Tiros, pedradas, pauladas e navalhadas: representação dos clubes do subúrbio na imprensa esportiva carioca

Por Nei Jorge dos Santos Junior

Em 23 de novembro de 1919, os principais jornais cariocas anunciavam com sentimento de cólera a interrupção do match entre Andarahy e Vila Isabel[1]. Ao final do primeiro tempo, após um choque entre Olivio (do Vila Isabel) e Gilabert (do Andarahy), iniciou-se um conflito generalizado, com a torcida do Andarahy invadindo o gramado. Depois de muitas pauladas, tiros e navalhadas, a polícia pediu reforços e conseguiu dar fim ao tumulto, com a prisão de alguns torcedores[2].

 Villa-Andarahy

 Dois dias após a confusão, O Imparcial publicou uma carta escrita pelo juiz da partida, o Sr. Max Eckstein, na qual o próprio relatava com indignação os atos de violência de alguns torcedores do Andarahy:

As “torcidas”, covardemente, se dirigiram para a porta de minha residencia, sabendo-me no campo do Jardim Zoologico e minha senhora sozinha, sem que nada soubesse, foi ameaçada por mais de 40 indivíduos, alguns mostrando punhais e revólveres, que, além disso, deram assustadoras noticias a meu respeito, entre ellas, que eu tinha sido navalhado e aguardava em campo os socorros da assistência.

Se não fossem as garantias prestadas pela policia local, a pedido de minha esposa, que para lá mandou uma “viuva alegre” e duas praças de cavallaria, não sei de que seriam capazes os audazes indivíduos, que, por infelicidade, são “torcidas” do Andarahy.[…]

A explosão da assistência, só pode ser attribuida ao fanatismo cego de certos indivíduos, que não conhecem as regras de football e muito menos de educação[3].

 No mesmo dia, o vice-presidente do Andarahy, Antonio de Miranda, publicou uma nota oficial desmentindo essas informações.

 A directoria do Andarahy A. C, a bem da verdade, vê-se na contingência de desmentir o chronista do matutino do Largo da Carioca, quando se referiu, em sua edição de hontem, ao match e conflicto havido no campo do Jardim Zoologico.

Assim contesta ella, por não ser verdade:

Que tivesse sido chamada para depor em qualquer delegacia de polícia; que tivesse havido navalhadas no campo de football; que tivesse sido o autor do conflicto seu associado Gilabert, tendo em vista que o mesmo chronista attribue na mesma descripção do seu jornal a autoria da aggressão e causa do referido conflicto á outra pessoa que se julgara chargeada por ser um adversario[4].

 Essas declarações são indícios do conflito simbólico que se estendeu por anos no cenário do futebol carioca. Se por um lado esses acontecimentos explicitavam a força do ethos entre torcedores e suas agremiações, por outro lado fortaleciam um processo de estigmatização claramente em curso na grande imprensa carioca.

Nas palavras de Mario Pollo, cronista do Correio da Manhã, essas ações afastariam dos estádios as “boas famílias cariocas”, que não se conformariam em passar por uma situação “absolutamente incômoda e desagradável” [5]. Na maior parte das vezes, os clubes do subúrbio eram retratados nos periódicos cariocas dessa maneira: se eram inegáveis os conflitos, também o eram os preconceitos.

De fato, as práticas estabelecidas pelos jornais da época contribuíam para a construção de representações sociais das agremiações da zona suburbana, pois, do mesmo modo em que realizavam as intermediações entre realidades, por outro lado, ofereciam uma interpretação sobre determinado fato e/ou acontecimento, apesar dos discursos de imparcialidade. Como lembra Moscovici (2004), a representação social desponta no momento em que existe ameaça para a identidade coletiva, quando o cojunto de conhecimentos submerge as regras que a sociedade se outorgou. Foi nesse cenário que o discurso produzido por esses jornais perpassavam pela objetividade e subjetividade.


[1] O Imparcial, 24 de novembro de 1919; Correio da Manhã, 24 de novembro de 1919; Gazeta de Notícias, 24 de novembro de 1919.

[2] O Imparcial, 24 de novembro de 1919.

[3] O Imparcial, 26 de novembro de 1919, p.10.

[4] O Imparcial, 26 de novembro de 1919, p.11.

[5] Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1916, p.3.

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