Em tempos de Copa do Mundo, dá para confiar na Imprensa Esportiva?

André Alexandre Guimarães Couto

guimaraescouto@yahoo.com.br

Olá, caros (as) leitores (as):

Ninguém aguenta mais falar sobre a Copa das Confederações que terminou neste mês de julho. Porém, uma situação me chamou muito a atenção na relação entre imprensa e seleção nacional. Principalmente porque não foi a nossa seleção brasileira.

Trata-se do selecionado espanhol, que virou manchete nos jornais do Brasil por conta de uma suposta farra que os jogadores teriam realizado em Recife, na ocasião do jogo entre Espanha e Uruguai.  A festa realizada no hotel envolveria mulheres, pôquer e sabe lá o que mais.

A seleção da Espanha negara tudo e contou com o apoio de um grande e histórico aliado: a imprensa espanhola. Esta acusara os seus colegas brasileiros de que tudo não passara de um plano para desestabilizar a Fúria.

Joaquín Maroto (nome sugestivo?), colunista do diário AS, um dos mais importantes periódicos esportivos na Espanha, declarava que os brasileiros tinham “um medo visceral, uma depressão profunda” e que “Os anfitriões esperam que a Itália faça frente à Espanha, para que se evite um novo Maracanazo”. Portanto, para a maior parte da imprensa espanhola, o máximo que tinha ocorrido no hotel era de que ocorrera um furto, porém sem graves consequências.

Sem fazermos anacronismos, mas pensando em outra situação nesta relação entre seleção de futebol e imprensa, podemos lembrar da cobertura da Copa do Mundo de 1938 pelo Jornal dos Sports (JS), a partir de uma notícia de indisciplina, brigas e prisões dos atletas brasileiros em sua chegada à Lisboa, antes da viagem para a França, sede daquele Mundial.

Em um primeiro momento, o JS partia para a severa crítica, apontando que a seleção brasileira deveria ser o último lugar para apresentar tais atos de indisciplina ou de indulgência, tendo em vista que não se tratava de um time qualquer, mas de uma representação nacional em um momento peculiar, o de um time capaz de jogar bem o campeonato, mesmo que não o pudesse ganhá-lo:

Nenhuma confirmação esclareceu o incidente de Lisboa. Sabe-se apenas que alguns jogadores brasileiros foram presos e soltos mediante fiança.

Assim a indisciplina resalta, projecta-se para o primeiro plano, como personagem principal.

Esquece-se o nome do culpado ou os varios culpados. Houve, realmente, o intuito de diminuir o escândalo. A prova está em que sómente uma agencia telegraphica divulgou o incidente, com um laconismo significativo.

(…) O Campeonato do Mundo oferecia e offerece ainda uma opportunidade magnífica para o sport brasileiro. Não se tratava apenas da conquista de um trophéo. A victoria em um certamen mundial depende de factores variados, alguns dos quaes imprevistos. Constitue uma eventualidade, um resultado de esforços não implicam (…) em enthusiasmo (…) e sim, de forma cabal, em disciplina. Por outro lado a representação do Brasil no Campeonato do Mundo deixou de ser apenas uma questão sportiva, transformando-se em uma questão nacional. Dahi o movimento maravilhoso de incentivo, de solidariedade, que raiou ao sacrifício. Os clubs cedem os melhores “cracks”, nada exigindo em troca; a industria, o commercio, o povo, o governo, todos se unem para que o scratch brasileiro esteja apto a desempenhar uma missão sportiva no sentido de lealdade e de cavalheirismo.

Por isso, vamos perguntar, sem ingenuidade, para que serve o compromisso de honra, sendo para ser cumprido, o programma de disciplina, senão para uma execução inflexível. Não ha logar para indisciplinados no Campeonato Mundial mas também não ha logar para indulgentes. A disciplina não admitte hesitações ou recuos.[1]

Neste texto em especial, a indisciplina e a indulgência seriam fantasmas que poderiam assombrar o caminho da nossa vitória. Porém, na edição seguinte, marcada novamente pelo exagero e sensacionalismo jornalístico, o JS publicava em sua primeira página: “Tudo Não Passou de Mentira!” e “Lisboa Affirma Que Os Jogadores Brasileiros Não Promoveram Conflicto!”.[2]

Delegação Brasileira: Afonsinho, Argemiro,Batatais, Brandão, Britto, Domingos da Guia, Hércules, Jau, Leônidas, Lopes, Luisinho, Machado, Martim, Nariz, Niginho, Patesko, Perácio, Roberto, Romeu, Tim, Walter, Zezé Procópio, Técnico Adhemar Pimenta. Formação antes do jogo contra a Polônia. Fonte: .

