DITADURAS E A BOLA: ARGENTINA (1978)

A morte de Jorge Rafael Videla, ditador argentino entre 1976 e 1981, ocorrida na última sexta-feira, dia 17 de maio, me fez repensar e reescrever o post que me cabia nesta segunda-feira. Primeiro me veio a dúvida: eu sabia que iria chover artigos de jornalistas esportivos e outros sobre a ditadura militar argentina e o futebol após a morte do ditador. Deveria eu, então, escrever mais um artigo sobre o tema? Depois de pensar um pouco, encarando a tela do computador tal qual César frente ao Rubicão, decidi ir em frente e começar uma série sobre ditaduras e futebol, na qual dedicarei o primeiro post a Videla e à Argentina. Alea jacta est.

Para os que não são tão ligados à história da Argentina ou das ditaduras, um breve panorama: Videla foi um dos líderes da Junta de Comandantes que assumiu o poder na Argentina após o golpe de 24 de março de 1976, juntamente com o brigadeiro Orlando Ramón Agosti e com o Almirante Emilio Eduardo Massera. Como representante do exército, principal força armada argentina, seu papel era de destaque, sendo nomeado presidente. Sequestros, torturas, prisões e execuções, não necessariamente nessa ordem, eram a ordem do dia no novo regime que se impunha ao país hermano. O terror encobriu a sociedade argentina. Sem conseguir despertar o entusiasmo e a adesão explícita da população, o esporte aparecia como um dos meios de se exaltar a pátria. E a Copa do Mundo caía nos braços da Junta Militar como um presente vindo dos céus, advinda da escolha feita pelo Congresso da FIFA em 1968.

Mas como – o leitor mais ingênuo pode se perguntar a – a FIFA permitiria a realização de uma Copa do Mundo em um país onde os direitos humanos estavam sendo claramente violados? E os outros quinze países que participariam da competição? Disputariam eles o troneio em meio a tal cenário? A resposta é simples e cruel. A FIFA não só confirmaria a realização da competição, como se congregaria com a Junta Militar argentina em uma ode ao poder de realização, de ordem e de apoio a Videla e seu regime. De frente à situação, o presidente da FIFA, João Havelange (eleito em 1974) buscava a confirmação de que a Copa do Mundo de fato ocorreria, enquanto Videla buscava afirmar a capacidade que o regime militar teria em disciplinar a sociedade e apresentar um país sem conflitos aparentes em meio ao certame.

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João Havelange e Jorge Videla na tribuna de honra do Monumental de Nuñez na final da Copa do Mundo de 1978.

A FIFA já havia apoiado a Copa de 1934 na Itália fascista e não teria problemas éticos em apoiar a Junta Militar. No entanto, o mesmo não poderia ser dito de todos os envolvidos. Paul Breitner, lateral esquerdo alemão, e Johan Cruyff não compareceram ao torneio por motivos ideológicos (anos mais tarde, Cruyff teria alegado motivos pessoais como razão para não participar da Copa). Já Jorge Carrascosa, capitão da seleção argentina, abandonara a seleção em 1977, alegando não estar de acordo com a Ditadura Militar que governava o país. O consenso não era total e a ditadura demonstrava rachaduras em seu revestimento de paz e felicidade, armado para a Copa.

Mas nem todos aderiram ao boicote da seleção argentina, é claro. O que não significa dizer, no entanto, que os que de fato se envolveram aderiram ao regime. Há muito mais em jogo ao se decidir pela participação ou pelo boicote de uma seleção em uma Copa do Mundo disputada em casa. Há a paixão pelo jogo, a carreira profissional e o sonho de ser campeão mundial em seu país, por exemplo. César Luis Menotti, técnico da seleção argentina desde 1974 que liderou a seleção de seu país à vitória, era ativista político e membro do Partido Comunista. Anos mais tarde, Menotti declarava que jogava pelas pessoas, e não pelo regime. O futebol não seria um momento de disfarce do regime, mas o de escape das pessoas, onde poderiam desfrutar do prazer e da paixão que não tinham fora do estádio. O povo merecia o campeonato.O julgamento da participação de atletas argentinos sem levar em consideração tais elementos é um problema encontrado em diversos trabalhos sobre o tema, o qual não devemos repetir, mas aprofundar ainda mais em trabalhos futuros.  

A questão, mais do que se os jogadores deveriam ou não ter participado da seleção no período da ditadura, reside nos significados possíveis de tal participação. Por um lado, a participação argentina e sua vitória na competição foram utilizadas como importante ferramenta de propaganda pela ditadura de Videla. Mas por outro, ofereceram ao povo algo pelo qual sonhar e aspirar.

Termino com as palavras de Claudio Tamburrini, um estudante de filosofia e jogador profissional, e também um ativista político que fora encarcerado e escapou em março de 1978, citadas por Eduardo Archetti:

O que é essa fascinação do esporte que torna possível que torturados e torturadores se abracem depois de gols marcados pela seleção nacional?Durante a Copa do Mundo de 1978, os argentinos – incluindo eu – trocaram o julgamento político crítico da situação de seu país pela euforia esportiva. Os esportes, e em particular o futebol, produzem paixões. As paixões nem sempre ajudam quando se tomam decisões. Apoiar a seleção nacional de um país que está sujeito a uma ditadura é um exemplo de cara irracionalidade, mas talvez salutar a um povo. Dada a imperfeição da vida e da história, talvez seja racional celebrar os triunfos no futebol à parte do contexto político concreto de uma sociedade. Os argentinos deveriam comemorar o título novamente… Luque, Fillol, Kempes e Bertoni, junto com os outros heróis de 1978, deveriam retornar ao estádio do River Plate. Agora eles seriam campeões inquestionáveis. Desta vez, Videla está na prisão (Perfil, junho de 1998, p. 14, apud Archetti, 2006, p. 142, tradução minha).

Tamburrini, a situação hoje é ainda melhor. Videla morreu na prisão.

 

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ARCHETTI, Eduardo P. Argentina 1978: military nationalism, football essentialism, and moral ambivalence. In: TOMLINSON, Alan; YOUNG, Christopher. National identity and global sporting events. Albany: SUNY Press, 2006.

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