Bastidores de uma pesquisa histórica

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

Como denunciam alguns dos meus últimos posts aqui no blog, estou me dedicando atualmente a história do esporte em Goiás. Antes de mudar-me para Belo Horizonte, dias de trabalho no Arquivo Histórico Estadual de Goiás constituíam um dos meus prazeres diletos. O arquivo tem um acervo riquíssimo, resistente ao tempo, apesar do costumeiro descaso governamental. Mas não é sobre isto o que vou lhes falar. Hoje, gostaria de comentar o que podemos chamar de “bastidores da pesquisa histórica”, particularmente os bastidores do Arquivo Histórico Estadual de Goiás. Quem passa diariamente pelo centro de Goiânia talvez não imagine que atrás do Centro Cultural Marieta Telles Machado e ao lado do Palácio das Esmeraldas jaz pilhas e pilhas de papéis antigos, que os historiadores preferem chamar documentos.

Complexo arquitetônico da Praça Cívica, morada do Arquivo Histórico Estadual de Goiás

Complexo arquitetônico da Praça Cívica, morada do Arquivo Histórico Estadual de Goiás. Disponível em: http://linsgalvao.com.br/blog/arquitetura/a-beleza-da-art-deco-em-goiania

Apesar do cenário lúgubre, o lugar está cheio de vida, ou melhor, de vidas, de hoje e de ontem. As de hoje dizem respeito tanto a estudantes neófitos, quanto a pesquisadores mais experimentados, sem falar nos curiosos, que eventualmente também marcam presença, à cata não se sabe do quê.

No cotidiano atual do arquivo, tardes de pesquisa são interrompidas para um dedinho de prosa regado à café com Sr. Orlando, engenheiro e professor aposentado da Universidade Federal de Goiás, que trabalha num livro sobre a história desta universidade. Sr. Orlando, que sempre leva biscoitos ou bolos, faz questão de convidar a todos para compartilhar seus intervalos. Nunca deixei de aceitar. Já as histórias de ontem podem ser parcialmente recuperadas através da leitura dos documentos guardados ali. Literalmente, eles contam histórias.

José Nicolau Saddi, "um esforçado esportista goiano". Fonte: Cidade de Goyas, Goiás, 25 de junho de 939, n. 49, p. 1.

José Nicolau Saddi, “um esforçado esportista goiano”. Fonte: Cidade de Goyas, Goiás, 25 de junho de 939, n. 49, p. 1.

No meu caso, estou particularmente interessado agora em histórias como as de José Nicolau Saddi, membro de importante família de comerciantes “sírio-libaneses”, que em princípios da década de 1930 atuaram ativamente e de diferentes formas no estímulo a práticas esportivas na Cidade de Goiás, quando era ali ainda a capital goiana. Reuniões para criação da primeira associação esportiva em Goiás – a Associação Goiana de Esportes Atléticos – aconteceram na casa de Jacques Saddi, ao que parece, irmão de José Nicolau. Enquanto Jacques presidia clubes, emprestava sua casa às reuniões da recém-criada associação e assumia a sua comissão de sindicância, José Nicolau disponibilizava sua casa comercial para expor os prêmios de uma rifa organizada visando a construção de um estádio. José Nicolau, além disso, servia de árbitro a algumas partidas de futebol, ao mesmo tempo em que integrava “embaixadas” responsáveis por organizar “caravanas” para disputar partidas em várias cidades. Era um entusiasta do esporte, um “sportman”. Com justiça, José Nicolau, ex-aluno do Lyceu de Goyaz, proprietário e fundador do jornal Cidade de Goiás, logo seria reconhecido como “um dos grandes propugnadores do esporte”, “um esforçado esportista goiano”.

Para além do esporte, contudo, parte do meu tempo no arquivo consome-se às vezes na leitura de histórias que nada tem a ver com o esporte. Quase não posso evitá-las. Quando dou por mim, já estou a ler sobre brigas, assassinatos, acusações de calúnia, rumores de infidelidades ou qualquer saborosa banalidade que preenche o cotidiano de qualquer sociedade, de ontem ou de hoje.

De certo modo, o arquivo e todas as suas histórias operam como intermediários entre o passado e o presente, entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Certa vez, ao sair do arquivo, tocado ainda por este contato, decidi fazer caminho diferente do usual. Queria descer a Avenida Araguaia, até o número 68, onde funcionava outrora o Hotel Araguaia. Queria saber o que funcionaria ali nos dias de hoje. Poderia ser o hotel ainda? Por curiosidade gratuita, sei que durante muito tempo a cozinha do lugar esteve a cargo do “Mestre Cuca Irineu”. Quem teria sido ele?

Avenida Anhanguera, imediações da Avenida Araguaia, em dois diferentes momentos. SIMIENA, Carolina. Foto exibem o ‘antes e depois’ do desenvolvimento urbano de Goiânia. Disponível em: http://g1.globo.com/goias/noticia/2011/10/fotos-exibem-o-antes-e-depois-do-desenvolvimento-urbano-de-goiania.html

Avenida Anhanguera, imediações da Avenida Araguaia, em dois diferentes momentos. SIMIENA, Carolina. Foto exibem o ‘antes e depois’ do desenvolvimento urbano de Goiânia. Disponível em: http://g1.globo.com/goias/noticia/2011/10/fotos-exibem-o-antes-e-depois-do-desenvolvimento-urbano-de-goiania.html

 Para muitos, tais interesses talvez pareçam estanhos. Pois é assim que se resgatam vidas em arquivos. Como disse certa vez Robert Darnton, todos têm fantasias, mas alguns as têm em forma de devaneios históricos:

 “O contato com o passado altera o sentido do que pode ser conhecido. Estamos sempre nos ombreando com mistérios – não simplesmente a ignorância (fenômeno familiar), mas a insondável estranheza da vida entre os mortos. Os historiadores voltam desse mundo como missionários que partiram para conquistar culturas estrangeiras e agora retornam convertidos, rendidos à alteridade dos outros. Quando retomamos nossa rotina diária, às vezes contamos entusiasmados nossas histórias ao público. Mas poucos param para ouvir. Como o velho marinheiro, falamos com os mortos, porém temos dificuldade em nos fazer ouvir entre os vivos. Para eles, somos maçantes”.

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