Netball, uma paixão das garotas e mulheres Australianas – mas somente delas?

                                                                                                                 Jorge Knijnik

‘Corra atrás quando sempre

Desta lúdica fiança

Conviver entre as mulheres

Dá aos homens mais confiança’

(Xandão, 2006)

 

Netball (antigamente chamado de  ‘basquetebol para mulheres’) é um esporte que teve as suas primeiras regras oficiais formuladas na Inglaterra em 1901, e  rapidamente se expandiu pelo mundo, principalmente entre os países pertencentes ao antigo Império Britânico. Melhor,o netball se espalhou velozmente entre as mulheres dos países pertencentes ao Commonwealth [1] Britânico.

Na Austrália, o jogo é uma febre entre meninas e mulheres: algumas estatísticas dão conta de mais de meio milhão de participantes nos diversos níveis onde se pode jogar netball – crianças a partir de 7 anos, amadoras, profissionais, veteranas, etc –  o que colocaria o netball no topo dos esportes mais praticados neste país. Na Nova Zelândia, aparentemente o netball só perde em número de participantes para o rúgbi. Enfim, por estas bandas do globo se joga muito netball. Não é por acaso que,  atualmente, ambos países detêm, respectivamente, o título de campeão e vice-campeão mundiais.

Entretanto, alguns leitores (e leitoras, afinal, este em tese é um esporte para mulheres!) de língua portuguesa podem se perguntar: mas afinal, que esporte é esse, do qual nunca ouvimos falar?

Netball é um esporte que se joga em uma quadra com sete jogadoras em cada equipe. As jogadoras têm posições pré-definidas, e cada uma destas só pode jogar em determinados locais da quadra. Ninguém tem autorização para percorrer a quadra toda. Por exemplo, uma das posições mais dinâmicas, a Centre (C), é geralmente ocupada por jogadoras não muito altas, mas ágeis e velozes, que conseguem se deslocar tanto no ataque quanto na defesa; entretanto, elas não podem entrar no ‘goal circle’ (área para se pontuar), de modo que não podem arremessar na cesta (ring). Dentro de cada uma destas áreas há um poste com uma cesta (sem tabela), e obviamente o objetivo do jogo é colocar a bola lá dentro, ganhando um ponto (goal) a cada vez.

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As jogadoras não podem andar com a bola, tampouco driblar (bater) a bola no chão, o que faz com que este seja um jogo extremamente coletivo, no qual o passe preciso é uma das  principais armas de uma equipe para chegar com a bola na ‘goal circle’ adversária e tentar o arremesso.

Como se pode perceber, no netball há uma série de restrições ao movimento das jogadoras. Não podem andar com a bola na mão, tampouco driblar a bola; só podem ficar em determinados lugares da quadra – há posições, tais como a ‘Goal Shooter'(arremessadora) que só pode atuar na parte ofensiva da quadra (o seu ‘goal third’, exatamente um terço da quadra); a contrapartida desta atacante é a Goal Keeper (aquela que literalmente defende a sua cesta, o seu goal, contra a goal shooter adversária) que apenas se desloca no seu campo (um terço) defensivo.

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Posições do netball: Goal Keeper (GK); Goal Defense (GD); Wing Defense (WD); Center (C); Wing Attack (WA); Goal Attack (GA): Goal Shooter (GS)

Na época de sua codificação (início do século XX) estas restrições ao movimento das jogadoras estavam profundamente ancoradas nas concepções histórico-sociais daquilo que se considerava  ser o ideal para uma atividade física para mulheres: nenhum contato físico, poucos deslocamentos e poucas corridas…Enfim, tudo adaptado a uma determinada visão do corpo da mulher, ao ‘frágil’ corpo feminino que se queria manter assim. Um esporte para mulheres, um pouco de atividade física para elas, mas sem muita ‘suadeira’, e sem muita ‘porrada’… As restrições  aos movimentos também passavam pelo fato das mulheres usarem saias longas, que impediam ou dificultavam as corridas e o drible da bola. Enfim, tudo adequado às ideologias dominantes que pretendiam restringir o corpo da mulher, para que esta ‘conservasse a sua energia’ melhor , como diria Edward Clarke no seu clássico Sex in Education, or a Fair Chance for the Girls (1873). Claro que estas ideologias propagavam que a principal função feminina era a procriação, de modo que as atividades físicas e esportes deveriam levar sempre isso em conta. Ou seja, se adequadamente supervisionadas para se evitar todos os possíveis ‘excessos’, os educadores do final do século XIX acreditavam que atividades físicas controladas poderiam ajudar o desenvolvimento do corpo feminino, ao mesmo tempo diminuindo os rigores do trabalho intelectual – estamos aqui falando de garotas que frequentavam escolas, ou seja, de uma classe social que tinha acesso a educação.

