O sonho de Kassim

Rafael Fortes

Preâmbulo

“Sonho de Kassim – Surfista Israel”. Assim estava escrito no DVD que coloquei para rodar no aparelho. O texto de hoje do blogue era meu e eu estava sem ideia de tema. “Vou aproveitar para ver aquele filme sobre surfe e Israel”, pensei. Seria uma oportunidade de voltar a dois temas que tanto me interessam (na verdade, o que mais me interessa no segundo é aquilo que o país não deixa existir: um outro chamado Palestina).

Botei o filme para rodar e… era sobre um boxeador ugandense radicado nos EUA. “A cavalo dado não se olha os dentes”, diz um ditado popular que minha mãe costumava repetir durante minha infância. Uma das coisas legais deste grupo de pesquisa é a troca de presentes, agrados, lembranças e referências entre os membros. Um colega gentilmente gravou e me deu o DVD – e anotou o nome errado meio certo, meio errado. Vamos ao filme, então.

O Sonho de Kassim

O Sonho de Kassim – Do horror da guerra à glória no boxe (o título inventado no Brasil é praticamente uma sinopse) é um documentário narrando a trajetória de Kassim Ouma, natural de Uganda e boxeador profissional nos Estados Unidos. Kassim The Dream (título original), foi produzido em 2008 e lançado no ano seguinte, sob direção de Kief Davidson. Eis o trailer:

Como é comum no boxe, ele tem um apelido, usado entre o nome e o sobrenome: Kassim “The Dream” Ouma. Não sei se é coincidência, mas o apelido, “O Sonho”, é o mesmo de “um dos maiores jogadores da história” da principal liga norte-americana de basquete (a National Basketball Association, NBA): o nigeriano Hakeem “The Dream” Olajuwon. Ambos africanos que fizeram sucesso no esporte profissional nos EUA.

A história começa a ser contada com o rapto que ele sofre na escola, aos seis anos de idade. Na montagem paralela, a luta em que se tornará detentor do cinturão da Federação Internacional de Boxe (FIB). Kassim desertou quando estava nos EUA para participar de um campeonato mundial militar, como boxeador do exército ugandense.

Filme de boxe, filme biográfico

A história de vida do protagonista é incrível. Sobre o passado, somos informados de que matou e torturou muita gente quando participava de um grupo armado em seu país. “Torturar pessoas era divertido. Porque eu era criança”, explica, para, em seguida, explicar que apenas cumpria ordens e que se arrepende do que fez. Segundo o lutador, o boxe é uma “terapia” que lhe ajuda a lidar com tal passado.

Kassim ficou muitos anos sem ver a mãe, até conseguir levá-la para viver com ele nos EUA (ao final do período de produção do filme, Kassim morava na Flórida com a mãe e seus dois filhos). Segundo relata, seu pai foi assassinado por vingança, devido à deserção do filho.

No presente da narrativa, acompanhamos cenas do período em que o filme é produzido. Não apenas sua rotina de treinos e lutas, mas os dramas pessoais para levar para os EUA seu primeiro filho (que morou em Uganda durante muitos anos) e conseguir visitar o país natal. Após enfrentar muitas dificuldades, Kassim consegue ambos os objetivos.

Particularmente notáveis são as cenas gravadas em Uganda, desde a recepção com festa no aeroporto até a entrevista com o comandante das forças armadas, passando pelo contato com crianças, a visita à avó, o retorno à cidade natal (onde é recebido como ídolo) e a visita ao túmulo do pai, por cuja morte o protagonista se sente responsável.

Comum tanto nas biografias como nas películas de boxe, temos na tela uma trajetória individual de superação. O garoto que teve infância e adolescência trágicas  torna-se ídolo nos EUA e ganha o cinturão da Federação Internacional de Boxe (FIB), uma das principais da modalidade. Depois, perde o título por causa de farras. Depois tenta (e perde) conquistar o título mundial em outra categoria…

Boa parte da narração acontece em primeira pessoa. Quando escrevi que se tratava de um “documentário narrando” a trajetória do boxeador, é um jeito de falar. Outro seria que se trata de uma construção (entre muitas possíveis) de uma trajetória (entre muitas possíveis) do boxeador.

Seja como for, é um filme impressionante – menos pela construção da obra cinematográfica e mais pela trajetória do personagem -, que permite a discussão de temas como imigração, consumo, os imaginários ligados aos EUA (como terra que acolhe imigrantes, terra da liberdade e onde os capazes conseguem vencer etc.), relações internacionais (incluindo as deserções de esportistas e suas implicações) e uso de drogas por atletas (Kassim fuma maconha regularmente).

Leituras recomendadas

Sobre as crianças-soldado, só que na África Ocidental, recomendo o romance Alá e as crianças-soldado, de Ahmadou Kourouma, editado no Brasil numa série bem interessante, Latitude, da Editora Estação Liberdade.

Sobre filmes de boxe, o artigo “Cinema, corpo, boxe: reflexões sobre suas relações e a questão da construção da masculinidade”, de Victor Andrade de Melo e Alexandre Fernandez Vaz. In: MELO, Victor Andrade de; DRUMOND, Maurício (org.). Esporte e cinema: novos olhares. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009. p. 95-143.

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