Western Sydney Wanderers FC – o novo clube mais antigo no futebol australiano.

Por Jorge Knijnik

A temporada passada (2012/2013) da liga profissional de futebol na Australia (a A-League) foi marcada pelo surgimento de um novo time: o Western Sydney Wanderers FC. A competição da A-League começa no final de Setembro e vai até o começo de Maio do ano seguinte. O Wanderers foi oficialmente fundado em Julho de 2012, entrou no campeonato e teve uma trajetória fulminante ao longo de toda a temporada, vivendo aquilo que a imprensa e o publico não pararam de aclamar como “um conto de fadas”.

Mas alguém pode estar se perguntando: se o clube iniciou suas atividades somente na ultima temporada da A-League, porque o post se chama “o clube mais antigo” do futebol Australiano?

A explicação para este titulo vem das origens do futebol na Australia. Os registros apontam que o primeiro jogo de futebol oficialmente jogado por estas bandas aconteceu em 14 de agosto de 1880, entre o time de rúgbi da King’s school e o primeiro time de futebol oficialmente reconhecido no país – o The Wanderers. Este jogo, encabeçado e organizado por John Walter Fletcher (a quem muitos se referem como o pai do futebol na Australia), foi realizado em um campo no bairro de North Parramatta – uma das principais localidades da área de Western Sydney (Oeste de Sydney), onde também se localiza o Parramatta Stadium, no qual os ‘novos’ Wanderers sediam seus jogos.

Em agosto passado, para celebrar a historia deste novo clube mais antigo do futebol australiano, foi realizado um jogo comemorativo do patrimônio histórico imaterial – eles reuniram no campo da King’s school, durante o festival escolar da primavera, ex-jogadores da seleção nacional (os Socceroos) contra ex-alunos que atuaram no escrete da escola. Os jogadores usaram replicas de uniformes antigos, com aquelas camisas com botões grandões por todo o peito e barriga, em uma lembrança viva, divertida e emocionante – um belo jeito de marcar e reviver a historia do esporte!

Mais interessante ainda é o fato do clube voltar a sua região de origem, Western Sydney. Como relembra o historiador do futebol Philip Mosely, as raízes do jogo neste pais estão profundamente arraigadas a Western Sydney. Ele aplaude não somente a realização deste jogo histórico, mas principalmente a decisão de se fundar o novo time profissional da A-League justamente em Western Sydney.

De fato, esta é a grande propaganda do time: “o futebol voltando a sua terra de origem” (em inglês, eles falam da heartland; outra tradução possível seria “voltando ao coração” de algum lugar; lembram do Belchior cantando Tudo outra vez ? “Nossas irmãs nos esperam, no coração do Brasil” – aquele lugarzinho especial aonde o coração fica – principalmente para acadêmicos auto exilados). Parece que isso realmente deu certo. Western Sydney definitivamente e’ o coração do futebol australiano. A ligação com a região foi um fator decisivo para o sucesso fulminante dos Wanderers, e para a efetivação do seu “conto de fadas”. Mas afinal, que historinha é essa? Como um time, montado poucos meses antes do torneio, com muitos jogadores que eram ‘refugo’ de outros times da A-League, jogando em um estádio modesto onde não cabem mais de 21 mil pessoas, pode obter tanto sucesso?

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Uma breve explicação de como funciona a competição da A-League ajuda a entender o fenômeno. Há 10 times na liga, nove espalhados pela Australia e um em Wellington, na Nova Zelândia. Estes times são franquias operadas ou comercializadas pela Confederação Australiana de Futebol (FFA), um sistema semelhante ao das ligas japonesa ou coreana. Durante a longa primeira fase do torneio, estes times se enfrentam entre si três vezes, com um total de 27 rodadas, em um sistema de pontos corridos. Ao final da 27ª o time que acumulou mais pontos ganhou … o titulo de ‘Premiers’. Sensacional! Quem ganha o Premiers já tem vaga na Asian Champions League, versão regional da Libertadores da América. Mas o Premiers e’ considerado o segundo titulo mais cobiçado da A-League, pois assim que acabam as 27 rodadas, os seis clubes no topo da tabela irão disputar, em um sistema de mata-mata, turno único, o titulo de Grande Campeão da temporada. Os dois primeiros colocados da primeira fase já estão garantidos nas semifinais, enquanto o 3º pega o 6º, e o 4º colocado joga contra o 5º, em jogo único com o melhor classificado jogando em casa, para decidir quem vai as semifinais.

