Saudades de Lima Barreto

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

Em 1919, Lima Barreto, ao lado de Mario de Lima Valverde, Antonio Noronha Santos e Coelho Cavalcanti, criou a Liga Contra o Futebol. Não se sabe ao certo se a iniciativa aconteceu de fato, ou se era apenas mais uma fina ironia do sempre debochado escritor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. Lima Barreto era mesmo um crítico implacável do futebol. Em crônica de 1925, dizia: “os homens do governo, os que têm a responsabilidade dos destinos dos povos, devem abster-se de proteger os clubes esportivos”.

O curioso dessas palavras é que, décadas depois, elas tornar-se-iam profecia. Em 1995, durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso, criou-se o Ministério Extraordinário do Esporte, liderado por Pelé, nosso rei do futebol. Seria a primeira vez que o assunto teria organograma institucional autônomo na Esplanada dos Ministérios. Sorte Lima Barreto não estar entre nós. Ter-se-ia revoltado.

Lima Barreto era crítico implacavel do envolvimento governamental em assuntos esportivos

Lima Barreto era crítico implacavel do envolvimento governamental em assuntos esportivos

Datam de muito antes, porém, iniciativas nessa direção. No início, eram pedidos para subvenção de impostos para importação de materiais. Depois, aumentou progressivamente o lugar do esporte nas agendas governamentais. A partir da década de 1930, criaram-se órgãos como o Conselho Nacional dos Desportos e a Divisão de Educação Física – ligada ao Ministério da Educação e Cultura.

Talvez por causa dessa longa história de apoio do poder público aos esportes, as palavras de Lima Barreto podem parecer estranhas a um leitor contemporâneo. Tratava-se de outros tempos, com certeza, quando ainda era possível se perguntar se o esporte deve mesmo ser assunto de Estado. Atualmente, mesmo os críticos mais implacáveis do esporte acabam apelando para intervenção estatal como forma de superação dos problemas em nossos campos e ginásios.

Em meio aos preparativos para o encontro de Ministros de Esportes da Unesco, a ser realizado em maio, em Berlim, discussões sobre escândalos envolvendo apostas nos esportes tem animado propostas para uma regulamentação estatal sobre o assunto. A Interpol investiga mais de 50 ligas nacionais de futebol por causa de envolvimentos com organizações criminosas para o mercado das apostas. Segundo Ralf Mutschke, atual diretor de segurança da Fifa e ex-diretor da polícia federal alemã, “os criminosos estão migrando do tráfico de drogas para a manipulação de resultados por causa do baixo risco e do alto lucro”. A Operação Veto, investigação realizada pela Europol, estimou que quase 700 partidas de futebol na Ásia, América do Sul, América Central e Europa foram afetadas de alguma forma por esquema de manipulação de resultados operados a partir de Cingapura, envolvendo dirigentes, jogadores e árbitros, com lucro estimado em mais oito milhões de euros. Juca Kfouri, comentando o assunto, apontou para a falta de controle sobre a administração do esporte como o principal motivo para tanta corrupção. Em suas palavras, “urge uma agência reguladora do esporte no Brasil”.

Sport Suck - uma das muitas iniciativas organizadas nos estados Unidos pela internet para combater envolvimento do governo com assuntos esportivos

Sport Suck – uma das muitas iniciativas organizadas nos estados Unidos pela internet para combater envolvimento do governo com assuntos esportivos

Mas em que medida e de que maneira exatamente o esporte deve ser assunto de Estado? Nos Estados Unidos, existem movimentos sociais organizados para a eliminação de apoio econômico ao esporte. A maioria atua através da internet. Um dos meus preferidos é o Sport Suck, “dedicado a erradicação dos esportes e a prisão dos seus fãs”. Na base de tais iniciativas estão livros como os de Nei de Mause e Joanna Cagan (Field of Schemes), que denunciam o significado político do investimento de dinheiro público em iniciativas privativas – especialmente a construção de estádios e arenas.

No Brasil, para não mencionar os acontecimentos ligados à Copa do Mundo e às Olimpíadas, os maiores clubes de futebol arrecadaram quase R$ 2 bilhões em 2012, aumento de mais de 300% na receita comparado aos números de 2003. Apesar disso, suas dívidas com o governo ultrapassam os R$ 600 milhões, excluindo dívidas previdenciárias suspensas em acordos anteriores. Seguindo o que ocorre em outros cantos, os clubes que ganham mais, devem mais. Apesar disso, em Brasília, a bancada da bola, ou melhor, a Frente Parlamentar de Apoio ao Esporte, pressiona para um perdão!

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