Cenas esportivas argentinas do início do século XX

Por Valeria Lima Guimarães

A diferença histórica entre os seus processos de colonização e a rivalidade política e cultural (que se expressa muito claramente no futebol), entre outros fatores, impuseram o desconhecimento mútuo entre Brasil e Argentina. Apesar de ao longo do século XX termos conhecido importantes tentativas de aproximação tanto pela diplomacia oficial quanto pela sociedade civil (particularmente com os intercâmbios artísticos, acadêmicos, turísticos e esportivos), ainda sabemos muito pouco sobre a terra do Papa Francisco, de Maradona e de Messi, sobre as nossas diferenças e afinidades.

Nos últimos anos, o Laboratório de História do Esporte e do Lazer (SPORT), do Programa de História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem contribuído sistematicamente na produção de teses e dissertações que lançam um olhar comparativo sobre o fenômeno esportivo e sobre o lazer nos dois países[1], tendo-se o cuidado metodológico de evitar tomar o modelo dos grandes centros, Rio de Janeiro e Buenos Aires, para explicar o processo de interiorização do esporte nos diferentes estados/províncias desses países.[2]

Em comum, é possível ver, por exemplo, que a introdução e a popularização de alguns esportes modernos, vindos do Velho Continente – particularmente da Inglaterra – no início do século XX, se deram principalmente por meio da entrada e circulação massiva de europeus nas duas principais capitais da América do Sul. Os ventos da modernidade também sopraram no Atlântico Sul, introduzindo novos hábitos de cuidar de si e novas formas de sociabilidade e de lazer urbanas, dentre elas a vida esportiva.

Na revista Caras y Caretas, um “semanário festivo, literário, artístico e de atualidade”, fundado em 1898 e voltado para a emergente burguesia portenha, a celebração da vida esportiva era um dos signos mais claramente explícitos da vida moderna. A prática de esportes ao ar livre, nos elegantes hotéis de proprietários europeus, nos novos clubs esportivos, nas escolas – na forma de educação física – ou nos anúncios dos mais diversos produtos, era tema recorrente no semanário.

Os conteúdos de muitas edições da revista podem ser acessados pela internet.[3] Como aperitivo, fiquemos restritos apenas ao ano de 1901. Na virada para o novo século, já está posta a importância dos esportes modernos na sociedade argentina, assim como é possível reconhecer o papel fundamental do fenômeno esportivo no discurso de modernidade que a revista procurava veicular (e vender).

Num anúncio de tônico depurativo e estimulante, publicado pelo periódico em 12 de outubro de 1901, é explícita a associação entre a vida saudável, a prática esportiva e a medicalização da sociedade através do consumo. A escolha do ciclismo não é gratuita: trata-se de uma das modalidades esportivas que mais simbolizam a modernidade, unindo a técnica de domínio da máquina, a força física, a velocidade e o deslocamento. Não por acaso o ciclismo já àquela altura era um dos esportes mais populares na Europa e também no mais europeu dos países da América do Sul.

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André Schetino (2007) já escreveu sobre a influência do turfe (outro esporte de grande impacto entre os argentinos da capital) na invenção e organização do ciclismo, na transição do século XIX para o XX. Entre outras similitudes, o autor destacou a denominação da bicicleta como “cavalo de ferro” e a inspiração dos ciclistas na figura dos jóqueis para compor a sua indumentária e a própria maneira de conduzir a bicicleta nas corridas.[4] Na cena anterior, é possível identificar algumas dessas familiaridades entre o ciclismo e o turfe, a começar pelo próprio local em que se dá a corrida ciclística.

As corridas sobre veículos, sejam eles bicicletas, cavalos ou automóveis, ganhariam grande destaque na revista Caras y Caretas. A edição de 23 de novembro de 1901 trouxe os flagrantes do que teriam sido as primeiras corridas automobilísticas do país, realizadas no Hipódromo Argentino. O texto e a segunda imagem publicada na matéria dão ênfase à vitória do competidor Marcelo Torcuato de Alvear, um jovem aristocrata e político portenho que mais tarde chegaria à presidência do país (1922 a 1928).

carro

outros carros

Outro destaque nesta rápida imersão pela Caras y Caretas do início do século XX refere-se a mais um esporte que também cairia rapidamente no gosto dos argentinos: o boxe. Uma aula-exibição, ocorrida num elegante clube esportivo da capital do país e publicado na edição de 26 de outubro de 1901, foi chamada pela revista de “espetáculo completamente ianque”. O embate, observado bem de perto por uma atenta platéia masculina, envolvia dois pugilistas norte-americanos, como segue:

box texto

box foto

O lutador à esquerda era o professor de boxe M. Jaquier, um dos poucos mestres disponíveis em Buenos Aires, quando o esporte dava os seus primeiros passos na Argentina. O seu adversário e compatriota não teve a identidade revelada. O entusiasmo da revista pelo esporte bretão, que na Argentina foi fortemente influenciado pelos afro-americanos, produziria ainda muitas outras matérias, a exemplo de uma que reafirma a importância do professor Jaquier como um dos responsáveis por difundir a moda do boxe na capital portenha (edição de 23 de novembro).

Para terminar, destaco uma galeria montada pela revista em 26 de outubro de 1901, divulgando os feitos dos principais atletas mundiais de diferentes modalidades: a luta, o hipismo, o ciclismo e o remo, esportes bastante apreciados em Buenos Aires.

box homem forte

Qual seria o recado dado por Caras y Caretas aos seus leitores, especialmente à juventude burguesa bonaerense?

Até o próximo post!


[1] Ver a produção das teses, dissertações e artigos produzidos no âmbito do SPORT, do PPGHC da UFRJ, onde incluem-se:

CABO, Álvaro V. G. T. P. Olhares das Copas de 1970 e 1978 no Brasil e Argentina a partir da mídia escrita. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada (Doutorado em andamento).

DRUMMOND, Maurício. Nações em jogo: esporte e propaganda política nos governos Vargas (1930-1945) e Perón (1946-1955). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2008 (Dissertação de mestrado).

MELO, Victor Andrade de e DRUMOND, Maurício. Esporte, cinema e política na Argentina de Juan Perón (1946-1955). Estudos Ibero-Americanos (PUCRS. Impresso), v. 35, p. 56-72, 2009.

GUIMARÃES, Valeria. O turismo levado a sério: discursos e relações de poder entre Brasil e Argentina (1933-1946). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro/Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2012 (Tese de doutorado).

SANTOS, Ricardo Pinto dos.  Futebol e História – Uma Jogada da Modernidade – Uma História Comparada entre o desenvolvimento do Futebol no Rio de Janeiro e Buenos Aires (1897-1924). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2008 (dissertação de mestrado).

[2] A esse respeito ver ROCHA JR., Coriolano da. Esporte e Modernidade: Uma análise comparada da experiência esportiva no Rio de Janeiro e na Bahia. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Comparada, 2011 (Tese de doutorado).

 [3] Basta acessar o seguinte link:

http://www.archive.org/stream/1901carasycaretas04buenuoft#page/n5/mode/2up

[4] Para saber mais sobre o assunto, ver  SCHETINO, André Maia. . Pedalando na Modernidade: a bicicleta e o ciclismo na transição do século XIX para o XX. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008;  e SCHETINO, André  Maia. Do Tour de France ao Velódromo Nacional: o ciclismo em Paris e no Rio de Janeiro na transição dos séculos XIX e XX. In: Victor de Andrade Melo. (Org.). História comparada do esporte. Rio de Janeiro: Shape, 2007, p. 125-143.

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