Copa Brasil 2014: um contra-ataque na estratégia de integração sul-americana

Primeiro, uma confissão: é com verdadeira emoção que eu escrevo neste palco acadêmico. Ter a certeza de fazê-lo para uma galera tão qualificada (alem de ter a segurança de ser lido!) é uma mais-valia poucas vezes encontrada. Alem disso, experimento a felicidade por compartilhar minhas impressões com outros leitores da blogosfera, dos muitos que de maneira acrescentada ingressam neste site procurando a credibilidade dos autores que assinam nesta palestra interativa.

Também eu peço desculpas pelo ruim de meu português: aceito que minha construção gramatical tem muitos erros e que uso palavras inexatas em quase todos os parágrafos. É muito difícil apreender o uso do monte de acentuações, das contrações e do gênero para as palavras nesta língua! Espero que resistam até o final do texto. A coisa é que depois de muito pensar decidi (tentar) escrever na língua do país que abriu as portas para mim, acolhendo-me como bolsista de doutorado em antropología pela CAPES, na Universidade Federal Fluminense. Acredito, então, como um dever o esforço que vibra na mesma frequência da tese deste post: o desejável de uma verdadeira integração da região da América Latina (AL); objetivo que inicia com a aprendizagem de nossos códigos linguísticos que são a expressão imediata do jeito cultural que o contém.

O grupo de trabalho nucleado ao redor do Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer tem demonstrado pela sua produção (eventos, publicações, oferta de cursos, mobilidade internacional e quantidade de pesquisadores;) que é uma das equipes com maior sucesso da AL: não existe outro coletivo com essa envergadura de reunir pesquisadores (mestres e doutores) de varias universidades trabalhando de jeito tão articulado; também não temos noticia de nenhum outro do nível de interlocução com Europa e África, convertendo-o num grupo de olhar amplo e diferenciado e -por isso mesmo- de riqueza polifônica.

Grupo não isolado e que descreve muito bem o potencial nacional em o campo chamado de “estudos socioculturais do esporte”, fazendo especial atenção na historia dele e suas conexões com outras dimensões sociais e do mundo da vida. Realizar um escâner do estado da arte desse campo de estudos –ainda novo na ortodoxia acadêmico/disciplinar- já é uma tarefa difícil: o incremento do exame desse tema é direitamente proporcional ao tamanho da academia (e da pesquisa) e ao sucesso do esporte de alto rendimento no Brasil. Na medida em que o esporte aumenta sua aparição nas telas da mídia, também cresce o interesse da universidade e os pesquisadores por tratar tópicos gerados nele, muitos deles cenários privilegiados das mudanças sociais próprias da pósmodernidade e do chamado póshumanismo.

Este ponto é importante (e tive que descobri-lo morando aqui): o povo brasileiro não somente se apaixona pelo futebol, também é maluco por outras de suas variantes (futebol de salão e praia; masculino e feminino) e segue outras práticas esportivas como vôlei, basquetebol e o “valetudo” (UFC), sem contar esportes como o atletismo e variantes da luta (alem do paralimpismo) onde é protagonista mundial. Esta característica é diferenciada da região, onde os estudos são principalmente do “esporte rei” e sua expressão mais sensível para opinião pública: as torcidas organizadas (barras bravas).

