O hóquei em patins entre Lisboa e Lourenço Marques

por Sílvio Marcus de Souza Correa

Coordenador do Laboratório de Estudos em História da África (LEHAf) da Universidade Federal de Santa Catarina

(http://lehaf.paginas.ufsc.br/)

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Em seu livro Aventura e Rotina (1953), Gilberto Freyre apontou para algumas influências culturais britânicas – como a prática de certos esportes – na cidade de Lourenço Marques então capital da África Oriental Portuguesa. A vizinhança com a Rodésia e a África do Sul poderia ser um fator explicativo para isso. Mas algumas modalidades esportivas de origem inglesa já eram praticadas na metrópole portuguesa no final do século XIX. Assim, a emergência de uma ou outra modalidade esportiva em contexto colonial teve, geralmente, origem múltipla. Isso significa que, além de uma eventual influência mais ou menos direta da metrópole, o campo esportivo na “África portuguesa” recebeu influências indiretas de outros países. Havia também uma difusão de práticas esportivas entre diferentes colônias africanas.

No caso do hóquei, o primeiro ringue de patins do império português não foi construído na metrópole, mas nos confins do império: No teatro Varietá, em Lourenco Marques, no início do século XX. Aliás, foi neste ringue que o menino Magalhães começou a andar sobre rodas. Vinte anos depois, já em Lisboa, o jovem Magalhães faria parte do quinteto da equipe portuguesa. Desde então, a presença de jogadores do Ultramar foi uma constante na equipe de hóquei em patins que representava Portugal em competições internacionais.

Em seu livro O hóquei em patins em Portugal (1991), Silvestre Lacerda informa que, na Lisboa da Belle Époque, a patinagem em recintos públicos era realizada no Colégio Militar e na Escola Académica. Além desses locais, o jornal Os Sports, de 12 de fevereiro de 1908, informa que a garagem da Sociedade Portuguesa de Automóveis, na rua Alexandre Herculano, tinha se tornado ponto de encontro da “sociedade elegante” para o exercício da patinagem (Lacerda, 1991:14).

Vale lembrar que patinagem e patins de campo concorriam com o hóquei em patins nos primórdios dos esportes sobre rodas. Segundo o depoimento de Rogério Futsher, o hóquei em patins foi introduzido em Lisboa por amadores da patinagem em 1915.

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Os primeiros jogos, o campeonato nacional e a internacionalização dos jogadores da província de Moçambique

Em Lisboa, o primeiro jogo de hóquei em patins teria sido organizado pelos Desportos de Benfica, no seu ringue, na Avenida de Gomes Pereira. Duas equipes deste clube efetuaram o primeiro jogo com regras, balizas, campo marcado, jogadores equipados e sticks ingleses. (Futsher apud Silvrestre, 1991:20). Já em 1916, ocorrem os primeiros jogos entre clubes.

O primeiro campeonato organizado pelo Sport Lisboa Benfica foi em 1917.

Somente em 1921 foi fundado um clube dedicado unicamente ao hóquei: O Hockey Club de Portugal. Vale destacar que a prática do hóquei por mulheres já era uma realidade na década de vinte. Nos ringues de S. João do Estoril e Amadora mulheres praticavam o esporte (Lacerda, 1991:28). Mas os primeiros jogos e campeonatos foram exclusivamente masculinos.

Nos primeiros anos da década de 20, os campeonatos foram organizados pela Liga Portuguesa de Hockey (LPH). Em 1925, a LPH se transforma em Federação Portuguesa de Hockey, sob a presidência de Rogério Futsher.

Na década de 1930 houve a participação em nível europeu da seleção portuguesa de hóquei. No início da década de 30, havia ocorrido a separação das duas modalidades de hockey (patins e de campo) O futebol também conquistava mais adeptos e concorriam com a preferência da assistência e mesmo de alguns atletas.

Em termos de infraestrutura, surgem novos ringues em várias cidades portuguesas (Tomar, Aveiro, Coimbra, Sintra…) ao longo da década de 30. Isso favoreceu o calendário esportivo e os campeonatos em nível nacional.

Na década de 1940, a equipe portuguesa de hóquei em patins já tinha prestígio internacional. Tal fama esportiva foi ideologicamente instrumentalizada pelo colonialismo. Após a vitória do campeonato mundial em 1947, o regime de Salazar se valeu do hóquei para a sua propaganda colonial.

