Racismo na “partida mais longa da História” ?

O capítulo seis do livro “La verguenza de todos – el dedo en la llaga del Mundial de 78” de Pablo Llonto que se dedica exclusivamente a analisar as circunstâncias nebulosas que envolveram a realização da partida entre Argentina e Perú pela segunda fase da Copa do Mundo de 1978 tem como sugestivo título a partida mais  longa da História em função das diversas denúncias veladas ou mais recentemente explícitas sobre irregularidades dentro e fora dos gramados.

            O autor, advogado militante de causas políticas contra os abusos da ditadura argentina, representante de familiares de desaparecidos durante o regime autoritário e jornalista que trabalhou em importantes periódicos como Clarín, El Gráfico, La Razón  faz uma análise extremamente crítica sobre a Copa do Mundo de 1978  em seu livro publicado pela Editora Madres de la Plaza de Mayo, que apesar de instigante, carece de preocupação com as fontes como grande parte dos trabalhos jornalísticos.

A hipótese de que alguns jogadores peruanos podem ter sido subornados para “entregar a partida”, fato muito complexo de ser provado é um dos argumentos centrais do capítulo que sugere indícios racistas tanto na divisão do plantel e acusações aos jogadores que supostamente teriam entregue o jogo, quanto no próprio comportamento da torcida argentina.

O defensor negro Manzo é um dos principais acusados de ter se vendido, inclusive segundo o autor por declarações posteriores de outros jogadores como Oblitas, Quiroga e Chumpitaz. Ele era o único jogador que atuava entre os titulares pelo modesto Municipal e o fato de ter se transferido no ano seguinte ao mundial para a equipe argentina do Velez Sarsfield reforçaria segundo o autor as suspeitas em torno dele., pois o ex-técnico do Velez Antonio Antonio D´Acorso e o preparador físico Jorge Fernadez teriam afirmado que o jogador confessara que todos os jogadores peruanos receberam dinheiro, menos ao atacante Juan José Muñante que atuava no México. (LLONTO,161)

O autor abre espaço para a defesa de Manzo reproduzindo algumas declarações do jogador e esclarece que efetivamente o grupo estava “rachado” entre os jogadores do Sporting Cristal e do Alianza Lima que formavam a base da equipe peruana. Um possível conflito racial é apontado por Llonto que afirma que “para muchos jugadores de Cristal ellos eran los lindos y lós de Alianza lós negros feos”. (LLONTO, 2005,131)  e Manzo que era negro e de uma equipe de menor expressão acredita que acabou sendo uma espécie de “bode expiatório”:

A mí me hundieron, me dejaron en el suelo – defiende dese um olvido que nunca imaginó- Por que mi culparan a mi solo? Porque en ese equipe había cinco jugadores de Cristal, cinco de Alianza. Y yo era el único que jugaba en el Municipal. Yo no pertenecía a ningun grupo. Y me tiraron abajo. Sé que abló Oblitas, luego Quiroga. Si a ese ló encontro le pegaria. Por esa falsa version me cerraran las puertas. Nadie me dio La oportunidad de desarrolarme en lo que amo, el fútbol, y en cambio yo crio chanchos y hago trabajos de albañileria. (LLONTO, 2005, P. 160)

Situação oposta ocorre com a estrela do time o atacante Muñante que por jogar no México e ter um ótimo salário não é mencionado como suspeito de suborno por nenhum jornalista ou companheiro mesmo não fazendo parte de nenhum grupo . O fato  de quase ter marcado um gol aos dois minutos de jogo desferindo potente chute na trave ajuda a proteger a sua imagem e segundo o autor foi utilizada também durante muito tempo como prova de idoneidade da própria seleção peruana.

É importante destacar que apesar do Peru já estar eliminado na segunda fase do Mundial, fato que poderia gerar um relaxamento natural, o time fez uma bela campanha no seu grupo de origem, empatando com a vice-campeã mundial Holanda 0x0, e vencendo Escócia e Irã respectivamente por 3×1 e 4×1, sendo considerado assim um adversário difícil de enfrentar apesar da solidariedade existente entre as ditaduras de Jorge Videla e Morales Bermudez.

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A surpresa com o resultado elástico, a postura de alguns jogadores e mesmo  decisões controvertidas do técnico Marcos Calderón na escalação da equipe e nas substituições durante a partida relatadas pelo jornalista ajudam a fortalecer as teorias a respeito da culpabilidade dos jogadores peruanos no resultado da partida e o possível suborno de alguns atletas.

Todavia os argumentos se fragilizam devido à falta de fontes mais concretas, à apresentação de declarações aparentemente contraditórias de diferentes jogadores e a identificação do zagueiro Manzo como o “principal vilão” pelos depoimentos de alguns jogadores, mas que aparece também as vezes paradoxalmente como o injustiçado na construção do texto.

