Bilac e a geografia moral da cidade: os clubes dançantes nos subúrbios do Rio de Janeiro

“Nós somos um povo que vive dançando”, escreveu Olavo Bilac, sob o pseudônimo de “Fantasioso”, em crônica publicada na Kosmos, em maio de 1906 [1].  No texto, o autor descreve uma cidade fragmentada, na qual passava a ser lida através dos corpos e do comprometimento entre seus frequentadores. Foi por meio desses corpos dançantes que o cronista criou uma car­tografia moral da cidade, tomando-os como indicadores de culturas e pertencimentos sociais.

Ainda que fizesse questão de afirmar o entusiasmo pelas festas e bailes como uma característica carioca, Bilac deixava claro em sua geografia sociorracial a naturalidade dos bailados no bairro de Botafogo, em contraposição às danças executadas nos bairros suburbanos habitados por trabalhadores[2]. Para o cronista, cada bairro teria a sua própria dança e que esta serviria como fisionomia característica, rigorosa e inconfundível. Essa perspectiva se mostrava tão presente em sua análise ao ponto de afirmar que, mesmo se conduzido de olhos vendados para qualquer bairro da cidade, se tirada a venda, saberia identificar, no ato, o local em que se encontrava[3]. Em outras palavras, a visão constituía-se como referencial básico de sua orientação, classificando, de acordo com o bairro, a “geografia moral da cidade”.  Por essa razão, vamos acompanhar o cronista em seu passeio pelos bailados na cidade do Rio de Janeiro.

No primeiro ambiente, “a dança é serena, majestosa, parecendo um ritual religioso” [4]. Amortalhados por casacas negras, os cavalheiros severos parecem sacerdotes; as damas, arrastando caudas de rainha, parecem cumprir uma obrigação cultural. Nesse lugar, “os gestos são solenes e medidos, as mãos, apenas se tocam, e os pés arrastam-se sem barulho” [5]. Estamos no bairro de Botafogo, nos assegura o autor.

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O segundo cenário apresenta mudanças, não se avistam casacas, nem caudas nos vestidos. Na verdade há “esmomkings”, uma espécie de transigência entre a nobreza e plebe. As damas tem a barra da saia curta e redonda, deixando liberdade para os volteios e as mesuras do pas-de-quatre. A dança nada tem de cerimônia: é prazer. Os corpos ainda não se aproximam, mas, no aperto das mãos, já há uma franqueza. Estamos na Tijuca, Andaraí e Engenho Velho, informa Bilac. 

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O outro cenário é bem distinto. Vamos ao bairro do Catumby! Adeus à formalidade. Tocam-se os corpos, enlaçam-se os braços, faces se aproximam. O som da valsa chega aos ouvidos do casal, tomado pela vertigem do momento. Mas saiamos… Vamos à Cidade Nova, o reino do maxixe.

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Aqui os corpos não apenas se tocam: colam-se. As mãos dela pesam sobre os ombros dele, como um estojo apertado que anseia a cintura dela. As faces ficam em êxtase, com um sorriso nos lábios, os dois parecem na mesma árvore, dois galhos, no mesmo galho, dois frutos.  

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Vamos ao bairro da Saúde. Para Bilac, nos bairros pobres, “a dança é uma fusão de danças, é o samba, – uma mistura do jongo e dos batuques africanos, do canna-verde dos portugueses, e da poracé dos índios”.  Metáfora da nossa formação, o autor prosseguia “as três raças fundem-se no samba, como n’um cadinho”. No “samba” desapareceria o conflito das raças. Nele se absorvem os ódios da cor. “O samba é – se me permite a expressão – uma espécie de bule, onde entram, separados, o café escuro e o leite claro, e de onde jorra, homogêneo e harmônico, o híbrido café com leite”, escrevia o literato, em alusão às danças realizadas nos bairros pobres da cidade.

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Claramente, Bilac se mostra como agente central na construção de representações sociais sobre as agremiações do subúrbio da cidade. Dessa forma, o autor constituía a visão como referencial básico de sua orientação, afirmando que cada bairro teria a sua própria dança e que esta serviria como fisionomia inconfundível [6]. E foi justamente com essas atribuições que o discurso produzido por Bilac perpassava pela objetividade e subjetividade, colocandoos clubes não só como espaço de trocas e sínteses culturais como também a própria capacidade de congraçamento racial e cultural presente no corpo sensual do popular que, por meio dessas agremiações, mostraram-se capazes de fundir os mais diversos ritmos e etnias.


[1]Kosmos, ano III, n. 5, maio, 1906.

[2] Ver BILAC, Olavo A dança no Rio de Janeiro. Kosmos, ano III, n. 5, maio, 1906.

[3]Kosmos, ano III, n. 5, maio, 1906.

[4]Kosmos, ano III, n. 5, maio, 1906.

[5]Kosmos, ano III, n. 5, maio, 1906.

[6]Kosmos, ano III, n. 5, maio, 1906.

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