Esporte de farmácia: a beleza feminina na década de 40

Por André Schetino

Olá amigos do História(s) do Sport.

É com muita alegria que inicio mais um ano fazendo parte do time do blog, e hoje trago um dos temas mais controversos para as nossas páginas: vou falar um pouco das relações entre esporte e saúde.

Desde o surgimento do esporte moderno, vimos a ciência propalar os benefícios da prática esportiva para a saúde. Ao mesmo tempo, e praticamente na mesma medida, vimos também se estabelecer e aumentar a relação entre o uso de drogas (lícitas e ilícitas) associadas à prática esportiva.

Se hoje as discussões sobre o doping no esporte (tendo o caso do atleta do ciclismo Lance Armstrong como o mais recente “escândalo”) dominam o noticiário, podemos dar uma olhada para o passado, para ver que o Esporte de Farmácia sempre foi uma modalidade bastante popular.

Voltemos ao ano de 1945. A indústria farmacêutica, que sempre se pautou pelo discurso da saúde e das ciências médicas para a venda de seus produtos, e agora valorizava também os aspectos estéticos. A propaganda do regulador intestinal Gynestol, veiculada em Belo Horizonte neste ano[1], dá uma idéia de como essa relação entre saúde e beleza ocorria.

Fonte: REVISTA ALTEROSA nº 68, dezembro de 1945, p. 165.

O anúncio mostra uma mulher em trajes esportivos, curtos, comemorando ao cruzar a linha de chegada de uma competição esportiva. Junto à imagem, os dizeres: “Garante a saúde e a alegria da mulher!” Uma análise nos permite perceber não só a mensagem direta da saúde e alegria ligada ao uso do produto, mas dá indícios do novo padrão de beleza corporal feminina. O corpo feminino estava agora muito mais exposto do que em anos anteriores, graças aos trajes esportivos. A prática esportiva também tornara esse corpo mais esbelto, saudável e tonificado.

As referências ao novo corpo feminino continuam em outros anúncios de vários produtos farmacêuticos. Vejamos um exemplo de 1947, em um anúncio do Leite de Colônia – “O embelezador da mulher”

Fonte: REVISTA ALTEROSA nº 82, fevereiro de 1947, p. 41

Fonte: REVISTA ALTEROSA nº 82, fevereiro de 1947, p. 41

O anúncio do Leite de Colônia foi veiculado na Revista Alterosa, que circulava em Belo Horizonte, onde provavelmente uma boa parcela das mulheres não tivesse acesso às viagens para a praia, mas sim aos esportes. No Rio de Janeiro, por sua vez, a praia convidava a população para a vida ao ar livre e a prática esportiva. Vale lembrar que a cidade do Rio de Janeiro sempre foi marcada por ser uma metrópole cultural, de costumes e modos de vida considerados “modernos”, comparados sempre a outras grandes cidades mundiais. E as praias na década de 40 já eram um importante espaço para o esporte e o lazer dos habitantes da cidade, inclusive das mulheres, como nos indica um anúncio na Revista O Cruzeiro.

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Mas, conserve sua beleza.

O cansaço dos sports, a agua do mar, o sol ardente e o calor resecante da areia são os maiores inimigos da pele. Para conservar sua belleza, alimente, amacie e proteja a sua cútis com massagens diárias de Creme Simon – o creme de beleza das Parisienses[3].

As mulheres eram agora estimuladas a saírem às ruas, mas para isso, seus corpos deveriam estar bem cuidados, saudáveis, e obedecer a um novo padrão de beleza. Um corpo (feminino) belo era, portanto, um corpo harmonioso, gracioso, e especialmente, livre do excesso de gordura. A partir de agora, aquelas que por ventura fugissem ao novo padrão corporal da cidade moderna, estariam sujeitas ao julgamento de todos àqueles que agora viviam sob os novos preceitos e padrões de beleza.

E como eram essas relações com o corpo masculino?

Isso é um assunto para outro post. Até os próximos!


Fontes:

[1] REVISTA ALTEROSA nº 68, dezembro de 1945, p. 165.

[2] REVISTA ALTEROSA nº 82, fevereiro de 1947, p. 41. Grifos meus.

[3] O CRUZEIRO, 06 de janeiro de 1940, p. 10.

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