Por isso fazer um balance no Brasil equivale a realizar, pelo menos, um do tamanho da AL. Um dado é altamente eloqüente: numa palestra sobre a Copa das Confederações, feito na UFF no mês de março de 2013, eu ouvi de um pesquisador nordestino esta cifra: existem 67 trabalhos de doutorado sobre o campo no Brasil. Pablo Alabarces, investigador argentino, falou de sete na Argentina, César Federico Macías disse que México não tem mais de dez e eu falei que na Colômbia –meu país- só temos três. Outro indicador estatístico é o tamanho da participação dos brasileiros nos eventos acadêmicos da região (e até nos cargos diretivos nos organismos acadêmicos latino-americanos): no passado congresso da Associação Latino-americana de Sociologia- ALAS (realizado no Santiago de Chile em outubro de 2013) a quantidade de pesquisadores ‘verdeamarelos’ foi desbordante. Mais parecia um congresso federal: no grupo onde eu participei (o GT-23: deporte, ócio y recreación), de 50 trabalhos, 29 foram “del país del penta” que foi a sacanagem de moda na mesa. Os números não mentem!
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Potente desenvolvimento que obedece a uma marca identitaria do Brasil: sua exuberância, sua riqueza, sua democracia racial (ao menos, como imaginário) e seu tamanho continental: é comum a piada na AL de fala espanhola que diz que todo o que vem do Brasil é “o maior do mundo”: como o Maracanã. Esses valores da nação foram veiculados –antes do governo do Lula da Silva- somente no futebol e quase exclusivamente na Seleção. O futebol de clubes era visto inferior ao argentino (basta lembrar como até faz uma década os times brasileiros tinham participação ruim na taça Libertadores) e todos morríamos ante as dificuldades de compreender o complexo sistema de campeonatos estaduais, regionais, Copa do Brasil, Brasileirão; alem do vigor das categorias A, B, C e D. Esso é droga pura!

O paradoxo, é que a fala com a América de língua espanhola é mais fraca do que deviera: é possível que pelas mesmas razões históricas do afastamento do Brasil de seus vizinhos: pela barreira da natureza nas fronteiras com os demais países da região, pelo abraço da monarquia em contraste com o caminho independentista da Corona das outras nações e por a língua. Essa contradição parece repetir a distancia ancestral entre a Espanha e o Portugal: tão pertos e tão distantes. Tão amigos como rivais. Como o idioma mesmo: espanhol e português são línguas irmãs (provem do Latim), mas sua proximidade ainda não consegue derrotar o pouco interes das populações envolvidas e até o temor ao desconhecido (minha deficiente escritura do português é mais uma prova de “essa distância”).

Porem essa distância esta se reduzindo com a integração “da cima para baixo”, executada com acerto por os dois últimos governos brasileiros. Agora, alem dos acordos econômicos, existe uma forte presença cultural, tecnológica e política do Brasil no resto de Sul America. Essa presencia esta “desfutbolizando” (para dize-lho em espanhol) o imaginário que nós temos fora do que significa o país do lema “Ordem e Progresso”. Dizer “nós temos” é uma generalização; contudo vou empregar como exercício acadêmico essa expressão para me referir aos discursos da imprensa (da mídia), das elites políticas e o que chamamos “a fala popular” para configurar (construir) esse “outro” em que se converteu Brasil para o resto de Sul-america. Uma advertência tem que ser feita: estas impressões são ainda um rascunho e estão escritas com ar descontraído. Varias foram faladas, em botecos e praças, com a galera de sul-americanos que fazem pós-graduação no Rio de Janeiro e Niterói.

Quando eu digo “sul-americanos” estou marcando uma primeira distinção: é assim como eu ouvi que os amigos brasileiros nos chamam ao resto de pessoas de outros países. A primeira vez que eu escutei “sul-americanos”, como uma etiqueta para exotizar aos outros (como dizer `japonês’ ou ‘gringo’) foi no estádio Engenhão no Rio, da boca de um amigo carioca que quis se referir ao jeito argentino de torcer (com guarda-chuvas e globos; saltando nas arquibancadas em tanto cantavam canções com ritmo de “cumbia villera”) que já imitam algumas torcidas organizadas nas tribunas do país.

Essa construção do “outro” foi particular: em tanto que -segundo autores como Eduardo Archetti e Pablo Alabarces (1995, 2008)- o grande rival da Argentina, no futebol, foi Uruguai e a nível político Chile (pela rivalidade das ditaduras de Pinochet e a Junta Militar na cabeça de Videla) e logo Inglaterra pela “Guerra de las Malvinas”. Brasil somente foi considerado rival (para os argentinos) a partir da popularização da internet na AL (ver Ronaldo Helal et AL, 2001) e aconteceu como uma resposta, depois que a mídia bonaerense comprovou que eles (a ‘albiceleste’) já eram os “outros”, os rivais declarados pelos brasileiros. Assim começa a lenda dos catimbeiros Vs. os macacos.

