homem brasileiro, que estava presente em todo o território nacional:

A Evolução do Football Brasileiro

Uma época houve em que o football brasileiro evolucionou bastante, surgiram jogadores de qualidades excepcionaes, tivemos comjunctos harmônicos que actuavam com uma notoria efficiencia. Veio, depois, um período de declínio, sensivelmente no Rio e em São Paulo. Foi imposta uma disciplina mais rigorosa, um regimen mais severo de treinos, de preparo physico e surgiram, indiscutivelmente, quadros mais perfeitos do que ha alguns annos passados.

Uma vez que existe uma Federação Brasileira de Football é de presumir-se que a sua acção não se circunscreva ao Districto Federal e a São Paulo, no que concerne ao interesse pelo progresso technico e diffusão do football.

Deve ter maior amplitude e extender-se a outros Estados, o que póde ser conseguido, entre outros meios, com um intercambio mais intenso, com a realização mais frequente de partidas interestaduaes, effectuadas não apenas em São Paulo e no Rio mas em outras cidades. Um seleccionado carioca e outro paulista que excursionassem através do Brasil, produziriam um notavel incremento no football, movimentariam grandes assistências, concorreriam, em summa, para a evolução do football brasileiro.

           Vemos nesta passagem a preocupação em associar a evolução do futebol com uma “disciplina mais rigorosa”, “um regime mais severo de treinos” e “preparo físico”, para justificar uma evolução natural da capacidade do brasileiro para jogar futebol. Portanto, para o jornal, com o desenvolvimento físico dos nossos atletas, o nosso futebol poderia se tornar mais competitivo e representativo.

Porém, era necessário regionalizá-lo, levando a expertise carioca e paulista para todos os cantos do país, informando, então, que a capacidade técnica e organizacional destas duas cidades da região sudeste era o futuro do melhor futebol brasileiro. Para continuarmos nesta linha de desenvolvimento esportivo, os demais estados, portanto, deveriam seguir o modelo construído e projetado por Rio e São Paulo.

O JS, desta forma, valorizava o esporte nacional, mas centralizava justamente este valor do esporte e como consequência, do homem brasileiro moderno, nestas cidades, pois ali seria a origem e o meio para o futebol seguir seu rumo vitorioso. Em contrapartida, além de poucas menções a Minas Gerais, o que já era raro, as referências do futebol praticado nos outros estados mereciam pouquíssimas ou nenhuma importância nas páginas do jornal.

Desta forma, por mais que o jornal pretendesse ampliar geograficamente o raio de atuação desta prática desportiva e, com isso, intentava melhorar a qualidade do futebol brasileiro, partia-se de uma centralidade em torno do eixo Rio-São Paulo. Ou seja, não se discute um aproveitamento de outras partes do Brasil no modus operandi do futebol nacional, mas sim uma divulgação de uma forma pré-estabelecida por Rio de Janeiro e São Paulo.

A centralidade que era criticada pelo jornal também era, sob o aspecto discursivo, defendido pelo mesmo.

E hoje, qual é o espaço que as demais regiões ocupam em nossa mídia esportiva? Bem, esta discussão fica para um próximo texto.

Referências Bibliográficas:

A EVOLUÇÃO do Football Brasileiro. In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, nº 951, 24/06/1934. p. 2. Coluna Críticas e Suggestões.

COUTO, André Alexandre Guimarães Couto. A hora e a vez dos esportes: a criação do Jornal dos Sports e a consolidação da imprensa esportiva no Rio de Janeiro (1931-1950). São Gonçalo: UERJ/FFP, 2011. Dissertação de Mestrado.

HALL, Stuart. A Centralidade da Cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Disponível em: <http://www.gpef.fe.usp.br/teses/agenda_2011_02.pdf&gt;. Acesso em: 26/11/2012.

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O cor-de -rosa: ascensão, hegemonia e queda do Jornal dos Sports entre 1930 e 1980. In: HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de e MELO, Victor Andrade de. O esporte na imprensa e a imprensa esportiva no Brasil. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012. No prelo.

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