Candidatas à Glória: a mulher esportiva da década de 1940

Por André Schetino

Olá amigos do História(s) do Sport. Há alguns meses atrás fiz um post falando sobre esporte e eugenia em Minas Gerais, e mostrei essa relação a partir de um evento esportivo chamado “Ginástica Feminina da Primavera”.

No post de hoje vou mostrar, a partir de alguns exemplos, diferentes relações entre as mulheres e o esporte na década de 40. Trouxe duas imagens que tratam a mulher de forma distinta, mas ambas colocam os esportes como elemento importante oui mesmo predominante.

A primeira delas foi o anúncio e o texto transcrito abaixo, que encontrei nas páginas da Revista Alterosa e divido com vocês:

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 Prestigiae a grande obra de educação e cultura que o Governo de Minas vem realisando com absoluta firmeza, adquirindo os bilhetes da Loteria Mineira. Amparareis, assim, o futuro da nossa terra, porque esse futuro depende dos homens de amanhã, isto é, da mocidade que está aprimorando o espírito e o corpo nas escolas e nos nossos campos de esporte.[ii]

Trata-se de um anúncio da Loteria Esportiva Mineira, promovida pelo governo do Estado, de 1939. Apesar de enfatizar que o futuro de nossa terra depende dos homens de amanhã, o anúncio era ilustrado com o desenho de uma mulher (principal público da Revista Alterosa) realizando o movimento de arremesso de peso. Além disso, o texto destacado permite diferentes interpretações: na primeira, o esporte estaria colocado em pé de igualdade com a educação, servindo como forma de aprimoramento corporal e espiritual. Mas o texto permite também pensarmos sobre uma importância relativa do esporte, mostrando o entendimento de que havia espaços e momentos distintos para a educação do espírito e do corpo.

Se no primeiro exemplo a mulher já aparecia praticando esporte (mesmo com uma referência no texto aos homens), nosso segundo exemplo ela se torna a protagonista. Trata-se de uma reportagem de 1945, na qual a revista Alterosa apresentava “conselhos às jovens que desejam vencer na vida”. Entre dicas como alimentação moderada, estudos e polidez, estava também a prática esportiva regular.

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Clicando nas imagens você consegue ver a reportagem ampliada. Destaco o trecho abaixo:

A proeficiência em esporte ao ar livre é sempre um ativo na conta da jovem que deseja progredir em sua carreira. O esporte, além de desenvolver harmoniosamente o físico, quando praticado com método, ainda auxilia a relaxar a torsão nervosa tão frequente nas pessoas de grandes aspirações.[iii]

A reportagem mostra agora uma mulher que ganhara o mercado de trabalho com a II Guerra Mundial e nele deveria permanecer e buscar sucesso, desde que seguindo alguns conselhos. O esporte estava no rol das práticas imprescindíveis para aquelas que queriam alcançar não só a saúde e o bem estar, mas também o sucesso no mundo do trabalho.
O que acho mais interessante nesses exemplos é que, mesmo com uma mensagem clara, eles fazem parte de um conjunto de fatos que marcaram um aumento na participação feminina na sociedade, seja no mundo do trabalho ou nos esportes. Falando de participação em alto nível, como nas Olimpíadas, temos 11 mulheres na delegação brasileira no jogos de Londres em 1948, contra 6 em Berlim (1936) e apenas uma em Los Angeles (1932), que marcou o início da participação de brasileiras nos jogos.
E já que estamos falando de mulheres e esportes, aproveito para indicar o excelente documentário Mulheres Olímpicas, de Lais Bodansky, exibido no último domingo no canal ESPN Brasil. Deixo pra vocês o trailer.
Abraços e até o próximo post!

[ii] REVISTA ALTEROSA nº 01, agosto de 1939, p. 22. Grifos meus.

[iii] Candidatas à Glória – conselhos às jovens que desejam vencer na vida. REVISTA ALTEROSA, nº 67, novembro de 1945, p.86 e 94(continuação). Matéria não assinada

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