O FUTEBOL EM SALVADOR

         Coriolano P. da Rocha Junior

          Em seu início no Brasil, o futebol foi visto como uma atividade “civilizada”, uma das representações dos modos e práticas da elite e também uma atividade combatida, um esporte “incivilizado”, notadamente quando jogado por populares[1]. Se o futebol foi um modo de “educar” e de civilizar[2] o povo a partir de uma “bela” prática, na tentativa de incorporar toda uma ritualidade comportamental europeia, foi da mesma forma apropriado e ressignificado pelas camadas populares, passando a ser um dos seus interesses culturais e praticado também de formas mais espontâneas, diferentes do esporte formalizado, inclusive no que toca aos equipamentos e espaços[3] de jogo.

        O futebol, quando enquadrado nas normas de civilidade e disciplinarização, era aceito e benquisto, por expressar os sentidos e aspirações da elite de Salvador, que se inspirava em modelos europeus sobre como se portar e vivenciar seu dia a dia. Todavia, esse mesmo futebol sofria resistências quando aparecia de forma “desordenada” na cidade, sem atentar para os princípios da civilidade, dentre eles, a regulação de comportamentos, sendo uma prática a ser combatida e isso acontecia quando essa se dava entre populares.

          O primeiro clube de Salvador foi o Club de Cricket Victoria (1899), clube de jovens da elite local, que em 1901 passou a se chamar Sport Club Victoria, começando a praticar o futebol no ano seguinte. Seguindo a tendência, outros clubes foram criados em Salvador, clubes que podiam ainda ser de elite ou de origem popular ou ainda, ter base nas colônias estrangeiras. Nessa lista, vemos clubes como: Club Internacional de Cricket (novembro de 1899); Club de Natação e Regatas São Salvador (1902); Club de Regatas Itapagipe (1902); Sport Club Bahiano (1903); Sport Club São Paulo-Bahia (1903); Sport Club Santos Dumond (1904); Fluminense Foot-Ball Club; Sport Club Ypiranga (1906); Botafogo Sport Club (1914) e outros mais. Alguns tiveram vida curta, outros duraram tempo maior, mas da mesma forma foram extintos e poucos são os que existem até hoje, com alguns tendo sido criado em tempos mais recentes, como o Esporte Clube Bahia (1931).

        Outra forma de analisar o futebol em Salvador é compreendendo como seus espaços de prática foram constituídos. O primeiro local de jogo foi a Praça do Campo da Pólvora, por essa permitir condições mínimas de jogo em relação aos padrões oficiais. Com o crescente interesse pelo futebol na cidade, não demorou muito para que fossem adaptados outros espaços, mais ajustados às exigências formais, surgindo aí o campo do bairro do Rio Vermelho, onde era praticado nos mesmos espaços onde existiram as corridas de cavalo, ou seja, o futebol ainda não possuía um espaço especifico, denotando isso sua característica de esporte ainda em fase de organização na cidade.

       Com isso, identificamos diferentes fases de ocupação dos espaços para a prática do futebol em Salvador. Uma primeira, quando o jogo se dava em praças (Campo da Pólvora e outras), onde ainda eram poucos os praticantes e seus jogos eram mais ligados ao aspecto da diversão. Uma segunda se deu quando passou a ser necessário um espaço mais organizado, que permitisse uma prática mais sistematizada, com uma inicial organização de campeonatos, todavia, um espaço ainda adaptado, fazendo uso de outro já existente, no caso, os hipódromos, sendo essa a fase em que o futebol foi praticado no Rio Vermelho, tendo também voltado para o Campo da Pólvora.

      A terceira fase foi aquela onde já se exigia um espaço específico, só do futebol, surgindo o Campo da Graça[4], que foi construído especificamente para este esporte, o primeiro estádio em Salvador. Sua construção e inauguração permitiram uma nova realidade do futebol na cidade. Se a construção do estádio satisfez uma necessidade, outra seria melhor organizar o futebol em Salvador, tendo se tornado imperioso a fundação de uma entidade que pudesse melhor sistematizá-lo. Uma primeira experiência se deu quando o Sport Club São Paulo-Bahia, ao lado de outros clubes, fundou a primeira Liga da Bahia (15 de novembro de 1904). Em setembro de 1913, outra liga foi criada, a Liga Brasileira de Sports Terrestres. Em Salvador, existiram ainda outras ligas futebolísticas, como: Liga Sportiva Nacional, a Liga Itapagipana e a Liga Rio Branco de Sports Terrestres. A constituição dessas ligas correspondeu ao avançar da prática de futebol em Salvador. Dessa forma, organizar campeonatos, jogadores e espaços, era vital, já que esse esporte começava a ter muitos praticantes. Ele já se alastrava pela cidade, chegando às várias camadas da população e aos vários bairros (mesmo que em campos improvisados[5]).

       Analisando a trajetória percorrida pelo futebol em Salvador, vemos que ela não se deu de forma isolada e sim, articulada com projetos maiores da cidade e mesmo que se reconheça sua capacidade de autonomia em relação aos aspectos políticos e econômicos, é evidente que estes tiveram influência sobre o futebol. Numa análise final, podemos identificar que em sua trajetória, este esporte se desenvolveu como uma prática cultural que ganhou às ruas da cidade, relacionando-se com outros elementos da cultura soteropolitana, se transformando na prática de maior aceitação, até a atualidade.

         Entendendo que uma prática cultural não é estática e que ganha sentidos diversos a partir do que se opera em cada realidade, num diálogo com o que é peculiar a cada local é que percebemos que o futebol em Salvador foi modificando-se, num processo que não foi linear e nem uniforme. O futebol tornou-se uma atividade de caráter popular, ganhando espaço como um esporte que não era apenas a representação do modo europeu de ser, mas sim, demonstrava a forma da população baiana de lidar com o que até então era uma novidade, representando interesses e gostos das várias classes sociais.


[1]Parcela da população de mais baixa renda ou sem renda e que esteve fora dos processos formais de introdução do futebol no país.

[2]Entendido como a incorporação de um conjunto de representações e de ações relativas à convivência social, sob moldes europeus.

[3]São os locais da cidade escolhidos para o futebol. Relacionam-se as adaptações as exigências formais do esporte e suas apropriações culturais pela população, inclusive no que se refere a adaptação dos materiais de jogo.

[4]Inaugurado em 15 de novembro de 1920, no bairro da Graça, em Salvador.

[5]Exemplo: Ground de Brotas, Largo Santos Dumont, Largo do Barbalho, Cabula, Engenho da Conceição, Largo da Rua do Oiro, Campo do Dique, Campo da Boa Viagem e outros.

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