Gymnastica-espetáculo na Corte (Ou quando a gymnastica era theatro e circo)

por Fabio Peres

Primeiro Ato[1]

No século XIX, diversas formas de diversão e entretenimento eram vivenciadas pela sociedade carioca. Festas, teatros, passeios, procissões, danças e saraus faziam parte de uma série de manifestações artísticas e culturais presentes no cotidiano da cidade e, que após a constituição do Império brasileiro, se tornaram cada vez mais frequentes, variadas e ecléticas.

Neste cenário, as apresentações de ginástica – por mais incrível e inusitado que pareça – se tornaram um dos espetáculos mais divertidos e fascinantes da cidade. Em agosto de 1837, por exemplo, o periódico O Sete d’Abril anunciava em letras garrafais e com grande irreverência que na “quinta feira, 24 do corrente, dia de S. Bartolomeu” seria apresentado o “Grande Espetáculo!! O Theatrinho dos Garimpeiros”. No final de um dos atos estava previsto a realização de “equilíbrios gymnasticos” pela Madame Injustiça e Mr. Patronato (ver Figura 1).

Não se sabe ao certo se tal espetáculo efetivamente ocorreu ou se o anúncio era apenas uma maneira bastante jocosa e criativa de fazer críticas severas às vicissitudes do Império (o que era mais provável). Em todo caso, mesmo em se tratando de uma anedota, a intenção de que anúncio fosse verossímil e, por isso, cômico reforça a ideia de que os exercícios ginásticos eram recorrentes na cena teatral carioca. Além disso, a apropriação por metáfora e o uso paradoxal do termo, isto é, imaginar que a injustiça e o patronato buscavam manter o “equilíbrio” e conservar o status quo, denota que o vocábulo não era estranho à sociedade da Corte, garantindo, assim, o riso do leitor.

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Figura 1: Anúncio do “Grande Espetáculo!! O Theatrinho dos Garimpeiros” em 9 de agosto de 1837 (O Sete d’Abril).

Os anúncios teatrais, em geral, e dos espetáculos theatrais-gymnaticos se tornaram mais frequentes e ocupavam parte considerável das últimas páginas dos periódicos cariocas. Ao que parece, o sucesso e a importância de tais espetáculos para cidade foram tão expressivos que – além da propaganda do “produtor”, na seção de “anúncios a pedidos” – os editoriais dos próprios jornais passaram divulgá-los em seções especiais que informavam os eventos culturais na Corte. Um dos espetáculos contaria inclusive com a presença do Imperador D. Pedro II e a “Augusta Família Imperial”, como mostra o jornal O Despertador de 19 de abril de 1838 (Figura 3). O “pomposo espetaculo gymnastico e dramatico” O Poeta e a Inquisição[2] – segundo o jornal, uma “excellente tragedia” – seria representada por Mr. Valli, o Hércules Francês, no Theatro Constitucional Fluminense (antigo Real Theatro de São João, atual Teatro João Caetano[3]).

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Figura 2: Anúncio do espetáculo ginástico-dramático “O Poeta e a Inquisição” (O Despertador, 19 de abril de 1838). A tragédia fora composta por Domingos José Gonçalves de Magalhães (Visconde de Araguaia) – ensaísta, poeta, médico e diplomata; um dos iniciadores do Romantismo no Brasil. Destaca-se que o ginasta-artista, segundo o jornal, não omitiria esforços para satisfazer o Imperador e o público, realizando os “mais lindos e delicados exercícios gymnasticos, forças e posições acadêmicas”.

Interessante perceber que cada vez mais os anúncios faziam alusão à capacidade de tais espetáculos divertirem o público. De modo geral, não noticiavam apenas informações básicas da realização do evento (dia, endereço etc.), como até então era mais comum, para incluir detalhes, que supostamente atrairiam o público. A divulgação das sessões teatrais associava o entretenimento do espetáculo às narrativas dramático-teatrais em que exercícios ginásticos estavam inseridos[4] e, além disso, às habilidades corporais e acrobáticas dos gymnastas (ver Figura 2 e 3).

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Figura 3: Anúncio do espetáculo ginástico no Theatro São Januário (O Despertador, 04 de setembro de 1839). A programação detalhada do “escolhido divertimento” contava com as participações de Mr. Levrero (“conhecido na Europa por hum dos melhores dançarinos de corda”) e Mr. Macerata.

Força, equilíbrio, robustez e acrobacias equestres eram concebidas no plano do extraordinário: atraindo atenção do público pela beleza e maestria física. Em outras palavras, isso significa que o corpo (e as representações em torno dele) ganhava ou já possuía novos sentidos e sensibilidades, ainda que com peculiaridades bastante distintas da que se gestou no final do século XIX e começo do XX.