Conforme Lacerda (1991:66), “com o intuito de alargar a influência da modalidade e contribuir para mais uma jornada de propaganda do regime colonial, foi organizado um périplo por terras da África.” Em 1949, na revista O Patim, o Presidente da Federação Portuguesa de Patinagem, o senhor Santos Romão, relatou a estadia da comitiva portuguesa em terras moçambicanas nos seguintes termos: “Feliz iniciativa (por todos os títulos), aquela que o simpático e valoroso Grupo Desportivo de Lourenço Marques teve em promover a deslocação às terras portuguesíssimas do Ultramar, da equipa nacional de hóquei em patins – glória do Portugal desportivo” (Lacerda, 1991: 66-67).

No âmbito da difusão do hóquei em patins realizou-se em 1957 um torneio internacional na cidade de Lourenço Marques. Na foto abaixo, mostra-se a equipe “moçambicana” que venceu os Campeões do Mundo (a Espanha) por 5 a 1. O troféu foi entregue pela diva do fado Amália Rodrigues.

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Em 1955, a equipe de hóquei em patins do Sindicato Nacional dos Empregados do Comércio e da Indústria (SNECI), de Moçambique, visitou Portugal. O delegado desportivo do SNECI era Armando Ribeiro. A equipe do SNECI era constituída por Alberto Moreira, Carlos da Ponte, Salvador Calado, António Souto, José Souto, Amadeu Bouçós, Cabral de Almeida, Fernando Adrião e Francisco Velasco.

A equipe moçambicana jogou em várias cidades de Portugal como Braga, Viana de Castelo, Guimarães, Porto, Aveiro, Coimbra e Lisboa. A equipe do SNECI perdeu apenas para as seguintes equipes: Clube Atlético Campo de Ourique, Sport Lisboa Benfica e Hockey Club de Sintra.

Essa tournée renovou o hóquei em nível nacional e lançou os atletas moçambicanos ao nível internacional. Em 1958, eles seriam responsáveis pela vitória do torneio de Montreux, na Suíça.

Em Aspectos Geográficos do Futebol em Portugal (1977), Jorge Gaspar fez uma relação interessante entre aspectos sociológicos e de geografia urbana para o futebol. À sua acurada observação foi alvo a prática do hóquei em Lisboa, onde a localização dos clubes correspondia à zona de residência das classes mais abastadas. De 12 equipes que disputavam a qualificação para a primeira divisão em 1977, apenas uma se localizava numa área industrial, por conseguinte, num bairro operário. “ A introdução do hóquei em patins verificou-se na parte ocidental da aglomeração de Lisboa e a sua difusão processou-se primeiro e sobretudo através deste sector, onde predomina a população mais rica e que se emprega em atividades terciárias”. (Gaspar, 1977:14).

Conforme Lacerda (1991:70-71), o material (patins, sticks, etc.) representava um custo elevado para os amadores do hóquei. Entre os primeiros jogadores, 30% eram comerciantes, 26% empregados de escritório, 13% bancários e 17% outras profissões liberais. O custo elevado do material pode ser um dos fatores explicativos para a exclusão dos ringues em Moçambique de atletas de cor.

Em 1963, ocorreu a primeira edição da Taça Portugal. Em 1964, o vencedor foi o clube moçambicano C. D. Malhangalene. Em termos políticos, o campeonato nacional de hóquei se valia da estrutura colonial. Ao mesmo tempo, o colonialismo infringia à realização do campeonato uma série de barreiras como, por exemplo, o alto custo com o deslocamento das equipes vencedoras dos campeonatos realizados na Metrópole, Angola e Moçambique. Por isso, os responsáveis federativos apresentaram no Congresso, em 1967, um novo modelo para o campeonato nacional de hóquei.

A inovação constituía na realização duma fase final que englobava os campeões da Metrópole, Angola e Moçambique, a que se juntaria outro clube da região onde essa fase se disputasse. No projeto, previamente apresentado, o campeonato seria disputado, em sistema rotativo, nas cidades de Lourenco Marques, Lisboa, Luanda e Porto. Em 1967, Porto foi excluída do esquema o que desencadeou protestos dos amadores de hóquei naquela cidade. (Lacerda, 1991:56).

Novas normas para a disputa do campeonato nacional visavam ampliar a participação de clubes das províncias ultramarinas, o que permitiu a conquista do troféu por equipes de Moçambique, em 1962, 69, 71 e 73. Mas o hóquei em patins em Moçambique iria percorrer um novo curso com a independência. Na sociedade moçambicana pós-colonial, o campo esportivo viria a ter novas configurações. O hóquei em patins se tornaria um esporte insólito.

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