Corridas de cavalos na Namíbia durante o domínio colonial alemão (1884-1914)

por Sílvio Marcus de Souza Correa

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Em 1884, o Segundo Império Alemão logrou obter algumas colônias no continente africano. Entre elas, a região que compreende a atual Namíbia. Na então colônia alemã do sudoeste africano, houve o maior contingente de imigrantes alemães durante o colonialismo na África. Em relação às outras colônias alemãs, a história colonial da Namíbia registra também o maior número de associações esportivas e recreativas. Por isso, algumas práticas desportivas que se desenvolveram na Namíbia fizeram parte dos primeiros capítulos da história do esporte no continente africano. Entre elas, destacaram-se as corridas de cavalo.

As corridas de cavalos eram organizadas por associações que reuniam criadores e proprietários de cavalos e demais amadores do turfe. Já no início do século XX, as corridas de cavalo faziam parte do calendário esportivo e festivo da então colônia alemã do sudoeste africano.

Segundo as memórias de Clara Brockmann, além da pompa dos uniformes dos oficiais nas tribunas, a elegância de roupas e dos chapéus com penas de avestruz fazia lembrar as corridas na Alemanha, se não fosse a paisagem agreste em seu entorno e na qual predominavam as acácias.[i]

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Páscoa, Pentecostes e Natal eram datas certas de festividades e para as quais se organizavam corridas de cavalo. Na Páscoa de 1909 foram realizadas corridas de cavalos e uma festa popular esportiva na Baía de Lüderitzbucht, onde havia sido descoberto diamantes em 1908. No jornal local foi publicado um anúncio do programa das corridas de cavalos e no qual informava-se sobre certas regras e modalidades das provas e valores dos respectivos prêmios. Os cavaleiros não podiam ser nativos. Aos nativos era permitida participação apenas na última prova: corrida de mulas. Aliás, o primeiro prêmio das seis modalidades para brancos variava de 200 a 500 marcos. Já o primeiro prêmio para a corrida de mulas era no valor de 100 marcos.[i] Uma semana depois, o jornal local publicou matéria sobre o evento, salientando a presença feminina e de autoridades oficiais, além da performance da banda musical de um navio imperial ancorada na Baía de Lüderitz e que animou o público durante o intervalo das corridas.[ii] Enfim, as corridas de cavalos eram uma ocasião especial para celebrar o colonialismo, sobretudo depois da guerra colonial (1904-1907) na Namíbia.

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Para as corridas de cavalos, a Baía de Lüderitz foi uma localidade proeminente por vários fatores. Nas memórias de Max Ewald Baericke, o Campo dos Bôeres naquela localidade era ideal para as carreiras.[i] Sua pista arenosa tinha a forma elíptica e sua extensão era de 800 metros. Havia uma tribuna, um placar para apostas e tendas para café e cerveja. Mulheres em suas melhores roupas elegantes, oficiais, marinheiros, soldados em seus uniformes, jóqueis em seus trajes esportivos e outros em roupas civis formavam uma assistência pitoresca. Os criadores de cavalos importavam garanhões.  Havia puros sangues e a maior parte deles importada da Cidade do Cabo. O valor das apostas era alto e os prêmios significativos. Em geral, as corridas de cavalos terminava com um baile e distribuição dos prêmios no grande salão do Hotel Kapps.

A consulta em jornais permite inferir que uma das primeiras referências às corridas de cavalo na então colônia alemã do sudoeste africano foi a notícia publicada no semanário da cidade portuária de Swakopmund, em meados de 1902. O evento esportivo foi realizado em Keetmanshoop, promissor “local de corrida do futuro em nossa colônia”, segundo o jornal.[ii] Mas se as corridas tiveram futuro na Namíbia, a colônia alemã não teve a mesma sorte. Em 1914 houve a ocupação de tropas sul-africanas e britânicas. Em 1919, os países aliados e vencedores da Primeira Guerra Mundial impuseram fim ao colonialismo alemão.

Através de práticas como as corridas de cavalos, a história do esporte e do lazer permite compreender a formação e a consolidação de um campo esportivo e de sociabilidades na então colônia alemã do sudoeste africano e, por conseguinte, algumas formas de reprodução de estruturas coloniais. Além disso, pode-se estudar algumas mudanças sociais, econômicas e políticas em sua correlação com as mudanças no campo esportivo.


[i] BAERICKE, Max E. Lüderitzbucht (1908-1914). Historische Erinnerungen eines alten Diamantensuchers aus der deutschen Diamantenzeit in Südwestafrika zwischen den Jahren 1908 und 1914 mit einer geschichtlichen Einleitung. Windhoek, NWG, 2001 p.175-176.

[ii] Deutsch-Südwestafrikanische Zeitung, Swakopmund, 17.07.1902.


[i] Lüderitzbuchter Zeitung, Lüderitzbucht, 13.04.1909, p.4.

[ii] Lüderitzbuchter Zeitung, Lüderitzbucht, 17.04.1909, p.5


[i] Brockmann, Clara. Briefe eines deutschen Mädchens aus Südwest, Berlin: Ernst Siegfried Mittler und Sohn,1912, p.131-132.

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