Mas o mito do Brasil como rival somente funciona com a Argentina. O “maracanazo” não conseguiu uma verdadeira rivalidade com Uruguai. Poderíamos dizer que –atualmente- é mais um destaque da mídia inspirado num fato real que contribuiu ao desenvolvimento do futebol nos dois países, que o inicio de uma rivalidade esportiva consistente. Isso é irreal, tanto pelo tamanho da população, das economias, como pelos valores em jogo que não são adversários. O único cenário onde essa rivalidade tem possibilidades –alem da lembrança histórica- é na publicidade, como aconteceu no comercial do fantasma azul de recente aparição.

Lembro agora a frase do jornalista de Buenos Aires, Jorge Barraza, ele dizia: “quando Brasil joga a Terra toda quere que ganhe; quando Argentina entra no campo, a Terra sempre torce na sua contra”. Que quer dizer isso? Que o cartão postal do Brasil: praias, carnaval, futebol –que são atributos cariocas- não são objeto de rivalidade. Quem quer ser rival da alegria? Quem se atreve vencê-la? Ninguém quer ser o vilão! Brasil sempre representou o triunfo da miscigenação, vitoria da magia; a supremacia do talento natural: de geração espontânea, de areia e sol, de pelada. Por essa razão, todos na AL “hispana” chamávamos aos brasileiros “brazucas” antes que a FIFA escolhera esse nome para o balão oficial da Copa. Era a vindicação do jeito carioca, da maneira estereotipada de viver no Rio der Janeiro, que tão bem intelectualizou o Roberto Da Matta.

Em tanto que a Argentina, no resto da América Latina se foi o “outro” de sucesso. Ela foi pai, mãe e rival ao mesmo tempo. Assim em todos os países tinham um Charles Miller vindo da Inglaterra, foram os jogadores do Rio de La Plata os encarregados do desenvolvimento desse esporte país por país. No caso da Colômbia, tivemos uma época espetacular, conhecida como “El Dorado” (1949- 1954) que aproveitou uma greve de futebolistas no solo argentino que migraram para meu país, inaugurando a liga e constituindo um jeito de olhar, sentir e viver o futebol que hoje tem sempre como referente o que acontece no sul de América. Situações parecidas viveram as outras nações integrantes da Confederação Sul-americana de futebol (Conmebol): o espírito imigrante –propriedade da população rioplatense- deu licença para as muitas aventuras de jogadores argentinos (e uruguaios) que colonizaram torneios de futebol na America do Sul, diferentes do Brasil que tinha seu próprio potencial e que não se ocupou dos vizinhos por ter um cenário (um “mercado”) tão maior que não dava tempo para exportar, com a exceção das primeiras incursões na Europa, no correr da primeira metade do século passado.

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E como Argentina se teve diferencias étnicas, o mito prosperou em terra fértil. Em tanto Brasil –na caneta de Mario Filho e Gilberto Freire- falava do sucesso do mito das três raças (europeia, africana e indígena) e do ingresso dos negros à sociedade pelo caminho do futebol, na Argentina o cantante popular Facundo Cabral dizia: os mexicanos provêm dos astecas, os peruanos dos incas e os argentinos dos barcos. Essa marca europeia (depositaria da famosa arrogância) e o fato de ser eles os impulsores do futebol aos que deveríamos ganhar-lhes (completando o complexo do Édipo) se queríamos ter a maioria de idade, foi o que fiz dos compatriotas do Maradona nossos mais redomados rivais.