Pois bem, foi exatamente este o “conto de fadas” que viveu o Wanderers. Vindo de baixo, com jogadores humildes e esquecidos, com apenas uma grande estrela, o japonês Shinji Ono; começando naquele ano, os Wanderers não tinham grandes ambições a não ser fazer uma temporada razoável, e quem sabe se classificar entre os seis melhores. Mas o time foi melhorando ao longo da competição, crescendo, se superando, ficando imbatível nas rodadas finais… até se consagrar  como campeão da primeira fase, Premiers 2012/2013! Um feito glorioso, ainda mais se comparado com grandes times com maiores orçamentos, como o Sydney FC (que nem entre os seis chegou) ou o Melbourne Victory. Depois disso, o Wanderers ainda bateu o Brisbane Roars nas semis e… infelizmente perdeu a grande final para o Central Coast Mariners por 2×0 – se ganhassem, seria realmente o “conto de fadas” realizado, mas e’ muito difícil um time ganhar o Premiers e depois a Grande Final…

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Como eu já mencionei, esta trajetória de sucesso esta intimamente ligada à região. Com o West. O povo que vive para o interior do estado, longe da conhecida orla marítima de Sydney. Na ‘carta de princípios do clube, está  escrito: “para o povo de Western Sydney; pelo povo de Western Sydney”. Assim tem sido.

Western Sydney não tem o glamour internacional de Sydney. Não tem a Sydney Opera House, tampouco as famosas praias de Bondi ou Manly – onde a brasileirada jovem se acotovela por um lugar ao sol ou faz uma marolinha com suas pranchas. A grande atração turística de porte global para quem se aventura por estas bandas são as Blue Mountains – extraordinária, maravilhosa cadeia de montanhas que recentemente sofreu muito com incêndios florestais.

Western Sydney e’ uma região demograficamente muito densa, e geograficamente muito espalhada. Somente a University of Western Sydney, onde leciono, possui seis grandes campi espalhados pela região – por vezes precisa-se de 90 minutos para ir de um ate’ outro, viajando a 100 km/hora. E’ grande isso aqui.

Também e’ uma região com uma diversidade cultural enorme, o ultimo censo indica 172 línguas (que não o inglês) faladas em casas e pequenas comunidades por aqui. E’ a região que abriga muitos refugiados de guerras africanas ou do Oriente Médio recém-chegados na Australia. Aonde vieram morar pessoas fugindo das guerras na Europa Central no final do século passado – bósnios, sérvios, croatas. Comunidades organizadas com clubes de gente do mundo inteiro encontram abrigo em Western Sydney – inclusive muitos Latino – Americanos: uruguaios as pencas, chilenos, equatorianos, El Salvadorenhos, todos tem um abrigo em Western Sydney.

Mais conflitos sociais, também – mais gente, um pouco mais de pobreza. Questões identitarias muito fortes, que eventualmente transbordam em algum conflito, muito pequeno. Mas toda esta gente diversificada (leiam direito, escrevi diversificada, de diversidade – não “diferenciada”… ) sempre teve uma ligação cultural e emocional muito grande com o futebol. Os clubes de futebol locais sempre foram muito fortes, participavam inclusive da extinta National Soccer League – que foi substituída pela A-League em 2005.

Assim, quando se noticiou que a FFA realmente iria montar um time na área, a coisa pegou fogo. Executivos do novo clube se reuniram com membros da comunidade, em um processo muito interessante para discutir, entre outras questões: o nome do time; as cores e símbolos do novo clube; principalmente, se discutiu muito com a comunidade os valores e princípios da nova agremiação. Dentre estes últimos, alguns se sobressaem: o povo da região queria que o time lutasse por eles; os deixasse orgulhosos; e fosse competitivo.

Alguns grupos também começaram a agir por conta própria. Um destes grupos, que inicialmente se congregou através de um forum futebolistico online da regiao, acabou por estabelecer uma torcida organizada conhecida por Red and Black Block. Foram estes caras, ainda são estes caras, que fizeram e fazem a diferença não somente no desempenho dos Wanderers no campo – mas em todo o jeito de se torcer no esporte australiano. Uma grande transformação cultural vem ocorrendo nas arquibancadas esportivas – e não somente nelas –  motivada por este grupo de torcedores fanáticos. O time, que não era e ainda não e’ grandes coisas, sente uma motivação extra com esta torcida maravilhosa e inquieta – eles são realmente o 12º jogador em campo! A evolução da coisa foi tão grande, que se na temporada de 2012/13 o clube recém-nascido tinha 7.000 sócios torcedores, na temporada atual o numero chegou a 16.000! Eles foram obrigados a parar de vender carteirinha de sócio-torcedor, pois não iria caber no estádio… Não se encontra ingresso para jogos do Wanderers em casa, uma loucura…

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Uma questão de ordem: o RBB não tem nada a ver ideologicamente com os ‘Black Blocks’ que vem se manifestando pelo Brasil e em outras partes do mundo. Eles se denominam Red and Black Block (RBB – Grupo Vermelho e Preto) em função das cores do time, que fazem com que a camisa numera 1 do time seja parecida com a do meu querido Leão do Norte, o Sport Club do Recife[i].

