Jogando atrás do arame farpado: Esporte entre os internos nos campos Australianos durante a 1ª Guerra Mundial (1914-1919)

                                       By Jorge Knijnik com  Bob Petersen

Durante a primeira Guerra Mundial, milhares de “aliados do inimigo” foram enviados para campos na Austrália, onde permaneceram internos durante toda a guerra. Apesar de alguns serem oficialmente prisioneiros de guerra, ou seja, oficiais do exercito alemão que foram capturados em mares do Pacifico e até na China, a maior parte dos quase 7.000 “internos” (eufemismo para prisioneiros) era composta por residentes Australianos (alguns com nacionalidade Australiana) que tinham alguma conexão, por vezes longínqua, com a Alemanha ou a Áustria: netos de imigrantes germânicos, gente com sobrenome alemão ou ocupando posições de liderança em clubes alemães, enfim, muita gente que já vivia por aqui, não tinha grande contato ou sequer falava alemão. Eles já haviam constituído família e laços comunitários na Austrália, tinham trabalho, etc – acabaram entrando no saco e foram “internados”. Os internos eram homens em sua totalidade, os quais deixaram do lado de fora dos campos famílias que no mais das vezes não tinham como se sustentar sem o aporte dos seus provedores – estamos falando do inicio do século XX.

Quando a guerra começou, entretanto, os “alemão-australianos” não eram vistos como inimigos; eles eram parte da comunidade, viviam normalmente no cotidiano do país – médicos, comerciantes, artistas, fotógrafos, professores, pintores – eram “gente como a gente”. Com algum tempo, e, sobretudo com muita propaganda, estas pessoas foram “transformadas” de cidadãos comuns e bons vizinhos a “ferozes inimigos” da Austrália.

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O imaginário esportivo foi um grande aliado do esforço propagandístico que se instalou na Austrália para demonizar o inimigo. A cultura esportiva alemã era muito diversa da cultura esportiva britânica, sendo esta ultima totalmente sustentada por noções de “fair play” e “sportsmanship” – o jogo leal e o espirito esportivo. Afinal, os ingleses sempre consideraram as suas virtudes esportivas “superiores” as dos outros povos – sendo esta “supremacia moral” estendida para todas as arenas da vida, dentro e fora dos campos. O “gentleman” que joga cricket não é apenas um jogador honesto e respeitador do universo esportivo, ou seja, leal ao adversário, aos árbitros, a torcida e as regras: ele tem algo mais, ele possui em seu sangue o “fair-play” do bom esportista: nos dizeres do Rei George V, os ingleses “são” cricket. Ser o esporte, e não apenas joga-lo – existe melhor definição para a soberba inglesa desta época?

Deste modo, a cultura esportiva germânica foi virulentamente estereotipada como “coisa ruim”, destrutiva, que não chegava aos pés do virtuosismo esportivo britânico. Além de utilizarem o esporte como um elemento central na propaganda para convencer os homens australianos a se alistarem, usando a paixão destes por esportes – notadamente pelo cricket naquele tempo – a batalha pela opinião publica fez algo mais.  Esforçou-se por retratar os alemães como “maus esportistas”, gente que não respeitava o fair play, que não eram “good sportsmen”.

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Contudo – e este detalhe é essencial para se entender o que se passou com os internos durante a guerra – os alemães sempre possuíram uma cultura esportiva diferenciada, muito rica e variada. Eles não eram como os “preguiçosos” sul-africanos que foram presos durante a guerra Anglo-Boer no final do século XIX e inicio do XX; como estes não conheciam nada sobre esportes, e talvez nem tivessem uma inclinação “natural” para a sua pratica, os seus captores, os soldados britânicos, tomaram a iniciativa de organizar aulas e treinos que introduzissem os prisioneiros sul-africanos na pratica de esportes tais como cricket e rúgbi – e aparentemente eles gostaram deste ultimo: o sucesso posterior dos Springkboks, a seleção sul-africana de rúgbi esta ai para mostrar![i]

Os alemães, ao contrario, sempre foram muito zelosos de suas tradições esportivas (claro que, como bem salienta Bob Petersen, eles assim como 93% do mundo, não tinham o menor interesse em cricket…). Em qualquer lugar do mundo onde exista uma comunidade germânica, haverá também clubes e associações para o fomento da pratica esportiva. Assim, o rotulo de “não esportivo”, de “preguiçosos”, jamais colaria neles. De modo que a propaganda de guerra fez outra coisa: trabalhou-se com o imaginário no sentido de firmar e grudar nos alemães uma imagem de “maus esportistas”, “traiçoeiros” – trapaceiros, enfim. Basicamente, a propaganda construía uma imagem dos alemães como se eles não fossem “cricket” – o significado disso é profundo: não ser “cricket”, não ser “esporte” é muito pior do que não praticar esportes; o ignorante pode ser ensinado, mas o “mau jogador” tem intrinsecamente um caráter ruim. Você finge um pênalti, você rouba uma tacada – logo, você come criancinhas. Uma analogia deste tipo, um pouco mais complexa, claro, mas que no final ajuda a criar demônios e justificar a violência contra eles.

