A São Silvestre e São Paulo

O último post no ano de 2013 ficou a meu encargo. Como era de se esperar, minha primeira ideia foi fazer uma retrospectiva de 2013, como as milhares de retrospectivas que invadem as TVs e monitores de todos, por tudo o quanto é canto.  No entanto, tenho uma particularidade nesse sentido: odeio retrospectivas de fim de ano. Assim, minha primeira ideia não seria aproveitada.

Decidi então escrever sobre a corrida de rua de maior longevidade no país, a São Silvestre, realizada todo dia 31 de dezembro, desde 1924. Completando neste dia 31 de dezembro 89 anos, a corrida foi realizada até mesmo no ano de 1932, após a derrota paulista na chamada Revolução Constitucionalista, e durante os anos da Segunda Guerra Mundial.

A corrida foi criada por Cásper Líbero, jornalista paulista que criou A Gazeta em 1918, de onde surgiria o semanário A Gazeta Esportiva, em 1928. Muito ligado aos esportes, Líbero teria presenciado uma corrida noturna durante uma viagem à França, em 1924, e resolveu patrocinar uma corrida no último dia do mesmo ano, em São Paulo. A corrida veio depois a ser batizada com o nome do santo homenageado no dia 31, São Silvestre. Com um percurso inicial de 8,8 km, a corrida não foi reconhecida como uma prova oficial pela Federação Internacional de Atletismo até o ano de 1991, quando passou a ter um percurso de 15km. Talvez por seu pequeno trajeto, ou pela data festiva, a corrida tem também como atrativo pessoas com fantasias e muita descontração de grande parte dos participantes, um de seus charmes especiais.

No entanto, não é exatamente com a história da São Silvestre que este post se preocupa. Pretendo, na verdade, oferecer um pequeno olhar sobre a relação entre a corrida São Silvestre e a identidade da cidade de São Paulo. 

O esporte e identidades locais

Não deve ser novidade para o leitor deste blogue que o esporte está intimamente ligado a profundos sentimentos de identificação dos indivíduos. Foram tantos os artigos aqui já postados sobre isso que não tenho nem mais a conta. No entanto, não me recordo de um póst que abordasse de forma mais direta a relação entre o esporte (no caso, uma prova esportiva) e a identidade da cidade. A visão do evento esportivo como o que Pierre Nora chamou de lieu de memóire, ou lugar de memória; lugares (físicos ou não) em que a consciência histórica de um povo é construída. Os lugares de memória podem ser, assim, monumentos, personalidades, edifícios, festividades, ou outros marcos que sustentam uma visão em comum de um passado, ajudando a materializar uma identidade compartilhada. E eventos esportivos podem funcionar nesse sentido (Para mais informações, ver artigo de Pierre Nora, na revista Projeto História, n. 10).

A São Silvestre apareceria assim como um dos marcos da memória paulistana. Mas não é apenas sua realização e repetição, já por quase 90 anos, que a imbui de tal representatividade. Podemos começar pelo trajeto atual da corrida (disponível no site oficial do evento).

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Percurso da São Silvestre em 2013, disponível em http://www.saosilvestre.com.br/percurso.

Um olhar um pouco mais atento pode facilmente observar que diversos pontos chave para a identidade paulistana são “visitados” pela São Silvestre: o MASP, o Memorial da América Latina, o Teatro Municipal, a Praça da República, o estádio do Pacaembu, o Viaduto do Chá e a prefeitura da cidade, com a chegada em frente à Gazeta (Fundação Cásper Líbero), em homenagem ao criador do evento.

Tal mobilização de símbolos não deve ser vista como algo acidental, ainda mais nos dias de hoje, quando a transmissão da corrida pela televisão é tão significativa. A imagem a ser transmitida de São Paulo é a da cidade do MASP, do Teatro Municipal, com seu marco histórico no viaduto do Chá e o esportivo no Pacaembu. Transmite-se uma imagem selecionada da cidade, que será vista por milhares, e será compartilhada por muitos como a imagem de São Paulo. 

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O MASP e a São Silvestre. Fonte: http://fotos.estadao.com.br

Ao assistir a corrida, lembre-se que ela não é famosa pela dificuldade de seus parcos 15 km, mas pela sua “tradição” e pela imagem que representa da cidade de São Paulo. Esse fato não diminui sua importância. Na verdade, ele coloca a São Silvestre ao lado de eventos esportivos de grande renome no mundo, como o Tour de France ou as 500 milhas de Indianápolis; ela se torna um evento que marca sua cidade, ou seu país, se tornando um símbolo dela. Só que nas outras, não encontraríamos o the Flash.

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