Las seis cruces de Manzo le pesan desde 1978 y si bien algunos esperán aún “la confésion , el ex defensor cumple una condena moral que lo acompañará hasta la muerte: “Las puertas se me cerraron- recuerda con odio. – Hasta mi família mi dio la espalda. Caí en el trago. La única que me ayudó fué Mercedes, mi segunda esposa. Una vez fue pedir ayuda a Teófilo Cubillas que había sido designado funcionario en el Instituto Peruano del Deporte. ‘Ya regreso´, me dijo y hasta ahora estoy esperando. A mi me pusieron como único culpable y cometieron una injusticia tremenda. (LLONTO, 2005, P. 162)

A construção da vilania como um processo de enquadramento da memória em algumas partidas de futebol históricas é um elemento corriqueiro onde os jornalistas tem a função de senhores da memória e acabam selecionando os fatos que serão lembrados e como eles são contados ou resignificados.

Se Manzo será sempre lembrado e a honra e responsabilidade dos peruanos sempre colocada em questão, outro personagem também se tornou uma referência inesquecível: Ramón Quiroga.

O fato do goleiro Ramón Quiroga, ser um argentino da cidade de Rosário naturalizado peruano desencadeou muitas suspeitas sobre a sua atuação e a possível contribuição com o seu país de origem.

O arqueiro, cujo apelido era “Chupete”, jogava no Sporting Cristal e era reconhecido tanto no Peru como na Argentina pela mídia esportiva por sua capacidade técnica e espírito de liderança. Porém a sua própria escalação na partida teria sido contestada por alguns jornalistas e segundo o autor mesmo entre os jogadores, visto que o Peru já estava eliminado e a situação do atleta era no mínimo incômoda:

Entretanto diferentemente do que ocorre com relação ao defensor Manzo e outros jogadores peruanos, cuja possibilidade de terem se vendido é factível de ser interpretada no livro, Pablo Llonto em sua argumentação concernente a Quiroga praticamente o absolve e não deixa margens para especulações sobre a sua idoneidade.

O fato de ter atuado é justificado por ser em sua cidade natal, pela presença da mãe e amigos, e por ser o estádio do seu clube de coração o Rosário Central. Os gols que levou seriam indefensáveis e surgiram devido à apatia dos outros jogadores peruanos e o fato dele ter sido convocado para a Copa de 1982 seria uma prova contundente para a mídia especializada peruana da sua capacidade técnica e idoneidade moral.

Quiroga fue convocado una vez más al selecionado para el mundial de España 1982 y era evidente que con la mano en el corazón, todo el pueblo sabía que si alguién se había vendido en la vergonzosa goleada, ese no era “Chupete” . Todo analista tenia claro que con cualquier arquero peruano, aquela noche de Rosário se comían una docena de goles. No por coruptos sino por malos. (LLONTO,2005, P.15)

Ademais as declarações do jogador são reproduzidas como “verdades praticamente absolutas” mesmo sendo bem questionáveis do ponto de vista ético na minha interpretação. A acusação aos jogadores negros, sobretudo Manzo e Rojas além do técnico da equipe Marcos Calderón,  vinte anos depois e a referência aos brasileiros por levantarem suspeitas sobre a sua atuação não são devidamente questionadas pelo autor:

En privado o en publico, Quiroga tenía siempre la misma resposta: Yo no me vendí, esas fueron huevadas que inventaron los brasileños porque quedaron fuera del Mundial. La única verdad es que nosotros fuimos un desastre. Quién no tiene una noche negra una vez en la vida? Quien puede dudar de la diferencia que existe entre el fútbol argentino y peruano. LLONTO, 2005,P.159)

QUIROGA PROFETA

QUIROGA PROFETA

Além desta referência aos “brasileiros” feita por Quiroga, o autor ao longo do capítulo também por duas vezes insinua que representantes do país teriam oferecido como incentivo uma ”mala branca” de cerca de seis mil dólares a cada jogador peruano. Fato plausível, mas infelizmente novamente sem indicação da suposta fonte pelo autor.

Enquanto as acusações feitas aos brasileiros de “mala branca” são afirmadas com veemência, a polêmica em torno do goleiro argentino que defendia a seleção peruana é tratada de forma parcial o que na minha visão, denota uma certa cumplicidade do autor com os argumentos que inocentam o arqueiro, buscando enquadrá-lo como uma figura honrada na memória sobre a partida.

Mas será que internamente “Chupete”, ao sair do gramado do Estádio “Gigante del Arroyo” em direção ao fúnebre vestiário peruano,  não estava junto com milhões de torcedores argentinos que segundo o autor bradavam efusivamente por todo país: “Siga ,siga,siga el baile/ al compás del tamboril/que esta noche los cogimos/a lós negros do Brasil “y” Y llora/ y llora/ y llora Brasil llora”. (LLONTO, 2005, P. 151).

* O presente post foi adaptado do artigo Argentina 6 x 0 Peru. “A partida mais longa da História das Copas do Mundo” por dois jornalistas memorialistas argentinos apresentado no XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (INTERCOM) .

LLONTO, Pablo. La verguenza de todos: el dedo en la llaga del Mundial 78. 1.ed. Buenos Aires. Ed. Ass. Madres de Plaza de Mayo, 2005.

IMAGENS: JORNAL EL CLARÍN/COPA DE 1978.

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