É o Pet, é o Pet, é o Pet – Idolatria e Representações simbólicas em “ O Gringo mais querido do Brasil”.

A película “O gringo mais querido do Brasil” que descreve a carreira do jogador de futebol sérvio Dejan Petkovic possibilita a reflexão sobre representações simbólicas, estereótipos e as relações entre o futebol carioca, mais especificamente o Clube de Regatas do Flamengo, com a tentativa de construção ou apropriação do que seria o imaginário futebolístico nacional.
A proposta do documentário lançado em 2011 “O Gringo mais querido do Brasil” originado em uma co-produção sérvia-brasileira dirigida por Darko Bajic, com a presença de selos institucionais nacionais da Som Livre, Globo marcas e Urca filmes é mostrar a bem sucedida carreira do jogador de futebol Dejan Petkovic, entrecruzando histórias pessoais, gols, depoimentos de amigos e figuras ligadas ao futebol como seu ex-técnico Zagalo, estabelecendo assim uma “tabelinha” quase que automática entre a produção cinematográfica, o futebol e a vida pessoal do atleta. Ver imagens em http://www.youtube.com/watch?v=d9bpSlI4bq8
Este post busca apontar algumas questões sobre o filme que descreve a trajetória do jogador pelas equipes em que atuou ao longo da sua atividade profissional como por exemplo, o surgimento de uma identificação do atleta com o país e mais profundamente com a cidade do Rio de Janeiro que se transforma ao longo do roteiro em uma metonímia de uma questionável “paixão nacional” por Petkovic.
Ademais o fato de ter se consagrado como ídolo do clube mais popular do Brasil enseja um discurso local que tenta se apresentar como realidade nacional. No título do documentário o jogador estrangeiro não é apenas o estrangeiro mais querido da Gávea, mas se transforma de forma superdimensionada no “gringo mais querido do Brasil” em uma figura narrativa que associa a metáfora de sua vitoriosa passagem no Flamengo com a hipérbole de amplificar sua idolatria à esfera nacional.
Independentemente do alcance real do grau de idolatria dos torcedores de outros clubes com o sérvio, a simples construção de uma representação social na qual o jogador seria amado em todo o país remete a questões sobre a própria configuração do “ethos” do que seria o futebol brasileiro.
Até que ponto um ídolo “gringo” ou “forasteiro” do Flamengo, com passagens em outros dois clubes cariocas (Vasco da Gama e Fluminense) e brasileiros, Vitória, Santos, Goiás e Atlético Mineiro pode ser elevado ao panteão dos deuses futebolísticos midiáticos nacionais? O papel simbólico da cidade do Rio de Janeiro em uma construção imagética presente no filme pode estar associado a uma mitologia discursiva regionalista que exalta um suposto estilo do carioca jogar, mais artístico e descontraído, no qual Petkovic teria se adaptado pela sua habilidade técnica?
O roteiro tem como elo a relação do jogador/ídolo, onde o próprio Petkovic “atua” e contracena com os atores e entrevistados com os torcedores. Um fã rubro-negro simbolicamente chamado de Artur, nome do maior ídolo rubro-negro Zico, teria vindo de Manaus desenvolver um projeto de registro cinematográfico da vida de Petkovic. A presença marcante do jogador na vida dos fãs é uma característica bastante explorada ao longo do filme até mesmo entre jogadores profissionais como nos casos do centroavante Adriano e do defensor Fabrício.
Os primeiros 18 minutos do documentário são emblemáticos desta veneração, pois remete ao Maracanã e o gol feito na final de 2001 contra o Vasco da Gama em uma cobrança de falta aos 43 minutos do segundo tempo. O tento que decidiu a partida e consagrou o Flamengo como tricampeão carioca é o mito fundador da idolatria rubro-negra ao jogador sérvio, e se constitui em importante referência ao longo de todo o documentário.
O início do filme que tem como primeiro take, o ator/jogador em um aeroporto é muito simbólico. Diversas podem ser as interpretações sobre a cena: nomadismo clubístico, cidadão do mundo, o desbravador, mas na minha interpretação o significado pretendido diz respeito à caracterização da possível universalidade do futebol praticado por Petkovic.
A sequência introdutória continua com o jogador dando autógrafos em ruas da cidade do Rio de Janeiro, conduzindo a bola, e chegando ao estádio do Maracanã onde Pet é ovacionado pela torcida. Junto com as imagens uma narração em sérvio com a voz do “gringo” que possui um tom profético sobre o que seria o grande retorno ao time rubro-negro:

