Um elogio aos músculos – o corpo em pedaços

Por André Schetino

Olá amigos do História(s) do Sport.

Como prometi em meu último post, hoje falaremos um pouco sobre o corpo masculino na década de 1950, período importante para a industrialização brasileira. Se para as mulheres o padrão era de um corpo magro, para os homens entravam em cena os músculos.

Esse aspecto da força, era especialmente direcionado para o mundo do trabalho e da produtividade. Trata-se de uma mudança importante, uma vez que os músculos – por serem o principal sinal de trabalho braçal – eram antes mal vistos pelas altas camadas da sociedade. Mas o esporte transformou essa visão, e  o corpo musculoso agora passava a ser sinônimo de saúde e beleza masculina.
É o que podemos ver com a realização do “1º Campeonato Nacional de Levantamento de Pesos e o campeonato para escolha do melhor físico de 1950 ” acontecido no Rio de Janeiro. A reportagem da Revista O Cruzeiro nos dá uma ideia da transformação do ideal de corpo que já vinha em curso nas grandes cidades industrializadas.

O CAMPEONATO PARA ESCOLHA DO MELHOR FÍSICO

Se as provas de levantamento de pesos atraíram uma boa assistência, na qual se notavam muitas representantes do sexo “frágil”, o campeonato para a escolha do Apolo Brasileiro de 1950 fez superlotar o antigo “grill” do Casino Atlântico. E dessa vez, como é facil imaginar, o elemento feminino acorreu em massa.
Perante a comissão julgadora, constituida por esportistas e artistas, os “bonitões” exibiram as suas possantes musculaturas, enquanto lá dentro, nos bastidores e camarins outrora ocupados pelas coristas do Cassino, os que se preparavam para ir ao palco davam os últimos retoques na camada de oleo destinada a realçar os bíceps, peitorais, tríceps e deltóides. Havia diversas classificações: Seria escolhido “o melhor braço”, “o melhor peito”, “a melhor perna”, “o melhor abdomem”, “as melhores costas”, “o mais musculoso” e, finalmente, “o melhor fisico”, ou seja, o que reunisse o melhor conjunto, sagrando-se assim o Apolo Brasileiro de 1950.
As provas foram longas e exaustivas, sob um calor de rachar. Os atletas tiveram que se exibir individualmente, depois aos pares, depois em grupos de três, de cada vez dotando as mais diversas poses a fim de permitir aos juizes uma apreciação detalhada e justa. A assistencia, por seu lado, se manifestava com ruido, enquanto no palco os músculos se enovelavam, se retezavam, se contraiam em contorsoes incríveis.
Tratando-se de um campeonato aberto, havia 21 participantes, alguns dos quai provenientes do Rio Grande do Sul, Bahia, São Paulo, Pernambuco e Estado do Rio. Por fim, os representantes da Liga Brasileira de Halterofilismo, organizadora do concurso, proclamaram os vencedores: O melhor braço: João Werneck Soares; O melhor peito: Zenildo Alves Ferreira; O mais musculoso: Zenildo Alves Ferreira; A melhor perna: Gerson Dória; O melhor abdomem: Gerson Dória; As melhores costas: Agenor Barbosa; O melhor físico de 1950: João Werneck Soares, do Ginásio Apolo . (Músculos em revista. O CRUZEIRO, 26 de agosto de 1950, p. 104. Texto de João Martins.)

O corpo masculino também obedecia a lógica industrial, da linha de produção. Estava agora segmentado, dividido em músculos e membros. O melhor braço, a melhor perna, o melhor abdômen estavam agora dentro de novos padrões de trabalho, de beleza, e de exigência física. O concurso era apenas o primeiro, e pode parecer que era algo ainda muito novo na sociedade brasileira. Mas na verdade, já mostrava um esporte já organizado , com uma Liga Nacional, e com representantes de diversos estados brasileiros. E, se o halterofilismo ainda era um esporte novo e com poucos praticantes, a cultura física masculina já se difundia com maior expressão e chegava à população em geral.

É o que podemos ver com o programa de exercícios de Charles Atlas, fisiculturista italiano que ficou famoso nos Estados Unidos por criar um método de exercícios e comercializá-lo através dos correios, investindo bastante em campanhas publicitárias em jornais e revistas. Na foto abaixo temos a propaganda nas revistas americanas, mas separo também o texto do anúncio publicado na Revista O Cruzeiro, também em 1950.

O “Raquítico” de 44 quilos que se transformou no “Homem mais bem desenvolvido do Mundo”. “Provar-lhe-ei em 7 dias que o Senhor também pode ser este HOMEM NOVO” – Charles Atlas. Quando afirmo que o Senhor pode se transformar num homem forte e cheio de energia sei o que digo. Já vi como o meu novo sistema de Tensão Dinâmica transformou em Campeões Atlas centenas de homens mais fracos e raquíticos que o Senhor. Eu mesmo, por exemplo, pesava 44 quilos e o meu físico inspirava compaixão. Mas um dia descobri a Tensão Dinâmica que me proporcionou um corpo que ganhou duas vezes o título de ‘O Homem mais bem desenvolvido do Mundo’. Tensão Dinâmica fará no Senhor a mesma transformação. Estou tão certo do que digo que lhe faço esta surpreendente oferta: por minha conta PROVAREI que apenas em 7 dias posso transformá-lo num HOMEM NOVO. Começarei a treina-lo sujeito a sua aprovação. Se não notar nenhuma mudança real e efetiva dentro de uma semana não me dê nada. Não há meios termos. Diga-me em que parte do corpo quer músculos de aço. É gordo e mole? Delgado e débil? Fatiga-se depressa e não tem energia? Fica resignado permitindo que os outros conquistem as moças mais bonitas e os melhores empregos? Dê-me só 7 dias! E PROVAR-LHE-EI que posso fazer do Senhor um VERDADEIRO HOMEM: saudável, cheio de confiança em si próprio e na sua força. Tensão Dinâmica é um sistema completamente NATURAL. Não exige aparelhos mecânicos que possam afetar o seu coração ou outros órgãos vitais. Não exige pílulas, alimentação especial ou outros artifícios. Apenas uns minutos por dia dos seus momentos de ócio são suficientes – é na realidade uma recreação . (O CRUZEIRO, 02 de setembro de 1950, p. 96. Grifos meus. Destaques do anúncio.)

O método de Tensão Dinâmica consistia em exercícios em sua maioria isométricos e sua propaganda mostrava o homem como alvo exclusivo do programa de atividades físicas. As campanhas publicitárias de Charles Atlas mostram essa transformação nos corpos do novo homem: do padrão franzino, “raquítico” do século XIX para um homem forte e musculoso na década de 50. Assim como as mulheres que não se exercitavam, os homens “gordos, moles, delgados e débeis” também perdiam espaço nas grandes cidades modernas.

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