Por isso a goleada de 5 x 0 de Colômbia sobre Argentina, lá no Monumental de Núñez, em Buenos Aires (eu falo deste, como recitando uma passagem da historia pátria) foi tomada como o parricídio. Como o ingresso a maturidade do futebol nacional que, no discurso da imprensa, “agora se podia aspirar a ganhar a Copa do Mundo”. Melhor não aprofundar no que passou depois: a Seleção foi eliminada cedo da Copa USA 94 –depois de ser declarada favorita- e a defensa Andrés Escobar foi assassinado pela máfia quando voltou ao país.

Então, o Brasil sempre foi outro. Mas outro mais ausente que presente. Nunca rival. O melhor exemplo é o contraste do Maradona e Pelé que é o mesmo que a diferença entre o irmão problemático e o irmão simpático. Do irreverente e o politicamente correto. Do mestre da dramatização e a tragédia (o menino da pelada que vira herói da pátria) e o gênio do talento incomensurável. Do Beethoven e Mozart. Com o ‘Pelusa’ pode acontecer que as pessoas adorem seu jogo e aborreçam sua personalidade (concepções duais), em tanto que sempre “O rei” foi idolatrado por sua correção dentro e fora do campo.

E esse jeito que potenciou o clichê do carioca. Esse imaginário que fiz pensar a América Latina de fala espanhola (e provavelmente ao mundo) que os brasileiros eram negros como sua Seleção e doces como a bossa nova e alegre como o samba, esta mudando gradualmente com a apresentação dos megaventos (Copa 2014 e Jogos 2016) inseridos no marco de uma nação que, alem do tamanho territorial e da população, agora é “cabeça de grupo” (para dize-lho em chave futebolística) da economia do mundo e da política internacional: no G-7, G- 20, ONU, Unasul, alem de ser o líder da Mercosul.

Que Lula da Silva seja capa da revista Time e que seja chamado “o cara” por O bama e que agora Dilma Rousseff seja uma das personalidades mais influentes do planeta, complementa outros cenários onde Brasil esta exibindo seu poderio. Eu mesmo faço parte de essa ofensiva diplomática: estou morando neste país (até o ano 2016) graças às bolsas de estudo que este país oferece aos cidadãos dos países em desenvolvimento que são estratégicos para a política internacional no conceito do Palácio da Alvorada. Bolsas que superam em quantidade e qualidade as existentes em toda a região e que se acrescentaram desde o segundo exercício ministerial do Celso Amorim na carteira das relações exteriores.

Nesse cenário chega a Copa do Mundo. Aproxima-se num clima especial e diferenciado daquela outra Copa, do ano 50: quando ainda Brasil ficava muito longe do resto do mundo. Agora sua presença é variada e transcende o futebol- arte e a simpatia. Nos tempos atuais no somente é Rio de Janeiro, também é o industrializado São Paulo, a beleza arquitetônica de Brasília e a exuberância amazônica, nordestina e da região sul. Hoje é a sexta potencia da Terra e promete fazer uma copa inolvidável, com jeito próprio: o primeiro com 12 sedes e oito campeões. Uma espécie de Copa “à brasileira” que é um ditado que mistura o jeitinho carioca e a certeza dos protestos do ano passado que disse “o gigante acordou”.

Vai conseguir aproveitar o Mundial para dar o passo final no processo de integração sul-americana? Acho que sim, especialmente se o campeão é um sul-americano. O Brasil? Outra vez Uruguai? Vai ser a Argentina? O tempo dirá!

Referências bibliográficas
ALABARCES, P. (2008) Fútbol y patria. El fútbol y las narrativas de la nación argentina. Buenos Aires: Prometeo libros.
ARCHETTI, E. (1995). Estilo y virtudes masculinas en EL Gráfico: la creación del imaginario del fútbol argentino. Desarrollo económico, vol. 35, no 139. Buenos Aires: IDES, octubre- diciembre, 1995.
HELAL, Ronaldo; Soares, Antonio Jorge & Lovisolo, Hugo (2001). A invenção do país do futebol. Mídia, Raça e Idolatría. Mauad: Rio de Janeiro.

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