O RBB e’ um grupo de jovens (e não tão jovens assim) com origens distintas – sul americanos, centro-europeus, gregos, gente do Oriente Medio, etc – representativos da diversidade de Western Sydney. Eles se orgulham que na torcida eles convivem pacificamente – bósnios, sérvios e croatas lideram o grupo, e cantam juntos pelos Wanderers. Ajudam-se mutuamente. Eles se uniram em torno do clube, para defender a causa da região. Desde o inicio eles se propuseram a fazer algo diferenciado em torno do ato de torcer nos campos australianos. Anteriormente, aqui em Sydney eu ia a um estádio como espectador, aplaudia algumas jogadas, mas algo frio, meio chato ate’, nada a ver com nossas raízes e com aquela torcida brasileira alucinada. Com o RBB, não somente eu mas toda a Australia começou a assistir a um novo jeito, muito mais gostoso e divertido de se torcer por um time. Os caras sentam atrás do gol e não param um minuto de cantar e pular, criando uma atmosfera alucinante! E’ uma delicia estar no setor do RBB, eles realmente contagiam! Durante os 90 minutos o RBB canta e pula sem parar. Neste vídeo ai que selecionei da para vê-los fazendo o Poznan, aquela tradição maluca que começou na Europa: aos 80 minutos de jogo, aconteça o que acontecer, a torcida vira de costas, se abraça e começa a cantar e dançar juntos por um tempo. E’ uma farra deliciosa! Há algumas semanas, em uma sexta à noite, o Wanderers jogava em casa (Parramatta stadium) contra o Adelaide. Jogo nervoso, difícil, estava 1X1 quando, aos 79 minutos (34 do segundo tempo) o centroavante do Wanderers desempatou! Foi uma coincidência excelente! Não somente o setor RBB, mas sim as 20 mil pessoas do estádio viraram de costas, se abraçaram e ficaram pulando e cantando em uníssono. Impressionante. Nunca se viu nada assim antes neste pais!

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A primeira vez que eu os vi, na televisão, também fiquei alucinado. Na hora senti uma conexão muito grande com o que eles fazem. Rapidamente, percebi que precisaria pesquisa-los, entender melhor esta nova cultura em formação. E fui à luta. Consegui uma verba, e agora estou lá nos jogos, conversando e torcendo com o RBB, enquanto faço a minha coleta de dados.

Um dia desses, um membro de uma torcida me comentou que um  brasileiro, torcedor de equipes tradicionais e com muita historia, deveria achar estranho como eles podiam ser tão apaixonados por um clube que tinha apenas um ano de vida… Confesso que no inicio eu achei esquisito … Mas agora, acompanhado os torcedores, percebo que eles se apaixonaram pelo clube como alguém se apaixona por um bebe recém-nascido! E’ deles, por eles, e eles vão lutar ate’ o fim pelo Wanderers! WEST! Eles cantam nos jogos.

Sim, há um forte componente regional. Western Sydney, como já mencionei, e’ uma região mais conflituosa socialmente, tem um pouco de criminalidade inclusive. Conversando com alguns membros do grupo, percebi que eles guardam magoa do ‘pessoal do Leste’. “São riquinhos, se acham, são arrogantes” eles comentam. Mais que uma briga entre a Bruxa Má do Leste e a do Oeste (que não seria de todo inadequada aqui em Oz, como muitos se referem a ‘Ostralia), existe um componente de classe social muito forte neste discurso. Uma garota me contou que muitos ofendem eles chamando-os de “Centrelink” – seria o equivalente a “xingar” alguém no Brasil de “Bolsa Família” – mostrando que aquela pessoa e’ pobre, vagabunda, que uns trabalham para pagar o beneficio social alheio. Um preconceito, pior, uma discriminação classista muito bem descrita pela socióloga Walquiria Domingues Leão Rego e pelo filosofo Alessandro Pinzani em seu livro Vozes do Bolsa Família (Editora Unesp).  Um sentimento que acaba desembocando no futebol, principalmente contra os torcedores do time que simboliza o “Leste” aqui nesta cidade – o Sydney FC.

