A vida festiva suburbana

Por Nei Jorge dos Santos Junior

A noite do dia 14 de agosto de 1918 foi de alegria em Bangu. O grandioso festival, organizado pela diretoria Montepio dos Operários da Fábrica Bangu, foi um sucesso entre os moradores da pitoresca vila operária[1]. O objetivo inicial do evento era arrecadar fundos em benefício dos cofres sociais do clube, por conseguinte, a construção de um completo gabinete dentário para atender aos seus associados.

Sob a batuta do aplaudido maestro Domingos Raymundo, a orquestra harmoniosa seguia proporcionando horas deliciosas de boa música aos seus sócios e convidados. Para o cronista do Bangú-Jornal, o grande baile, realizado em um dos seus melhores salões, “foi motivo de orgulho para a laboriosa região banguense, que tanto concorreu para o brilhantismo da referida festa” [2].

De fato, o relato nos mostra traços das ações que movimentavam a vida festiva suburbana. Os bailes e festas realizados nos subúrbios da cidade contagiavam grande parte da população, ganhando destaque significativo nas páginas dos jornais locais, como, por exemplo, noticiou a Gazeta Suburbana:

 

A festa dançante do Andarahy.

A festa dançante que o valoroso Andarahy offereceu sabbado defluiu animadíssima até alta madrugada.

A sua directoria foi pródiga em gentilezas para com todos que ali se achavam.

O serviço de <<buffet>> esteve excelente.

Em conclusão: foi uma diversão que deixou as mais gratas recordações [3].

 

A festa que seguiu até alta madrugada é um exemplo das atividades noticiadas nos jornais suburbanos. Sociedades como os Filhos da Lyra, Floresta do Andarahy, Andarary Club Carnavalesco, Mocidade de Bangu, Prazer das Morenas, Flor da União e Botão de ouro agitavam as noites dos subúrbios da cidade. Para dar conta das atividades de lazer dos subúrbios, periódicos como a Gazeta Suburbana, Revista Suburbana e Bangu-jornal se dedicavam intensamente aos bailes, noticiando com frequência as ações das sociedades, como podemos observar abaixo:

 

Filhos da Lyra

Em Bangú não há rival desse gremio de carnavalescos sarados e aparados.

Livra! Parece até que ali não se faz outra coisa senão empunhar-se a <<Lyra>> carnavalesca do reino de Momo [4].

 

Grande admirador da agremiação Filhos da Lyra, o cronista ainda destacou os feitos da Mocidade de Bangu, alegando que “a agremiação tem conseguido attrahir a attenção da gente que mora em Bangu. E o motivo é simples: dele faz parte quase toda mocidade escovada e sadia a localidade” [5].

Aliás, Bangu mantinha um número significativo de sociedades dançantes. Em 1910, por exemplo, o bairro contava com um pouco mais de vinte e cinco associações, fossem elas de caráter esportivo como o Sport Club Americano, o Esperança Foot-ball Club e o próprio Bangu Athletic Club, fossem aquelas diretamente dedicadas às atividades dançantes ou carnavalescas como a Flor da Lyra, o Cassino Bangu , a Flor da União e o Grêmio Prazer das Morenas.

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É bem verdade que essa cultura associativa não era uma exclusividade dos subúrbios da cidade. A antiga capital federal vivia um período de efervescência cultural, em que as influências do cosmopolitismo conviviam com elementos das tradições populares,oriundas das várias províncias e regiões brasileiras.

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Neste cenário, repleto de transformações culturais, crescia significativamente o número de associações ligadas ao lazer. A cidade contava aproximadamente com um número de 350 sociedades que se autodenominavam dançantes, esportivas, carnavalescas e, em menor número, culturais e educacionais, demonstrando que o hábito de associar-se já fazia parte de uma tendência facilmente observável no Rio de Janeiro dos primeiros anos do século XX[6].

Todavia, por mais geral que fosse esse crescimento, a relação que os grêmios de diversas classes sociais, notadamente os clubes da zona sul, estabeleciam com essas manifestações e o modo como eram simbolicamente apropriadas por essas classes eram substancialmente diferentes daqueles organizados nos subúrbios da cidade. Afinal, eram nesses elementos próprios da cultura popular que se traduziam o universo cultural suburbano, manifestando todos os seus contornos e peculiaridades.


[1] Bangú-Jornal, 15 de setembro de 1918, p. 3.

[2] Bangú-Jornal, 15 de setembro de 1918, p. 3.

[3] Gazeta Suburbana, 24 de fevereiro de 1920, p. 4.

[4] Gazeta Suburbana, 7 de fevereiro de 1920, p. 5.

[5] Gazeta Suburbana, 14 de fevereiro de 1920, p. 4.

[6] Jornal do Brasil (1910), Correio da Manhã (1910), O Paiz (1910) e O imparcial (1910).

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