Importante ressaltar que, se a codificação oficial do netball se deu na Inglaterra em 1901, o esporte surgiu antes, começando a ser jogado em colleges norte-americanos em um período muito semelhante ao do basquete, por volta dos anos 1870. Ou seja, se jovens mulheres naquela época já experimentavam atividades físicas individuais (ciclismo, golfe, natação, remo, etc), também havia a necessidade delas experimentarem um jogo coletivo, e indoor para o inverno, tal qual os rapazes começavam a jogar basket-ball.  Entretanto, como havia ainda muita ‘desconfiança’ (para não dizer preconceito) em relação às atividades esportivas para mulheres, Senda Berenson, então contratada como professora de ginástica no Smith College, em Northampton, Massachussets, começou a ‘desmasculinizar’ o basquete, configurando desta forma os primórdios do netball. No jogo criado por Berenson, havia a possibilidade de se bater três vezes a bola no chão, mas gestos ‘agressivos’ tais como  arrancar a bola da mão ou rebatê-la estavam proibidos, uma vez que eram inadequados a suposta graça feminina. Berenson acreditava que ‘jogadas ásperas e duras têm aparência muito mais desagradável em mulheres que em homens; se estes precisam disso para mostrar sua masculinidade, jogadas grosseiras não devem ser admitidas entre mulheres’ [2]. Mais importante, entretanto, foi a divisão da quadra em três espaços iguais. Berenson, assim como muitos a sua época, pensava que as mulheres não tinham a mesma capacidade física dos homens para correrem e se cansarem; assim, restringindo o espaço no qual elas poderiam correr, evitava-se que as jogadoras de netball chegassem à exaustão. Chegava-se, como diria Chepko, em um jogo de basquetebol adaptado, ‘domesticado’ para mulheres que de fato deveriam também serem ‘domesticadas’.

Como dito anteriormente, o jogo de Berenson ganhou suas regras oficiais na Inglaterra em 1901 – sete jogadoras com posições pré-definidas (todas elas usam letras na frente e atrás de seus uniformes para identificar a sua posição – podem trocar de posição nos intervalos entre os quartos de 15 minutos de um jogo oficial) impossibilitadas de se deslocar com ou de driblar a bola.

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Goal Keeper e Goal Defense do time jamaicano-a  Jamaica já joga sem os saiotes, mas com bermudas esportivas.

Vindo para a Oceania…

A partir de então, o jogo foi navegando, navegando com os colonizadores, até aportar nestas praias Australis…e na Nova Zelândia…Onde se firmou como o maior esporte praticado por mulheres, desde os primórdios do século passado até os tempos atuais. Desde a década de 1960, já aconteceram 13 campeonatos mundiais de Netball, sendo que a Austrália levou 10, a Nova Zelândia 4, e Trinidad Tobago 1 – uops, eu sei que as contas não batem, mas em 1979, em Trinidad Tobago houve um tríplice empate na primeira posição entre os três países…

Interessante notar, entretanto, que, apesar da grandiosidade dos números, o Netball nunca teve uma cobertura midiática proporcional a sua grandeza por aqui – tampouco foi alvo de grandes estudos historiográficos ou sociológicos. como grande parte dos esportes australianos. Alguns poderiam dizer que isso se deve ao fato de Netball não ser um esporte Olímpico…mas este argumento cai por terra quando observamos a atenção que o Futebol Australiano [3] sempre teve tanto da mídia quanto da academia. E olhem que a Austrália manteve uma quase supremacia internacional no Netball, tendo sido o primeiro time a se sagrar campeão mundial de Netball em 1963. Já fica aqui uma boa dica para quem quiser vir pesquisar esporte e mulher por aqui…