Delegação Brasileira: Afonsinho, Argemiro,Batatais, Brandão, Britto, Domingos da Guia, Hércules, Jau, Leônidas, Lopes, Luisinho, Machado, Martim, Nariz, Niginho, Patesko, Perácio, Roberto, Romeu, Tim, Walter, Zezé Procópio, Técnico Adhemar Pimenta. Formação antes do jogo contra a Polônia.
Fonte: <http://www.mochileiro.tur.br/copa-1938.htm&gt;.

Desta forma, o jornal desfazia a ideia de uma seleção irresponsável ou indisciplinada e criticava a atuação de agências de notícias como a United Press, que teria construído um fato que não existira. Os motivos, para o JS, seriam vários, desde o preconceito contra jogadores sul-americanos em terras europeias e “civilizadas” até uma tentativa de boicotar um time que teria reais condições de vencer o campeonato mundial de futebol, desbancando a força do futebol europeu, campeão na última copa, em 1934.[3]

Ao invés de uma retratação do JS neste episódio, em que colocara dúvida na capacidade de representação responsável do Brasil pelos atletas da seleção de futebol, o jornal mirava na incapacidade da agência internacional de notícias de respeitar o nosso povo e a própria nação, conforme podemos observar no editorial do dia 18/05/1938:

Noticias de Lisboa desmentem qualquer escândalo durante a curta permanência dos jogadores brasileiros.

(…) Não se comprehendia nem se admittiria que os “cracks” brasileiros, mal attingissem uma terra amiga e hospitaleira, se desmandassem, offerecendo um triste espectaculo de indisciplina. Mais grave, porém, do que a accusação é a falsidade da denuncia. Espanta que se distribua uma noticia de tal natureza, com o fito de diminuir a confiança depositada no scratch brasileiro, sem a certeza das verdades plenas.

Durante quarenta e oito horas se duvidou da disciplina dos “cracks” que defenderão o renome sportivo do Brasil e se buscou os culpados para uma punição severa.

Verifica-se agora que não houve incidente, que não houve escândalo, que não houve prisão de jogadores brasileiros. É indisfarçável, portanto, a responsabilidade da agencia que divulgou a noticia escandalosa.

(…) Não podemos consentir que se empreste aos embaixadores do foot-ball brasileiro vícios condemnados pela pura noção do sport, exhibindo-os aos olhos do mundo como indisciplinados e arruaceiros.

Venha sem a demora a explicação – restabeleça-se a verdade dos factos e retire-se a calumnia com a mesma pressa da divulgação do escândalo inexistente.[4]

Com este editorial, o jornal procurava redimir a sua culpa e aproveitava o suposto escândalo envolvendo a seleção brasileira para vender edições que tratavam dos bastidores da Copa do Mundo. Todavia, o JS atentava para uma qualidade que deveria estar presente no dia-a-dia dos atletas: a disciplina, o que, naquele momento, pretendia-se para a própria sociedade.

Como podemos perceber, a relação entre disciplina, nacionalidade e futebol ainda se torna, hoje, um dos maiores elementos de interesse pelo jornalismo esportivo que amplia esta discussão em torno de mitos, verdades e interpretações de ambos. Obviamente, a caixa de amplificação da Copa do Mundo ou de um evento pré-Copa como a das Confederações é um fator a mais neste caldeirão midiático. Poderíamos dizer que a forma de publicizar os fatos em torno da seleção nacional nestes eventos é diferente? Neste caso, em que medida(s)? Bem, aí já papo para outros posts.


[1] A indulgencia gera a indisciplina: não ha logar para indulgentes ou indisciplinados. In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, nº 2.678, 17/05/1938. p. 2. Coluna Críticas e Suggestões.

[2] Tudo Não Passou de Mentira! In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, nº 2.679, 18/05/1938. p. 1. Antes do texto desta matéria, o jornal informava que “A C.B.D. incumbiu a Agencia Havas de promover um inquérito rigoroso”.

[3] Copa do Mundo disputada na Itália, e vencida pelos próprios donos da casa.

[4] A United Press tem de explicar a divulgação de um escândalo inexistente. In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, nº 2.679, 18/05/1938. p. 2. Coluna Críticas e Sugestões.

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