Educação física encenada: a gymnanstica-espetáculo em diferentes instituições na Corte

por Fabio Peres[i]

As apresentações de ginástica – como mostramos no último post – se tornaram um dos espetáculos mais fascinantes e divertidos da sociedade carioca no século XIX. As inúmeras exibições realizadas nos teatros e circos faziam parte de um conjunto de diversões presente na cidade. Não por acaso, as modalidades e designações de tais apresentações eram bastante variadas: ginástico-dramáticas (inseridas em uma narrativa teatral); ginástico-acrobáticas (com ênfase nas acrobacias, por exemplo, de equilíbrio e trapézio); equestre-ginásticas (performances de ginastas em cavalos); ginástico-tauromáquicas (com touros) ou apenas ginásticas, entre outras[ii].

No entanto, o caráter, por assim dizer, espetacular da ginástica não ficava restrito apenas às apresentações realizadas nos teatros e circos. A partir da segunda metade do Império brasileiro, as exibições de ginástica eram também encenadas em outros espaços e instituições sociais da cidade, como clubes e entidades associativas, estabelecimento militares, eventos esportivos e em escolas públicas e privadas.

Diferente do que se possa imaginar, essas apresentações, embora não fossem cotidianas, faziam parte das rotinas anuais de cada um desses espaços que constituíam a rede de instituições e, por conseguinte, dos laços sociais e das sociabilidades presentes na Corte.  Em festas, datas comemorativas, encerramentos anuais ou em visitas de autoridades e personalidades ilustres, a ginástica era apresentada, ou melhor, representada.

Em 17 de novembro 1857, por exemplo, o periódico Correio Mercantil noticiava a visita do imperador ao Arsenal de Guerra, onde assistiu, no estabelecimento de ginástica, a realização de exercícios executados pelos alunos. Na verdade, não era raro dom Pedro II visitar, em diversas ocasiões, não apenas instituições de educação militar como também as estabelecimentos de ensino civis, sejam eles públicos (como a Companhia de Menores, o Colégio Pedro II e a Escola Normal), sejam eles privados (como o Colégio Abílio), presenciando as aulas e apresentações de ginástica[iii].

Sem dúvida, tal assistência era de natureza diversa da dos espetáculos teatrais e circenses. Contudo, a mera presença do imperador atribuía, como destacava diversos periódicos da época, um caráter especial aos exercícios realizados, os quais adquiriram traços e marcas de exibição.

De forma semelhante, alguns espaços associativos lançavam mão de apresentações de ginástica em suas comemorações e eventos. O Real Club Ginástico Português, por ocasião da comemoração do Tricentenário de Camões, elaborou um sarau literário, artístico e dançante, no qual a programação contava com diversos “trabalhos” de ginástica, que entremeavam a abertura do evento (com declamações em homenagem à Camões na abertura do evento) e o baile, que viria a seguir[iv].

O Congresso Ginástico Português, por sua vez, realizou a festa comemorativa do seu 6º aniversário, em 14 de agosto de 1880, apresentando – após o hino do Congresso e um pot-pourri do Guarany – uma exibição de ginástica sob a direção do professor Athanazio Bastos. De acordo com a Gazeta da Tarde os alunos foram aplaudidos entusiasticamente, recebendo em seguida buquês de flores pela execução dos exercícios. Em seguida, depois de algumas formalidades, deu-se início ao baile, “sempre animado”, que se prolongou até às 6h da manhã[v].

Além disso, alguns eventos esportivos também contavam apresentações de ginástica. O Club Olympico Guanabarense, em Niterói, dispunha de exercícios de esgrima e trabalhos de ginástica, realizados pelos alunos do Real Club Ginástico Português para entreter o público nos intervalos das corridas (ver Figura 1).

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Figura 1: Anúncio do Club Olympico Guanabarense, em Niterói, publicado na Gazeta de Notícias de 20 de abril de 1884, em que os alunos do Real Club Ginástico Português, da cidade do Rio de Janeiro, se apresentaram nos intervalos das corridas.

Outras exibições especiais de ginástica se davam em eventos específicos realizados nas escolas. O Colégio Aquino, no final de julho de 1880, realizara uma Festa da Educação, na qual houve apresentação de Ginástica Pedagógica de duas turmas. Uma composta por 50 alunos menores de 10 anos e outra com 50 alunos de 10 a 13 anos. Tal festa foi marcada, de acordo com a Gazeta de Notícias (02/08/1880), por diversos ritos e homenagens. Anteriormente, em 1877, o mesmo colégio produziu uma Festa de Educação Física, em que – segundo o jornal O Globo de 11 e 12 de junho – a “perfeição e regularidade dos exercícios de gymnastica […] colheram repetidos applausos do público ali presente“.

De igual modo, o Colégio Abílio, do renomado Dr. Abílio César Borges, realizava anualmente Festas de Educação Física, que contava com uma programação extensa e detalhada (ver Figura 2).

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Figura 2: Anúncio da Festa de Educação Física, publicado no Diário do Rio de Janeiro de 03 de abril de 1875.

