O TURFE EM SALVADOR

            Coriolano P. da Rocha Junior

            Neste blog tenho tratado da prática esportiva e sua história na Bahia. Hoje, mais uma vez farei isso e para tanto, vou me ocupar de um esporte que na atualidade não tem tanta repercussão, mas que e fundamental para a constituição desta prática social no Brasil.

            No país, o turfe, desde suas origens, assumiu o papel de agente civilizador, criando uma dinâmica na qual as pessoas poderiam acompanhar uma atividade cultuada na Europa, mesmo sem praticá-la diretamente. No caso de Salvador, o turfe simbolizava uma civilidade que começava a ser pensada, sem ser um rompimento absoluto com as características da sociedade que existia.

            No turfe, vimos a coexistência entre o aspecto rural e o urbano, tendo sido o esporte um exemplo de transição. Aspirava-se a uma modernização; todavia, a cidade ainda guardava ares rurais. Assim, a modalidade, mesmo que se organizasse segundo preceitos modernos, tinha suas bases assentadas em uma lógica rural, demonstrando a ambiguidade da modernidade, gerando não uma cisão, mas uma acomodação entre continuidade e mudança.

            Por ter sido o primeiro esporte a apresentar uma estrutura mais organizada, o turfe acabou sendo uma referência para as práticas que o sucederam. Dele foram usados como modelo, normas, regulamentos, termos, tipos de provas e até mesmo as instalações e o uso e controle do tempo.

            Em Salvador, entre fins do século XIX e início do XX, o turfe aparecia na cidade. Todavia, na década de 1910, foram encontradas poucas referências que fizessem menção à existência de sua prática formal nos jornais soteropolitanos. Já na década de 1920, a revista Artes e Artistas[1], na seção Sportivas, trazia constantemente notícias sobre o turfe, como esta: “para a corrida de hoje no Hypodromo da Boa Viagem, a directoria organizou o seguinte programma”. A coluna apresentava ainda palpites para os páreos. A edição seguinte[2] trouxe esta matéria:

realizou-se no domingo último, mais uma excellente corrida no prado da Boa Viagem. A assistência regular estava um pouco apprehensiva com os novos parelheiros que tomavam parte em diversos pareos e marcava seus predilectos nas combinações das duplas e a proporção que iam se succedendo os pareos ella via com desgosto e surpreza a derrocada de seus palpites em proveitos dos novos dentre os quaes fez uma bonita figura o Patusco, que venceu em dois pareos.

             No que toca as notícias sobre o esporte, na década de 1910, se viu nos principais jornais diários um vazio sobre a modalidade. Nesse período, encontramos esporadicamente notas sobre corridas de cavalos, como uma atividade de diversão, associada a alguma festa[3]. A partir da década de 1920, o esporte passou novamente a ser noticiado, com sua prática concentrada no mesmo hipódromo dos tempos iniciais (o da Boa Viagem).

            Algumas considerações podem ser feitas sobre as razões que motivaram esse intervalo na cobertura sobre o turfe em Salvador. É sabido que a 1ª Grande Guerra causou fortes impactos na cidade, notadamente em sua vida econômica, pois a população sofreu com a elevação do custo de vida, várias categorias profissionais tiveram prejuízo e claro, houve aumento do desemprego, enfim, várias mazelas sociais aconteceram em decorrência da Guerra. Como no esporte existia o hábito das apostas, podemos inferir que a menor circulação de dinheiro pode ter gerado um desestímulo pela modalidade, em função das dificuldades em se apostar e ainda, pela prática ser uma atividade com altos custos de manutenção de seu espaço e dos animais.

            Com relação às apostas é importante dizer que essas sofreram, em Salvador, uma campanha contrária por parte de alguns jornais. Eles noticiavam o quanto esse hábito desencaminharia as boas almas e as boas famílias soteropolitanas, podendo ser esse um fator da não alusão ao turfe em suas páginas. Outra razão pode ter sido a dificuldade de deslocamento até a área do Bairro da Boa Viagem. Também, os jornais do período eram veículos de notícias vinculados a forças políticas locais e, portanto, tinham na própria política seu tema de interesse. Assim, essa pode também ter sido uma causa da diminuição ou desaparecimento do tema turfe nas páginas dos jornais. Além disso, o reduzido número de revistas pode ter sido mais um fator.

            De toda forma, apresentamos apenas algumas interpretações para esse dado, importando dizer que o turfe foi, em Salvador, uma prática inconstante e de caráter tópico, sem experimentar uma forte organização na forma de clube. Assinalamos que a participação do público no turfe era associada a “bons” modos de comportamento, exigindo-se uma vestimenta “chique”. Ir aos hipódromos para ver e ser visto circular por entre os da elite era fato comum.

            Enfim, vivia-se nas atividades de turfe um cenário de socialização típico dos adventos da modernidade. Estar na rua em contato com outras pessoas, bem como saber portar-se e vestir-se eram marcas das novas “posses” das camadas detentoras de poder. Além disso, apostar e mesmo ser proprietário de animais simbolizava poder financeiro – e ainda poderia contribuir para o enriquecimento. Eis dois exemplos sobre o estar num evento de turfe:

no Hyppodromo S. Salvador realisarse-á, no domingo próximo, uma importante corrida, em beneficio da Sociedade S. Vicente de Paulo, uma das mais bem conceituadas instituições de caridade deste estado. Comparecerão as principaes autoridades civis e militares, além de muitas famílias que vão levar o seu valioso concurso para o bom êxito de tão importante festa, cujo fim é todo de caridade e amor á pobreza. Tocarão durante a festa seis bandas de música: a do 9º batalhão de infantaria, as do 1º e 2º corpos de polícia e as philarmonicas: Lyra de Appollo, órphãos de São Joaquim e Lyra S. Vicente de Paulo.[4]

realisou-se, domingo passado, a corrida extraordinária no Hippodromo S. Salvador, em benefício da revista leituras religiosas. As archibancadas estiveram muito movimentadas, notando-se muitas exmas. famílias. Foram disputados com vantagem todos os páreos, exhibindo-se excelentes parelheiros, producto de Matta de S. João.[5]

             A partir do que vimos, podemos identificara as formas de participação e envolvimento da sociedade soteropolitana com o turfe, deixando ver o quanto esta prática, no período assinalado, se inseria no cotidiano local, sendo uma atividade de diversão e ocupação, um esporte que se inseriu naquele que foi um dos projetos de urbanização da cidade, mesmo que ainda tivesse uma base rural, representando a ambiguidade da configuração da modernidade.


[1]Revista Artes e Artistas, anno II, número 43, 1923, p.10.

[2]Revista Artes e Artistas, anno II, número 44, 1923, p.12.

[3]A Tarde, 17 de agosto de 1915, p.2.

[4]Diário da Bahia, 12 de setembro de 1902, p.1.

[5]Diário da Bahia, 16 de julho de 1902, p.1.

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