Intervalo

Nesta mesma época, por volta do final da década de 1830, intensifica-se um processo que muda o espaço físico e social das apresentações. A gymnastica-espetáculo passa cada vez mais a ser exibida nos circos, ainda que até o final do Império algumas sessões fossem encenadas nos teatros da cidade (Figura 4). Possivelmente as explicações para esse deslocamento são variadas e envolvem uma série de aspectos. Um deles pode estar ligado à diminuição da presença da linguagem dramática enquanto mote para os espetáculos ginásticos. Em maior ou menor grau, esses espetáculos passaram a ser valorizados mais pelas habilidades e técnicas corporais por si, do que pelos enredos e tramas narradas.

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Figura 4: Anúncio do Circo Olympico que ocupava aproximadamente 1/4 da última pagina do Correio Mercantil de 22 de janeiro de 1860. Localizado na Rua da Guarda-Velha (atual 13 de Maio), o Circo Olympico foi inaugurado em 1857 e, posteriormente, em 1871, se transformou no Theatro D. Pedro II[5].

Por outro lado, o caráter supostamente mais popular do circo pode significar que se ampliava o público e o mercado em torno da assistência do espetáculo-ginástico. De certa forma, esse processo, cada vez mais intenso, de deslocamento do espaço social da ginástica-espetáculo (e das relações sociais que o sustentam) revela talvez um traço, não apenas das divisões sociais presentes no Império, mas também das eventuais disputas e autonomização dos campos artístico-culturais na cidade.

No entanto, independente do local em que ela fosse encenada (seja no teatro, seja no circo), a gymnastica-espetáculo foi frequentemente representada, até o final do Império, enquanto linguagem associada ao campo das artes[6]. Diversas vezes, inclusive, fora considerada como prática diferente das sportivas (corridas de cavalo, regatas etc.), que a partir de meados da década de 1870, possuíam uma seção específica dedicada ao acompanhamento das modalidades e das provas (ver exemplo na Figura 5).

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Figura 5: Trecho da primeira página do jornal Diário de Notícias (4 de outubro de 1886), no qual o espetáculo ginástico, previsto para ser realizado no Theatro Politheama Fluminense (situado na rua do Lavradio), encontra-se na seção FOYER, enquanto que as notícias do Derby Club e do Club de Regatas Paquetaense se encontram na seção SPORT.

Segundo Ato

O caráter aparentemente inusitado das apresentações ginásticas pode abrir um espaço para uma reflexão sobre os desafios colocados à história das práticas corporais no século XIX. A ausência desse tema – seja pela falta de acesso às fontes ou de trabalho empírico, seja pela reificação de determinadas interpretações ou documentos – pode comprometer uma compreensão mais densa da relação entre vida social, condições históricas e o processo de construção de um ethos corporal na sociedade da Corte.

A sedução e o encanto que tais espetáculos despertavam no público, ainda que não fossem suficientes para converter a plateia em praticantes, pode ser um indício de que havia uma sensibilidade específica ligada ao corpo e a certas técnicas/habilidades corporais (como força, vigor, equilíbrio, energia etc). Em outras palavras, é como se determinadas propriedades corporais, diferentes das exigidas em outras práticas, passassem a estar em primeiro plano. A ênfase no ímpeto muscular e na robustez dos gymnastas, enquanto elementos de atração e sedução do público, podem ter ajudado a construir (e ao mesmo tempo eram produto de) uma sensibilidade/estética corporal, que supostamente começava a mudar.

Por outro lado, a ginástica-espetáculo coloca em questão teorias e interpretações que com o tempo se consagraram e se tornaram lugar-comum. Ao longo dos anos foi construído e reforçado um “mito de origem” em que a gênese e a popularização de determinadas práticas corporais na sociedade brasileira (ginástica, natação, educação física e do esporte em geral) se deram quase exclusivamente por instituições militares e, em alguns casos, por escolas públicas. Longe dessa perspectiva linear e monocausal, a gymnastica-espetáculo parece sugerir – ou pelo menos nos faz refletir – que tais práticas se constituíram e se difundiram a partir de constelações sociais mais complexas e pluridimensionais, que envolvem outros atores, processos e instituições sociais.


[1] Esse post é fruto das pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[2] O drama romântico “O Poeta e a Inquisição” (1838) pode ser lido na integra no Portal Domínio Público.

[3] Maiores informações acessar a página do Centro Técnico de Artes Cênicas /Funarte, dedicada aos Teatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro.

[4] Diversas apresentações ginásticas também entremeavam sessões teatrais, no intervalo das peças, entretendo e divertindo os espectadores.

[5] Maiores informações na página do Centro Técnico de Artes Cênicas /Funarte, dedicada aos Teatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro.

[6] Isso não significa que a dimensão “espetáculo” da ginástica ficasse restrita ao campo das manifestações artístico-culturais. Em determinadas circunstâncias ela também foi associada aos campos sportivos e escolar.

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