Meia hora de Notícias e muitas outras de Emoções e Sensações

André Alexandre Guimarães Couto

Olá, caros (as) leitores (as):

Confesso que o tema de hoje não seria este, mas mudei de ideia aos 45 minutos do segundo tempo por uma razão que explicarei no final do post.

Temos discutido por aqui a relação entre a imprensa e os esportes além de outras inter-relações importantes ao longo da História recente brasileira. Porém, o veículo de comunicação que trataremos aqui é o jornal carioca Meia Hora, no auge da sua performance gráfica, ou seja, nos dias de hoje.

Meia Hora de Notícias (nome oficial) pertence ao grupo de outro periódico importante no Rio de Janeiro: O Dia, criado em 1951 por Chagas Freitas e que atingiu muita fama na década de 1980, a partir da gestão do empresário e jornalista Ary de Carvalho (falecido em 2003). Hoje está sob a gerência da EJESA (Empresa Jornalística Econômico SA).

Jornal de cunho altamente sensacionalista traz em suas páginas um discurso bem popular (chegando ao popularesco) e abusando de temas impactantes como a criminalidade, o erotismo e, é claro, os esportes.

Não temos a intenção neste breve post, de analisar o jornal como um todo, mas apenas selecionar duas capas importantes que exemplificam o tipo de discurso escolhido pelo veículo no que diz respeito ao futebol.

A linguagem visual se confunde com a linguagem verbal e gestual da população carioca. As gírias, sinais e frases de duplo sentido põe graça e mexe com o imaginário coletivo numa relação mais do que direta com o leitor. Se não há um diálogo propriamente dito, há expectativa pelas próximas capas, e há multiplicidade das gozações e sacações das matérias, manchetes e imagens (muitas escrachadamente montadas) entre os leitores/torcedores. Se pensarmos que a estratégia linguística e discursiva é interessante, a de marketing não fica atrás, por conta do investimento de venda dos jornais em veículos de comunicação de massa como os trens da Supervia, por exemplo.

Meia Hora 1

08/10/2013

Um bom exemplo destas capas sensacionalistas (e por que não sensacionais?) é a brincadeira com as palavras e imagens acerca da possibilidade de punição ao Vasco por conta de um gesto de Juninho Pernambucano para a torcida adversária. Temos, então, poucas palavras e uma imagem que destila a graça sem sutileza porém informando de forma direta para o seu público. Se em outros jornais temos o fator humor impresso nas charges, como exemplo, aqui a capa e a montagem do texto das manchetes causa um efeito mais forte e contundente neste aspecto.

Meia hora 2

24/10/2013

Em outra capa, a brincadeira é com o Botafogo, que por ter perdido pelo Flamengo de goleada, com 3 gols de Hernane sentiria a fúria do Brocador (apelido do artilheiro). A capa é montada, tendo como apelo o erotismo (presença de uma mulher-fruta), a gozação com a derrota (Broca D’Or lembra a rede D’Or de hospitais) e a linguagem popular, sarcástica e bem-humorada.

Cabe lembrar que a proposta do jornal é criar sensações múltiplas em seus leitores, como o escracho (conforme os dois exemplos apresentados), o espanto (principalmente pelas notícias sobre os crimes que assombram a cidade do Rio de Janeiro) e o apelo à sexualidade (este último se associando ora ao crime, ora aos esportes, ora em outras situação inventadas pelo jornal).

Os esportes, então e principalmente o futebol, mais ainda do que os temas sexuais, seriam espécies de “válvulas de escape” de uma cobertura jornalística do cotidiano da cidade carioca que impressiona algumas vezes por uma brutalidade sem limites e de um espanto que se perpetua por alguns dias.

Se a imprensa há muito tempo descobriu como lidar com a relação entre as palavras e imagens e as emoções específicas do esporte, até mesmo como uma fator de sobrevivência daquela, estes veículos inauguram uma lógica mais contundente de (re)criar a informação, com estratégias específicas para tanto. Normas e técnicas de redação e a pseudo neutralidade e lucidez jornalística são jogadas nas gavetas pelos idealizadores do Meia Hora.

O jornal muito provavelmente aprendeu com O Dia no aspecto sobre a supervalorização das notícias sobre os crimes, já que na década de 1980 dizia-se no imaginário popular que ao “espremê-lo saía sangue”. Será que Meia Hora também bebeu na “tradição” sensacionalista dos tablóides ingleses, por exemplo? Só uma investigação mais apurada para saber. De qualquer forma, entender a imprensa carioca hoje, passa pela análise deste estilo (?) de informação.

Obs.1: Agradeço ao colega de SPORT e amigo Nei Santos, que nos chamou a atenção deste jornal como objeto de estudo.

Obs.2: Este post é em homenagem ao Sr. Jorge Marques Guimarães, tricolor doente e também meu pai, que faleceu há cerca de 2 meses. Leitor deste jornal, já que minha irmã o compra até hoje, se divertia bastante com o Meia Hora.

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