O Sydney FC e’ o grande rival local dos Wanderers. A disputa simbólica travada entre os times, e entre as torcidas, e’ de quem ‘manda’, quem controla a cidade futebolisticamente – nos gramados e nas arquibancadas. Uma disputa que desagua no ‘derby’ da cidade, o clássico Oeste X Leste, que aconteceu há duas semanas no belíssimo estádio do Sydney FC, no centro da cidade. O Wanderers jogou contra o Sydney FC, no grande clássico local. Um sábado à noite, estádio lotado – e eu estava lá, na torcida do Wanderers!

Confesso que inicialmente fiquei preocupado. Havia alguns relatos de confusão previa entre as duas torcidas. Eu ia levar meu filho de oito anos. Estava um pouco friozinho e mamãe deu a ele um casaco azul para vestir. Eu, gato escaldado, torcedor de muitas horas de Pacaembu e Morumbi, reagi na hora: imagina, vai com as cores do outro time! Vamos apanhar! Arrumei um casaco vermelho para o menino, e fomos.

Já no trem – transporte publico gratuito para quem vai a grandes eventos esportivos – percebi que eu estava redondamente enganado. Torcedores e torcedoras de ambos os times indo juntos ao estádio. Alguns amigos, namorados, um com a camisa do Wanderers, outra com a camisa do Sydney FC, andando abraçados normalmente nas imediações do estádio. ‘Com certeza’ isso aconteceria nas ruas de Porto Alegre nos dias de Gre-Nal… Para bom gremista, vermelho não serve nem como pano de chão…

No setor que eu sentei, na lateral do estádio, havia pessoas usando a blusa do Sydney FC  em meio a torcida do Wanderers. Problema zero. Atrás dos gols que fica o lugar dos torcedores organizados: perto da gente o RBB, do outro lado o ‘Cove’, que e’ o nome da torcida organizada do Sydney FC. Marchamos para o estádio juntos, dançamos e cantamos pelo Wanderers a noite inteira. Uma delicia. Eletrizante. Aqui da para acompanhar um pouco da ação daquele derby, perceber como ate’ os jogadores participam – e ver quem destruiu no jogo! Meu filho no começo ficou assustado, não estava acostumado a bagunça da torcida – mas após dez minutos entrou na onda, adorou, agora não para de cantar as musicas do time!

O RBB e’ uma organização muito interessante, eles são bem vinculados ao contexto social de onde vivem, participam intensamente da vida do clube e da comunidade. Por exemplo: quando há algumas semanas os incêndios florestais fizeram com que centenas de famílias perdessem suas casas, o RBB propôs ao patrocinador do time para fazer uma arrecadação de dinheiro no estádio: a cada dólar arrecadado, o patrocinador daria outro. Assim foi feito, e em um dia arrecadaram A$ 30.000,00 para as vitimas dos incêndios – metade da torcida, e a outra metade como contraparte do patrocinador, uma seguradora-monstro aqui da Australia.

Foi esta torcida, este espirito festivo e guerreiro, que fez os Wanderers subirem na tabela, ganharem seus jogos e viverem seu “conto de fadas”. Sem este apoio, sem esta torcida extraordinária, eles seriam apenas mais um time, em um estádio tão calmo quanto um concerto de opera. O RBB mudou tudo, preencheu um espaço – e vem mostrando e construindo uma nova cultura claramente cosmopolita no coração de Western Sydney, onde o futebol pulsa.

Claro que nem tudo são rosas. Há vários conflitos entre a policia, empresas de segurança privadas, e os torcedores. Acho que minha pesquisa pode contribuir no entendimento de quem são de fato estes torcedores, como eles se relacionam e o que pretendem. Estou apenas no começo, mas tem sido um grande aprendizado ver uma tradição surgindo, algo novo com uma origem centenária. C’mon you Wanderers!


[i] As cores oficiais do Wanderers são preto, vermelho e branco, o que me deixa tranquilo para manter as minhas melhores tradições futebolísticas são-paulinas aqui do outro lado do mundo! Não adianta a segunda divisão brasileira na figura do Leo Lopes me sacanear não, com o preto e vermelho da camisa oficial do time, ou com o vermelho e branco da camisa quando o time joga fora: as cores do time, repito, são vermelho, preto e branco: puramente TRICOLOR, soberano do Morumbi!

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