Não se sabe ao certo o ano em que o ‘basquetebol de mulheres’ foi introduzido na Austrália. Com certeza suas raízes são inglesas, tendo provavelmente sido trazido para cá por professores e professoras primários nas últimas décadas do século XIX –sendo que o primeiro jogo de ‘basquetebol de mulheres’ (o nome netball veio depois) que se tem notícia por aqui ocorreu no estado de Victoria em 1897, jogado com uma boa dose de improvisos… tais como postes feitos de varetas de madeira e cestas de sacos de papel molhados! Mas ao final do século XIX o jogo passou a ser praticado em áreas externas, por conta da insuficiência de ginásios esportivos para a prática – e também porque esportes outdoor combinam com o clima australiano. Como já comentei anteriormente, e em face da proliferação do netball e ao mesmo tempo da incerteza de como se jogar o esporte de fato, em 1901 a Ling Association of England publicou as primeiras regras oficiais do jogo – ja então com seu nome próprio, associado as rings (grandes anéis) e as redes que haviam substituído as cestas do basquete. As regras oficiais tambem possibilitavam que se jogasse netball com 9, 7, 6 ou cinco jogadoras de cada lado – e diversas versões do jogo aconteciam ao mesmo tempo nos diversos estados australianos. A oficialização do jogo com sete em cada time veio apenas durante o primeiro campeonato mundial ocorrido na Inglaterra, em 1963.

Desde o início do século XX, o jogo incendiou as meninas australianas, tanto em escolas como nas ACMs espalhadas pelo país. Jogado em quadras, ou mesmo em saguões de escolas ou igrejas, o netball não competia por espaços outdoor com outros jogos ‘de homens’, como cricket ou todos os códigos do futebol. Por ser um jogo que, ao invés de questionar as estritas normas da feminilidade almejada de sua época, se adaptava a elas, o netball pode crescer sem grandes oposições sexistas. Estavam deixando o ‘jogo das meninas’ ter a sua chance – e elas agarraram forte esta ‘deixa’! Ao se manter em uma esfera totalmente separada dos esportes masculinos, o netball pode se desenvolver e se fortalecer enquanto um esporte de mulheres, não apenas jogado mas tambem totalmente controlado por elas- técnicas, árbitras, dirigentes, todas mulheres. Isso se mantém quase do mesmo jeito…até os dias de hoje! Elas não querem que os homens entrem, apitem ,dirijam…Um exemplo disso foi quando, em 1950 a Associação de Netball do Northern Territory pleiteou uma vaga como membro da Associação Nacional de Netball: como o pleito provinha de uma Associação regional que mantinha times tanto de mulheres quanto de homens, e alguns homens faziam parte da direção da entidade, o Northern Territory só foi aceito depois de muita discussão e ao ser forçado a criar duas associações de netball separadas, uma somente para e por mulheres…

Meninos jogando netball…e eu…

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 Hoje em dia, muitos garotos jogam netball. Ou pelo menos querem jogar, mas volta e meia são vítimas de preconceitos, e mesmo de discriminação. No ano passado, no estado de Victoria, a Associação local proibiu que um menino de 15 anos entrasse em sua competição principal, dos melhores times. As garotas dos outros times reclamavam que era muito difícil jogar contra ele, que ele desequilibrava o jogo por ser muito alto (1,81m). Queriam que ele fosse procurar uma competição de meninos para jogar. Foi um bafafá danado. O pai do garoto entrou na justiça, alegando que basicamente não existem competições de meninos, e que elas estavam vetando o acesso à prática esportiva ao seu filho. A melhor tirada deste imbróglio, na minha opinião, foi formulada por uma garota do time dele. Ela comentou que a irmã dela, de 17 anos, tinha 1,86 e que ninguém questionava o direito dela de competir… Meninas altas podem, meninos não?

Após um ano jogando futebol, há dois anos minhas três filhas optaram por entrar no netball. Eu a princípio desgostei do jogo: achei boba esta história de posições fixas…e a pouca mobilidade na quadra…Ficava mais irritado ainda com a coisa sexista, meninas com sainhas jogando – é ainda o uniforme padrão da maior parte dos times aqui, inclusive da seleção australiana.

Mas enfim, fui sendo levado pelas meninas. Assistimos pela televisão ao mundial de 2011 em Singapura – a final entre (claro!) Austrália e Nova Zelândia foi um jogão, decidido na prorrogação or um pontinho em favor da (yes!) Austrália.

