Colonialismo, feminismo e vida esportiva

por Sílvio Marcus de Souza Correa (UFSC)

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Durante o colonialismo houve a introdução de uma série de práticas esportivas na África. No caso dos territórios sob domínio colonial alemão, alguns esportes foram praticados também por mulheres. Vale lembrar que uma das particularidades do colonialismo alemão foi um projeto de emigração de mulheres brancas para a África com o firme propósito de fazer valer uma política racial em defesa da “germanidade” (WILDENTHAL, 2001; DIETRICH, 2007). Para e realização de tal projeto foi de supina importância a Liga Feminina (Frauenbund) da Sociedade Alemã de Colonização (Deutsche Kolonial Gesellschaft).

Das quatro colônias alemãs na África, a do sudoeste africano (atual Namíbia) foi aquela com maior presença de alemães e, por conseguinte, a colônia com maior número de modalidades esportivas. Em 1912, a população branca no sudoeste africano era em torno de 15.000 pessoas (WESSELING, 2005:364). A maioria era de origem alemã. Esse número representava, no entanto, quase 3 vezes mais o número de brancos na África Oriental Alemã (atual Tanzânia).

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Mulheres em exercício de tiro ao alvo. National Archive of Namibia (Windhoek) PhotoNr.02535

Mulheres em exercício de tiro ao alvo. National Archive of Namibia (Windhoek) PhotoNr.02535

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Na Alemanha do final do século XIX, mulheres praticavam também remo, ciclismo, ginástica e outras modalidades de atletismo. Mas o solo arenoso e pedregoso da Namíbia não favoreceu o ciclismo, assim como os seus rios – que não têm água corrente todo o ano – impediam a prática regular de esportes aquáticos. Outras modalidades careciam de equipamentos e algumas delas eram realizadas de forma esporádica, mas o calendário de torneios e apresentações das sociedades esportivas favoreceu o treinamento, a regularidade dos exercícios e, por conseguinte, a difusão de alguns esportes.

Sociedade de tiro, sociedade de ginástica, sociedade de corridas de cavalo, clube de tênis e ainda outras organizações esportivas foram sendo criadas nas colônias alemãs da África e, em todas elas, as mulheres alemãs fizeram parte da assistência dos eventos esportivos como também participaram ativamente de alguns deles.

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Tenistas em Windhoek (Namíbia) Koloniales Bildarchiv der Stadt- und Universitätsbibliothek Frankfurt a.M Photo Nr. 080-2996-115; ilustração de uma tenista do Clube de Tênis da Baía de Lüdertiz (fundado em 1910) In XI Gau-, Turn- und Sportfest, Lüderitzbucht, 1939 (National Library of Namibia, Windhoek).

Tenistas em Windhoek (Namíbia) Koloniales Bildarchiv der Stadt- und Universitätsbibliothek Frankfurt a.M Photo Nr. 080-2996-115; ilustração de uma tenista do Clube de Tênis da Baía de Lüdertiz (fundado em 1910) In XI Gau-, Turn- und Sportfest, Lüderitzbucht, 1939 (National Library of Namibia, Windhoek).

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A ginástica foi uma das principais práticas esportivas durante o colonialismo alemão no sudoeste africano (CORREA, 2012a). Várias sociedades de ginástica (Turnvereine) foram fundadas ainda no final do século XIX em localidades como Swakopmund, Baía de Lüderitz e Windhoek, na Namíbia. Inicialmente, as sociedades de ginástica eram masculinas. Mas as mulheres passaram a fazer parte delas a partir da década de 1910. Essas sociedades organizavam torneios (masculinos e femininos) com regularidade. Mesmo depois que a Namíbia deixou de ser uma colônia alemã, as sociedades de ginástica continuaram a promover suas gincanas e torneios.

Tanto a orientação esportiva feminina durante o II Reich, quanto aquela que vigorou à época do III Reich, teve uma política do corpo influenciada pela disciplina militar e pelo racismo. As mulheres alemãs que foram para a África praticavam alguns esportes não apenas como uma forma de entretenimento, mas sobretudo como um treinamento militar com finalidades físicas e morais ajustadas à ideologia do germanismo.

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Torneio de ginástica na Baía de Lüderitz (Namíbia), 1939

Torneio de ginástica na Baía de Lüderitz (Namíbia), 1939

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Se o número de mulheres brancas era reduzido na África do início do século XX, sem dúvida, foi na colônia alemã do sudoeste africano onde houve o maior envolvimento delas com o incipiente campo esportivo. A cultura esportiva e o feminismo na Alemanha do II Reich, a participação de mulheres alemãs no projeto de imigração e a fundação de sociedades esportivas nas colônias favoreceram uma incipiente vida esportiva feminina na Namíbia sob domínio colonial alemão, provavelmente, mais do que em qualquer outra parte da África antes de 1914. Cabe a ressalva que mulheres negras estavam excluídas de qualquer prática esportiva nas colônias alemãs da África.

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