Nossas primeiras arenas

Por Victor Andrade de Melo

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Depois de longo tempo cercando o tema (já abordado nesse blog, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), estou, enfim, escrevendo um livro sobre as touradas cariocas, em parceria com o amigo Paulo Donadio, que também pilota o excelente blog “Théo-Filho, o intelectual da praia”.

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Uma de nossas maiores surpresas, entre tantas surpresas, foi saber que, na cidade, as touradas são realizadas desde 1641. Nessa ocasião, assim como muitas vezes no decorrer do século XVIII e início do XIX, elas fundamentalmente seguiam o calendário real ou da administração local. Já possuíam alguma estrutura comercial ao seu redor, mas ainda não se tratava de um campo autônomo, como o seria a partir dos anos 1850.

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Onde eram instaladas as arenas nesses primeiros momentos? A primeira delas foi construída numa região localizada entre o Morro do Castelo e a Lagoa do Boqueirão. Com a construção do Convento da Ajuda (em 1750), esse espaço seria chamado de Campo da Ajuda, sendo também conhecido como Largo da Mãe do Bispo. É a área onde se encontra a Cinelândia.

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Largo da Mãe do Bispo na transição dos século XIX e XX. Disponível em www.memoriaviva.com.br.

Largo da Mãe do Bispo na transição dos século XIX e XX. Disponível em http://www.memoriaviva.com.br.

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Houve arenas construídas em locais como o Campo da Lapa do Desterro, mas logo elas passaram a ser instaladas em um novo e importante local da cidade: o Campo de Santana. Tratava-se, na época, de uma região mais afastada do centro do Rio de Janeiro. Durante muito tempo foi uma área deserta dedicada ao pasto ou usada para jogar os dejetos, o limite entre o urbano e o rural. Chamou-se antes Campo de São Domingos, por lá haver uma capela ao santo dedicada.

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A partir de meados do século XVIII, com a construção de um novo templo, passou a ser também conhecido como Campo de Santana. No decorrer do século XIX, o espaço foi sendo reestruturado e ao seu redor foram instaladas importantes edificações. Simultaneamente, foi se tornando um jardim, dividindo as atenções com o Passeio Público. Passou também a sediar festividades e eventos. Lá foram montadas as mais imponentes praças de touros do período colonial, das quais temos duas imagens.

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Uma delas é menos conhecida. É apresentada no último livro Ermakoff (2011). Trata-se de uma imagem de 35,2 x 50,2 cm, de desenho a nanquim e aquarela. É desconhecida a data e a autoria da obra. Ela está bem no centro da imagem.

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A outra é um pouco mais conhecida. Uma gravura aquarelada de autoria de Franz Frühbeck (1818), artista vienense que veio ao Brasil com a comitiva de D. Leopoldina. Trata-se de uma das arenas mais refinadas no Brasil construídas, para os festejos da aclamação de D. João VI e casamento de D. Pedro II.

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De acordo com a minuciosa descrição de Santos (1981), a arena possuía 610 x 353 x 77,5 palmos (isso é, 134 X 78 x 17 metros) e fora muito elogiada por todos. Segundo Oliveira Lima (2006): “Escrevia Maler — e o elogio não é fraco — que o Campo de Sant’Ana exibia brilho e gosto suficientes para fazer pensar nas Tulherias e nos Campos Eliseus, quando iluminados”.

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Essa arena ainda ficou construída até 1821. Segundo Oliveira Lima (1996), nos seus últimos dias, a praça recebeu um circo onde atuava uma companhia de acrobatas e funâmbulos ingleses, “acudindo a população a rir estrepitosamente com os trejeitos dos palhaços, aplaudir os maravilhosos exercícios equestres de Mr. Southby e extasiar-se diante da corda bamba e dos equilíbrios de Mrs. Southby” (p. 570).

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No decorrer do século XIX em muitas outras ocasiões os caminhos de circos e touradas se cruzariam. Mas isso é outra história.

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* Referências

ERMAKOFF, George. Paisagem do Rio de Janeiro: aquarelas, desenhos e gravuras dos artistas viajantes – 1790-1890. Rio de Janeiro: Casa Editorial George Ermakoff, 2011.

LIMA, M. de Oliveira. D. João VI no Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks, 1908/1996.

SANTOS, Luiz Gonçalves dos (Padre Perereca). Memórias para servir à História do Reino do Brasil. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia: São Paulo: Edusp, 1981.

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