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Algumas Diamonds…

Depois disso, a seleção Australiana (conhecida como as Diamonds, essas jogadoras possuem uma legião de fãs pelo país, fazem anúncio de tudo que é produto, organizam clínicas de netball em todos estados…) fez alguns jogos de exibição contra a Inglaterra em Sydney. Fomos assistir, e eu acabei me entregando ao jogo…Uma velocidade fantástica, um jogo com muito movimento e emoção do começo ao fim, super legal! Eu mencionei acima que o passe é uma das mais importantes habilidades no jogo;  mas foi assistindo a este jogo internacional que percebi que, mais que o passe, a coisa mais importante do jogo é saber se deslocar sem a bola. Enfim, precisa ser muito inteligente para achar o espaço certo na quadra a cada momento [4]. Uma jogadora só pode segurar a bola por 3 segundos, de modo que precisa encontrar companheiras livres de marcação  para receber o passe. Agora, aquele papinho que seria um jogo sem agressividade, propício para garotas  ‘delicadas’… bom, isso com certeza ficou no século XIX, pois o ‘pau come’ na disputa de bola, cada milímetro da quadra é disputado a ferro, fogo,  tapas e algumas cotoveladas… A ‘fragilidade’ feminina não entra em quadra, não senhor!

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Diamonds (Australia) X Silver Ferns (New Zealand) – o pau comendo na disputa da bola

A partir daí comecei a me interessar mais pelo netball, a olhar a sua prática com outros olhos. Como o esporte ‘de base’ aqui é feito, organizado e dirigido por voluntários [5], resolvi me envolver no assunto. No ano passado fui técnico do time das minhas filhas em uma competição indoor aqui perto de casa – as meninas juntaram algumas amigas, e criaram um time chamado ‘Jorge’s girls’ e lá foi o papai ser técnico…Para minha alegria, o time não usava sainhas, apenas umas bermudinhas pretas e camisetas vermelhas…Foi uma delícia… Apesar dos olhares tortos das árbitras, organizadoras, etc… Este ano estou repetindo a dose, com o time das amigas da escola…Sensacional ser técnico destas meninas de oito e nove anos, com aquele sorriso ‘ingênuo e franco’…  já aprendendo a se deslocar sem bola!

Mas ainda acho que o netball deveria mudar, crescer, ampliar os horizontes. Já estamos no século XXI. Aquilo que há mais de 100 anos foi um espaço seguro para as mulheres se desenvolverem esportivamente e socialmente (literalmente, poderia se dizer que era uma ‘safety net’ feminina…) tem que ser ampliado, se abrir para o mundo… Acabar com este sexismo, criar novas coisas, ganhar mais adeptos, trazer os meninos para confraternizarem e brincarem juntos, sem medo de estigmas, destruindo barreiras e construindo pontes …

Já há diversas experiências neste sentido. Neste mesmo ginásio de esportes em que minhas filhas  jogam a competição indoor, existe uma competição adulta mista – e o pessoal tem me chamado várias vezes para compor um time. Quem sabe no ano que vem eu não estou lá, jogando e (me) arrebentando em um esporte que foi muito bem cultivado pelas mulheres, mas que agora deve, pode e será de toda a humanidade?

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Netball misto!

NOTAS

[1] Commonwealth – Comunidade de Nações), normalmente referida como Commonwealth e anteriormente conhecida como a Commonwealth britânica, é uma organização intergovernamental composta por 54 países membros independentes. Todos as nações membros da organização, com exceção de Moçambique (antiga colônia do Império Português) e Ruanda, faziam parte do Império Britânico, do qual se desenvolveram.(fonte – Wikipedia)

[2] Berenson, S. The significance of Basket Ball for Women’, citada em Chepko, ‘The Domestication of Basketball’, p. 118.

 [3] Ver minha coluna aqui no Historia(s) do Sport mesmo https://historiadoesporte.wordpress.com/2012/04/23/o-nome-de-um-bilhao-de-dolares-ou-a-guerra-do-futebol-por-jorge-knijnik-1/

 [4]Meu querido amigo Diogo Castro iria adorar criar jogos inteligentes para jogadoras de netball inteligentes! A máxima de Neném Prancha cabe direitinho no netball:  Quem pede tem preferência, quem se desloca recebe’.

[5] Checar meu outro post aqui no blog sobre o assunto  https://historiadoesporte.wordpress.com/2011/02/21/esporte-e-voluntarismo-na-australia

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