O Sistema Pelegrin (El sistema Pelegrin, de Ignácio Iquino, Espanha,1951)

EL SISTEMA PELEGRIN (CARTEL 2)

– O que desejam, um e outros? Um gol. O inegável êxito de um gol…”

Luísa (prof. de música e par do protagonista Héctor Pelegrin)

Na expectativa da estreia do Brasil na Copa das confederações (escrevo este post no sábado de manhã), volto a conversar sobre filmes que tematizam o futebol; no caso, uma curiosa película de 1951, produzida na Espanha. O período histórico não era dos mais favoráveis. Após a segunda guerra (1939 – 1945) a coisa não andava bem pro lado dos hermanos da Península Ibérica. O regime franquista, inegavelmente próximo ao nazi-fascismo, se via isolado. Não participara diretamente dos conflitos (com exceção de uma ideológica incursão contra a União Soviética, em nome da salvaguarda do ocidente cristão e capitalista), mas suas conexões com o Eixo foram transparentes e recentes demais para serem simplesmente riscadas da memória. Vigia na Espanha uma política de viés autárquico, em um contexto no qual, no continente, o único aliado mais próximo era a ditadura portuguesa de Salazar, por conta da óbvia afinidade. Eram tempos duros. Para se ter uma ideia, o racionamento de pão, que vinha das dificuldades de uma Europa em guerra, perdurou em Espanha até 1952.
Pois bem, o cinema, ainda assim, era produzido. Foi nesse cenário que surgiu El Sistema Pelegrin, dirigido por Ignacio Iquino (1910 – 1994). Este, por sua vez, foi um laborioso homem de cinema, tendo dirigido muitos filmes (mais de uma centena) e escrito outros tantos roteiros e argumentos (maiores informações ver: DIRECTORES DE CINE EN CATALUÑA. De la A a la Z. Disponível em: http://www.publicacions.ub.edu/liberweb/directorescine/directores.asp?letra=I).
Conforme a sinopse encontrada no DVD comercializado e em sites pela internet, o filme constituiria uma leve e rápida comédia (tem cerca de 78 minutos). O resumo foi exposto mais ou menos assim: trata-se da história de Héctor Pelegrin, um fracassado agente de seguros que consegue um emprego salvador como professor de educação física. O “único problema é que carece completamente da preparação necessária para o posto”. Em meio as suas controvertidas aulas e investidas acaba organizando uma disputa futebolística entre o Gran Colégio Ferran (onde trabalha) e seu maior rival, a Academia Enciclopedica. O resultado quase gera uma “autêntica guerra” (http://images2.coveralia.com/dvd/e/El_Sistema_Pelegrin-Caratula.jpg).
O caráter cômico da fita realmente a caracteriza. Nesse sentido, a divertida atuação de Fernando Fernando Gomez, o ator-protagonista, é relevante. Não obstante, gostaríamos de destacar momentos dessa realização cinematográfica que parecem trazer um interesse mais amplo à película. Iniciemos pelo tal “sistema Pelegrin”.
Bom, esse “sistema” surge de um conflito e da rápida e aparentemente inesgotável inventividade de Héctor Pelegrin. O problema se inicia quando os pais de alunos se aglomeram a reclamar sobre os resultados das partidas locais, supervisionadas por Pelegrin. Constatam que o time B vem sempre ganhando do time A e isso gera reclamações, tanto de uns (que querem alguma providência) quanto de outros, que estão satisfeitos com a situação. A celeuma chega ao diretor e uma confusão é formada. No intuito de oferecer alguma saída (inclusive que permita sua manutenção no emprego, já que o conflito pode redundar em sua dispensa), Pelegrin propõe a implantação de “um novo sistema”. Neste, todos os alunos poderiam fazer gols, “sem limitação alguma” (um pai rico reclamava que seu filho nunca conseguia fazer gol): “todos os gols que quisessem”. Porém, esses gols não iriam nem para um time A nem para um time B, mas sim para o registro da Direção. Esta, por sei turno, distribuiria, todos os sábados, os gols por entre os alunos, “com severa justiça” e segundo a “aplicação do espírito esportivo”. E ilustra:
“- Imagine você o contentamento das famílias (…) quando chegarem os garotos com suas notas de fim de semana, nelas constando: conduta, boa; geometria, 6 pontos, gols, 19 (…)”.

Inicialmente a ideia agrada ao Diretor, porém ele logo se demove da sugestão. Poderiam crer que o Colégio estava a fazer política, e isso era inadmissível. Sem entender o motivo, Pelegrin indaga: “- Que isso tem a ver com política?”
“- É porque o que você propõe parece muito com a socialização do gol…”
Socializar, qualquer coisa, na Espanha franquista de início dos anos 50 era complicado mesmo. Curioso que os comentários vistos sobre este filme (a bem da verdade em uma rápida busca para este escrito) em nenhum momento apontaram para questões desse tipo. E essa não é a única vez na fita em que conflito, guerra interna, pertubação da ordem são colocados, com ar gracioso, em questão. Trata-se de mais uma evidência do quanto se pode falar sobre uma sociedade e um tempo por meio do futebol e do cinema. Dessa forma, a epígrafe com que abrimos nossos comentários também ganham outra dimensão. O “gol” de que fala Luísa, par romântico de Pelegrin, não parece se restringir a um tento futebolístico. Consiste em uma realização, um êxito, mais próximo do que podemos associar, em inglês, ao termo achievment. Isso parece bem claro, no diálogo.
Muito bem, é evidente que diante da negativa do diretor, Pelegrin e sua consorte buscam (e encontram) outras alternativas. Coisas bem interessantes, mas acho que isso vai ficar pra um segundo post.
Grande abraço, boa Copa pra todos!

Ficha técnica:
Título original: El sistema Pelegrín
Ano:1952
España
De Ignacio F. Iquino
Roteiro de: Wenceslao Fernández Flórez (Novela: Wenceslao Fernández Flórez)
Com Fernando Fernán Gómez, Isabel de Castro, Sergio Orta, Manuel Monroy, Luis Pérez de León, Rafael Luis Calvo.
IFI Producción S.A. – Comedia | Deporte. Fútbol
Disponível em: http://www.filmaffinity.com/es/film180648.html. Consultado em 15 de junho de 2013.

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