Ainda que não se possa estabelecer uma equivalência exata entre o colégio Ateneu do romance homônimo de Raul Pompéia e o Colégio Abílio, do qual o autor fora aluno, a descrição bastante detalhada da Festa de Educação Física em seu romance, publicado 1888, dá-nos uma ideia da dimensão espetacular, estética e mesmo erótica das apresentações de ginástica (Melo & Peres, 2013):

“Por ocasião da festa da ginástica, voltei ao colégio […] No dia da festa da educação física, como rezava o programa (programa de arromba, porque o secretário do diretor tinha o talento dos programas) […]Eu ia carregado, no impulso da multidão. […] Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar […]. Algumas damas empunhavam binóculos. Na direção dos binóculos distinguia-se um movimento alvejante. Eram os rapazes. ‘Aí vêm! disse-me meu pai; vão desfilar por diante da princesa.’ A princesa imperial, Regente nessa época […] Momentos depois, adiantavam-se por mim os alunos do Ateneu. Cerca de trezentos; produziam-me a impressão do inumerável. […] Passaram a toque de clarim, sopesando os petrechos diversos dos exercícios. Primeira turma, os halteres; segunda, as maças; terceira, as barras. Fechavam a marcha, desarmados, os que figurariam simplesmente nos exercícios gerais. Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispuseram-se em pelotões, invadiram o gramal e, cadenciados pelo ritmo da banda de colegas, que os esperava no meio do campo, com a certeza de amestrada disciplina, produziram as manobras perfeitas de um exército sob o comando do mais raro instrutor. Diante das fileiras, Bataillard, o professor de ginástica, exultava envergando a altivez do seu sucesso na extremada elegância do talhe, multiplicando por milagroso desdobramento o compêndio inteiro da capacidade profissional, exibida em galeria por uma série infinita de atitudes. A admiração hesitava a decidir-se pela formosura masculina e rija da plástica de músculos a estalar o brim do uniforme, que ele trajava branco como os alunos, ou pela nervosa celeridade dos movimentos, efeito elétrico de lanterna mágica, respeitando-se na variedade prodigiosa a unidade da correção suprema. […] Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercícios. Músculos do braço, músculos do tronco, tendões dos jarretes, a teoria toda do corpore sano foi praticada valentemente ali, precisamente, com a simultaneidade exata das extensas máquinas. Houve após, o assalto aos aparelhos. Os aparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar do palanque da Regente. Não posso dar idéia do deslumbramento que me ficou desta parte. Uma desordem de contorções, deslocadas e atrevidas; uma vertigem de volteios à barra fixa, temeridades acrobáticas ao trapézio, às perchas, às cordas, às escadas; pirâmides humanas sobre as paralelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e ostentações vigorosas de tórax; formas de estatuária viva, trêmulas de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisível apoio; aqui e ali uma cabecinha loura, cabelos em desordem cacheados à testa, um rosto injetado pela inversão do corpo, lábios entreabertos ofegando, olhos semicerrados para escapar à areia dos sapatos, costas de suor, colando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam a terra; movimento, entusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca nos uniformes, queimando os últimos fogos da glória diurna sobre aquele triunfo espetaculoso da saúde, da força, da mocidade. O Professor Bataillard, enrubescido de agitação, rouco de comandar, chorava de prazer. Abraçava os rapazes indistintamente. Duas bandas militares revezavam-se ativamente, comunicando a animação à massa dos espectadores. O coração pulava-me no peito com um alvoroço novo, que me arrastava para o meio dos alunos, numa leva ardente de fraternidade. Eu batia palmas; gritos escapavam-me, de que me arrependia quando alguém me olhava (Pompéia, 1991; grifos nossos).

Diante desse cenário, em que as exibições de ginástica estavam presentes em diversos espaços sociais da cidade, não nos parece precipitado defender que a dimensão espetáculo da ginástica se constituiu, ao longo do Império, em uma linguagem específica, cuja força simbólica era capaz convergir determinados valores, estruturas narrativas e experiências estéticas. Por certo, cada um desses espaços e instituições possuía especificidades que dialogava e, ao mesmo tempo, constituía tal linguagem. Mas isso fica para um próximo post.


[i] Esse post é fruto das conversas e pesquisas realizadas no âmbito do projeto “O corpo da nação: educando o físico, disciplinando o espírito, forjando o país: as práticas corporais institucionalizadas na sociedade da Corte (1831-1889)”, que conta com o apoio da FAPERJ e do CNPq e é coordenado por Victor Andrade de Melo.

[ii] Na prática talvez não houvesse uma delimitação muito clara entre tais modalidades, sendo que uma designação ou os sentidos associados a ela não excluíssem uma outra modalidade.

[iii] Ver exemplos nos periódicos Correio Mercantil (05/12/1859), Diário do Rio de Janeiro (18/09/1860), Gazeta.de.Noticias (28/10/1881) e  Diário do Rio de Janeiro (14/12/1873).

[iv] Gazeta de Noticias (11 e 12/06/1880 e 14/06/1880)

[v] Gazeta da Tarde (16/08/1880).

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