“A maior crítica e a maior dúvida quando retornei para o Flamengo era a minha idade, 36 naquela época. Todo mundo dizia: ele é velho demais e seu físico não aguenta apesar da qualidade. Então consegui provar que a idade não importa, que o importante é o espírito, como se sente. Quantos gostariam de vestir a camisa do Flamengo pelo menos uma vez. Flamengo tem 38 milhões de torcedores e eles ainda me consideram o maior ídolo, depois do Zico. É uma honra para mim poder retribuir todo esse amor agora. Depois de um longo período retorno para meu clube, para meus torcedores, minha casa,onde virei um verdadeiro ídolo: para o Flamengo”. (PETKOVIC)

As cenas e a contundente narração preparam o espectador para assistir imagens de um craque, um jogador supostamente amado pela nação brasileira e que pelos desafetos e infortúnios da vida política do seu país não se consolidou como estrela mundial, mas se transformou em um ídolo local da equipe mais popular do Brasil.
A trajetória da vida do gringo na filmagem começa a ser contada em sua cidade natal Majdanpek. Lembranças do passado junto com o irmão Boban relatadas ao fã Artur no campinho da infância coberto de neve, depoimento dos pais junto com a exposição paralela de fotos familiares além do encontro com antigos técnicos como Nenad Cvetkovic que teria ensinado Pet a cobrar faltas e Ljubila Rajkovic que chegou a jogar pela seleção iugoslava e participar da despedida de Pelé, ajudam a construir a ideia de um talento nato e de um jogador que tinha um grande futuro no futebol mundial. Rajkovic chega a afirmar: “ Se as coisas tivessem acontecido de outra maneira, você poderia ter sido rei do nosso futebol”.
O início de uma carreira promissora quando o jogador se destacava pelo Estrela Vermelha, um dos principais times da antiga Iugoslávia e da própria Europa na época, a equipe chegou a ser campeã europeia e mundial interclubes em 1991 com uma geração anterior a equipe de Pet que nesta época jogava nos juniores, junto com as imagens de vário belos gols reforça a visão de que o meia era fora de série e poderia ter se transformado em um superastro mundial.
A comparação do estádio do Estrela Vermelha chamado por Pet de pequeno Maracanã e da própria torcida da equipe sérvia com a do Flamengo busca estreitar os vínculos afetivos do jogador entre seu clube de origem e a equipe onde ele se consagrou como ídolo.
Uma reunião com ex-companheiros do time em um restaurante no qual eles acionam a memória de um período de grandes conquistas e antigas estórias estabelece uma visão panorâmica do início da carreira do astro no futebol profissional.
Este trecho do enredo lembra bastante o filme ficcional “Boleiros”, de Ugo Giorgetti, que se utiliza deste artifício para estabelecer um encadeamento narrativo próprio.
A valorização dos depoimentos orais, bem como o “enquadramento da memória” conforme define Michael Pollack são traços marcantes do documentário “O gringo”, e nesta parte do roteiro a exibição de gols de Petkovic pela equipe sérvia ajuda na construção de uma imagem de um jogador talentoso, artístico em alguns momentos irreverente.
Nas imagens no Brasil, apesar de estrangeiro, no filme Pet é mostrado como um craque “dionisíaco” no sentido estabelecido por Gilberto Freyre para os jogadores mulatos no célebre artigo “Football mulato”, escrito para o jornal Diários Associados de Pernambuco durante a Copa do Mundo de 1938. O texto introduz a semente do futebol-arte e estabelece uma distinção entre apolíneos (estrangeiros) e dionisíacos (brasileiros) em uma tentativa de opor um suposto estilo de jogo artístico brasileiro derivado da miscigenação ao que seria um futebol científico e mecanizado dos países europeus.
O enredo do documentário aproxima o europeu oriental Pet da construção mitológica que até o presente momento representa o futebol-arte e o craque brasileiro. O enaltecimento das suas qualidades técnicas e de improviso em detrimento de sua capacidade tática, da sua função cerebral exercida nas equipes em que jogou, além do completo “esquecimento” da sua disposição em treinar duro, principalmente cobranças de faltas, demonstra na minha interpretação uma tentativa de enquadrar a imagem do jogador segundo um modelo de idolatria nacional acentuado pela identificação com o Rio de Janeiro.
A propagação de imagens do Rio de Janeiro e da relação do jogador com ela, explorando as belezas naturais das praias, o simbólico Maracanã, o Cristo Redentor e até mesmo a presença do Pet em um ensaio da Portela, ensaiando constrangedores passos de sambista, buscam caracterizar o craque sérvio no imaginário futebolístico nacional a partir da sua marcante passagem pelo Flamengo e a sua provável relação de paixão pela “cidade maravilhosa”.
A própria capa do filme traz o jogador em destaque vestindo uma camisa 10 branca com as seguintes imagens ao seu redor: a bandeira da Sérvia estilizada a sua esquerda, o soteropolitano elevador Lacerda a direita, abaixo do título e do próprio Pet o Maracanã e por cima da sua cabeça, como se estivesse abençoando o “Gringo”, o Cristo Redentor.

capa - O GRINGO

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