Enche o peito, Brasil: Teu futebol é nossa alegria!

O título deste post espelha uma retórica jornalística sobre a seleção brasileira de 1982 que exalta o vistoso futebol praticado pela equipe comandada por Telê Santana nos estádios espanhóis. Trata-se do eixo norteador do discurso da principal revista esportiva do país na época, a Placar, e é na realidade a manchete principal da edição N.634 de 16 de julho do referido ano que saiu nas bancas logo após o término da Copa do Mundo realizada na Espanha.

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Mesmo com a positiva mensagem, a estupefação diante da derrota sofrida para a Itália entre os principais jornalistas da revista é notória. Apesar de algumas tentativas de explicar racionalmente a derrota, centradas principalmente na tradição da seleção italiana, o que predomina é a valorização do suposto renascimento do futebol-arte no país após duas Copas no ostracismo de esquemas táticos duros e sem criatividade em uma atmosfera de grande decepção.

O editor-chefe da revista Juca Kfouri, por exemplo, na edição de N. 633 escreve uma crônica “A triste sina de um punhado de heróis” em que fala da frustração de ver essa equipe ser eliminada adotando um tom trágico:

A tristeza é óbvia. O melhor futebol desta má Copa da Espanha não está, sequer nas semifinais. A tristeza é amarga. Uma maravilhosa concepção de futebol perdeu, num jogo talvez, todo seu futuro. Oxalá, mas oxalá mesmo, isso não ocorra. Que como a Holanda em 1974 , as imagens que o mundo guarde sejam as dos maravilhosos bailarinos verde-amarelos.

E a tristeza acreditem, e muito maior em função de pensar em homens como – Oscar, um bravo Júnior, – um valente Falcão, a sensibilidade de Zico, – o obstinado Sócrates, esta lindíssima figura humana – alijados da conquista que buscaram com tanta garra, com tanta arte, com tanto merecimento”.

Na coluna da mesma edição “Abrindo o jogo”, o comentarista Márcio Guedes em crônica intitulada “Futebol de sonho sucumbe à fria lógica” divaga desde a decepção até a preservação da lembrança posterior desta equipe. Como um verdadeiro “guardião da memória” defende imediatamente esta mitológica seleção:

Como explicar a derrota do Brasil? Como falar da imensa e profunda decepção que nos surpreendeu no instante de maior euforia? Como entender a tristeza de toda uma nação que estava vestida de verde e amarelo e que pelo menos durante 30 dias, encontrava a sua verdadeira e maior identidade?

Estou aqui na sala de imprensa do Estádio Sarriá, em Barcelona, ainda sob o impacto do apito final de Abrahan Klein, um apito que soou muito estranho, que ninguém esperava, que saiu como uma verdadeira sentença de morte. De repente as velhas lembranças, a tragédia de 50, a derrota do famoso escrete húngaro em 54 e – por que não – o amargo vice-campeonato do carrosel holandês em 74.

Mas não, não creio que seja hora de lembranças desse tipo. Tentemos ser racionais quando tudo nos leva a ser passionais, quase tudo nos leva a procurar desesperadamente culpados por um fracasso estatístico no país do futebol. Mesmo que não tenhamos sequer disputado a semifinal, mesmo que a nossa campanha, numericamente tenha sido inferior ás de 74 e 78, não tenho dúvida em afirmar que essa seleção deve ser preservada.

Ela deve ser lembrada com carinho como um ótimo exemplo de um grupo unido, honesto, que praticou um futebol ofensivo, alegre, insinuante, meio moleque até, e que nos conduziu a vitórias inesquecíveis e consagradoras. Uma seleção que nos revelou gols de antologia, que deslumbrou os europeus, que provocou de Di Stéfano a expressão: “Que coisa mais linda”.

Um dos correspondentes da revista Alberto Helena Jr descreve em crônica sobre a final da Copa disputada entre Itália e Alemanha, N.634 “A festa é italiana com todos os méritos” para a coluna “bola de papel” um possível deslumbramento da imprensa internacional que legitimaria a perpetuação do escrete canarinho:

“Aqui em Madri, ainda se ouvem os ecos das lamentações de todos que viram na Seleção Brasileira o caminho da redenção do futebol-espetáculo.

Não, não me refiro aos ufanistas brasileiros, os Pachecos que venderiam a roupa do corpo para perder a alma nos campos de Barcelona. Tampouco aos ufanistas de plantão que o incenso da vitória conduziu em rebanhos, à primeira fileira de aplausos e que agora rugem contra este ou aquele bode expiatório. Não.

Falo da imparcial crítica internacional, incluindo nesse conjunto até mesmo os italianos e alemães da grande decisão. Todos são unânimes, assim como os torcedores espanhóis em massa: foi o Brasil que deu cores, alegria e que abriu perspectivas para o ressurgimento do futebol elegante, ofensivo, inventivo, velho-novo, enfim”.  

      Como assinalou Jacques Le Goff diversos atores sociais estão constantemente disputando o papel de “senhores da memória” e obviamente os jornalistas fazem parte deste jogo.

Os ilustres comentaristas citados permanecem ate os dias atuais como verdadeiros ícones das mesas esportivas dos canais de televisão fechada e são indiscutivelmente defensores do futebol-arte, suposto estilo padrão do futebol brasileiro.

Decorridos 31 anos nenhuma outra seleção brasileira foi tão aclamada como o fantástico time de craques: Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Cerezo, Leandro, Éder, etc. Mesmo as equipes que se tornaram campeãs do mundo em 1994 e 2002 não possuem a aura e o reconhecimento metafísico do estilo brasileiro de jogar futebol, salvo exceções individuais como Romário e Bebeto na Copa dos Estados Unidos ou Ronaldo e Rivaldo na Família Felipão.

Mas será que apesar da retórica da alegria e da beleza do futebol-arte, o que deve predominar racionalmente no inconsciente coletivo é a tristeza e a lamentação de constatar que essa seleção sensacional não representa o padrão nacional? Ela foi uma das maravilhosas equipes que aparecem esporadicamente no futebol mundial e que infelizmente não conseguiu ganhar a Copa.

Mesmo para um órfão desta geração, que chorou copiosamente a eliminação na tragédia do Sarriá, a seleção de 1982 não pode ser uma exceção que confirme uma regra hipotética de que o futebol brasileiro é naturalmente alegre, criativo, dionisíaco e festivo. Que pena, Brasil!

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