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Pois bem, lá estavam os alemães, em 1915,  internos em diversos campos pelo país. Aos poucos, os campos foram unificados em um estado, New South Wales, e os internos foram para três grandes polos: Berrima, Trial Bay e Liverpool. Nos dois primeiros campos, Berrima e Trial Bay, a vida deles era “tranquila”: tinham que realizar trabalhos nos campos, sendo minimamente pagos para isso, mas por estarem perto do mar ou de rios, tinham bastante liberdade para relaxar, fazer esportes aquáticos e pesca. Foi exatamente isso que eles fizeram. Nas fotos abaixo, pode-se ver a intersecção entre as tradições germânicas de festivais com fantasias, e também a ginastica alemã – provavelmente precursores da “aquagym” no Rio Berrima!

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Também se praticava tênis nos campos, e futebol, muito futebol! Ocasionalmente, era permitida a entrada de times visitantes para disputar pelejas contra os times dos internos – ainda estou atrás de novos relatos dos jogos para compor direitinho esta historia. Abaixo pode se ver o time de futebol do DFC Melbourne em uma excursão ao campo de Berrima, e também a quadra de tênis de Trial Bay durante o dia da final do campeonato interno.

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Entretanto, a realidade no campo de Liverpool (chamado de Holsworthy) era diferente. Hoje em dia, Liverpool é uma área extremamente industrializada e populosa – eu trabalho a 15 minutos de lá. Mas no inicio do século passado, aquilo era uma área semidesértica, com muita ventania ocasionando enormes tempestades de areia – e muito barro na época de chuvas. Além disso, diferentemente dos outros campos, este era superpopuloso. Mais de 6.000 internos disputavam espaço entre os barracões.  Gente de todo o tipo e extrato social, inclusive soldados e oficiais do exercito alemão, presos de guerra que não se misturavam com os “civis ordinários”, e exigiam serem tratados de acordo com o devido código militar, e conforme as suas patentes. Havia também uma serie de marinheiros de navios alemães que por azar estavam ancorados na Austrália quando a guerra eclodiu, e foram internados.

Mas o fato realmente relevante era que os internos de Liverpool não tinham opções de lazer. O tratamento dispensado a eles era muito mais duro e rígido do que em outros campos. Os guardas eram abusivos, xingavam os alemães (“You bloody German bastards! You’re not cricket!”), os internos eram recorrentemente punidos por qualquer probleminha nos locais de trabalho. Os constantes pedidos para o comando do campo autorizar algum tipo de vida social e esportiva eram sempre negados. A vida nestas condições climáticas duras e em uma atmosfera altamente corrosiva foi desgastando psicológica e socialmente os internos, até que em julho de 1916, um incidente entre os guardas e os internos foi o estopim para uma greve. No dia seguinte, os internos se recusaram a sair de suas cabanas e ir para o trabalho. Eles não aguentavam mais o tedio da vida no campo de internos. Além do trabalho e das condições de vida precárias, não havia nada para fazer ou se distrair. Neste dia, eles deram seu grito de liberdade: “Rast’ ich, so rost’ ich!” gritaram os internos. “Se eu parar, eu enferrujo!”. Após algumas negociações tensas, os internos conquistaram o direito de se organizarem em clubes e praticarem seus amados esportes, entre outras diversas atividades culturais – tinham um clube de teatro onde muitos se travestiam de mulheres para encenar as peças, bandas, musicais, jornais do campo… Meu foco aqui, claro, são os esportes que eles praticavam.

Um grupo muito importante no campo de Liverpool foi o clube de levantamento de peso, com seus concursos de “mister universo”.

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Ginastica, uma tradição dentro da cultura corporal germânica, foi claramente uma das grandes ocupações naquele campo, sendo que o clube de Ginastica de Liverpool (foto abaixo) foi o maior e mais numeroso entre todos os clubes sociais e esportivos organizados nos campos de internos durante a primeira Guerra. Mais: como as condições atmosféricas do campo não eram propicias para a pratica de ginastica ao ar livre – muito vento e areia – os internos conseguiram, com o tempo, construir um ginásio próprio, feito de material retirado dos navios em que muitos se encontravam antes de serem mandados para os campos. O ginásio, como pode ser visto neste video  http://www.youtube.com/watch?v=hwPDaSn1-E0  foi batizado de “Vater Jahn” em homenagem a Friedrich Jahn, o pedagogo alemão que foi um dos pioneiros da ginastica, sistematizando-a e a transformando em um esporte competitivo no século XIX[ii]

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Os internos do campo de Liverpool também organizaram competições de atletismo, futebol e tênis, todas com muito sucesso, repletas de vários times e competidores, que aproveitavam para manter a forma física, fazer amizades, criar vínculos e espantar o tedio – quantas funções interessantes que o esporte tem até os dias atuais!

Eles praticavam também esportes tipicamente alemães, tais como o schlagball – um jogo antigo semelhante e talvez o precursor do beisebol – e o faustball, jogado por duas equipes com uma espécie de linha no meio, parecido com o voleibol, mas no qual os jogadores batem com os punhos na bola, e apenas um toque é permitido.

Um personagem interessante deste período foi o boxeador Frank Bungardy (ou Frank – Franz – Werner – curiosamente, nos registros do estado de South Austrália ele aparece como Frank Werner von Bungardy – provavelmente adicionou o “von” para dar uma aparência mais nobre ao seu nome).

Bungardy era um pintor de casas que começou a lutar boxe amador em 1909, e rapidamente se transformou na grande esperança da sua cidade, Port Adelaide, transferindo-se em seguida para o boxe profissional até 1914 quando, em virtude de suas origens alemãs, foi interno no campo de Liverpool. Lá ele manteve-se ativo, organizando lutas e treinando vários internos. Sabe-se bastante da vida de Bungardy porque ele conseguiu escapar do campo e andou errante no interior de New South Wales até ser recapturado. Ele escreveu cartas para o governo estadual, reclamando das condições de vida nos campos e requisitando autorização para a promoção de atividades esportivas.

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Na foto acima, Frank Bungardy aparece como um dos treinadores todo de branco e com a toalha no pescoço. Ele tinha duas filhas, Dolores e Muriel Werner von Bungardy, que permaneceram na Austrália com sua esposa Ida von Bungardy quando, ao final da Guerra, Frank foi deportado para a Alemanha.

Este foi o destino da esmagadora maioria dos internos. Apesar de muitos, tais como Frank, terem família na Austrália, ao final da guerra quase todos os internos foram enviados sem dó nem piedade para a Alemanha – foram raríssimos os casos dos que conseguiram lutar e permanecer por aqui. Ou seja, foram separados de suas famílias para sempre, e colocados em um país em plena crise pós-guerra, no qual a maior parte não possuía a menor conexão social, sendo que muitos nem a língua compreendiam – e alemão não deve ser fácil para aprender…

Embora a decisão de internar alemães potencialmente “subversivos” possa ser justificada de alguma forma em face do esforço de guerra (apesar de nenhuma prova ter sido produzida para sustentar a ideia de que havia gente dentro da comunidade germânica propensa a ajudar o inimigo), a decisão de deportar todos para a Alemanha ao final da guerra é moralmente indefensável. Deixando suas famílias na Austrália, aparentemente estes deportados nunca mais puderam retornar por aqui, e tiveram uma vida muito difícil em seu regresso a Alemanha. Como foi o caso de Frank Bungardy.

Em 1919, quando desembarcou na Alemanha, Frank Bungardy encontrou o boxe em plena ascensão.  Com o retorno das lutas profissionais à legalidade, após o prolongado banimento destas que perdurou até 1918 (exceto em cidades hanseáticas tais como Hamburg e Lübeck), a explosão do boxe alemão durante aquele período produziria lutadores do calibre de Max Schmeling.  As frustrações contidas pelo exercito derrotado estavam ganhando uma importante válvula de escape nos ringues por toda a Alemanha.

Como havia lutado profissionalmente na Austrália, Bungardy tentou a sorte no boxe profissional alemão, mas sem obter sucesso. Ele já tinha mais de 30 anos, e obteve apenas uma vitória e oito derrotas em sua breve carreira na Alemanha. Sua luta derradeira foi em 1923 contra um jovem de Bremen, e depois nunca mais se ouviu falar dele. A ultima vez que seu nome foi citado na imprensa australiana foi em 1951,através de um jornalista que, ao descrever uma luta em Port Pirie, fez uma rápida menção a Frank – a nota descreve Bungardy como um lutador búlgaro.


[i] van der Merwe, F.J.G, “Sport and games in Boer prisoner-of-war camps during the Anglo-Boer war, 1899-1902, International Journal of the History of Sport, 9, 3, 1992, 439-454

[ii] Helmi, N. and Fischer, G., The Enemy at Home: German internees in  World War I Australia. Sydney, UNSW Press, 2011

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