O Clube Tauromáquico (1877/1878)

Por Victor Andrade de Melo

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Depois de extintas ao fim do período colonial, quando eram comumente organizadas por ocasião de festividades ligadas à família real portuguesa, no Rio de Janeiro as touradas voltaram a ser promovidas na década de 1840, a partir de então em um formato empresarial, sendo remunerados os membros da equipe tauromáquica. Todavia, em muitas ocasiões foram organizadas provas de “curiosos”: amadores voluntários enfrentavam os touros por módicos prêmios.

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O desempenho desses amadores era comumente motivo de críticas, pela inabilidade dos performers, que resvalava em “inaceitáveis cenas de crueldade com o touro”. Alguns “curiosos”, contudo, não se mostram rogados com as críticas e resolveram criar uma agremiação própria. Os “amadores da tauromachia” se reuniram no Real Club Ginástico Português e, no fim de janeiro de 1877, fundaram o Clube Tauromáquico.

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A proposta do Clube Tauromáquico era organizar os “curiosos” que apreciavam e participavam ativamente das touradas sem interesses profissionais. Os sócios se reuniam com frequência e organizavam atividades na praça da rua Marquês de Abrantes, graças a cessão gratuita do proprietário, Sr. Manoel Antonio de Brito Sejosker.

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Segundo O Globo, o clube reunia “jovens em sua grande maioria pertencentes à classe comercial” (1 de julho de 1877, p. 2). Integrava, por exemplo, a primeira diretoria José João Martins de Pinho, um comerciante que se envolveu com várias casas bancárias, reconhecido por seu envolvimento com várias instituições ligadas à colônia portuguesa, como a Caixa de Socorros de D. Pedro V, o Gabinete Português de Leitura e a Beneficência Portuguesa. Era também diretor José Mendes de Oliveira Castro, comerciante envolvido com os novos negócios da cidade. Ambos eram personagens de importância na sociedade da Corte.

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A primeira tourada pelo clube organizada, em 11 de março de 1877, foi promovida em benefício de vítimas de uma inundação em Portugal e de uma instituição de caridade do Rio de Janeiro. O evento gerou grande expectativa. O colunista de O Globo, que assina como Sir Mask, dá uma noção do frenesi: “Há oito dias, leitor querido, que não me sento, não durmo, não como, não socégo! Por toda a parte ouço pronunciar com enthusiasmo, com encanto, com furor, a palavra – Tourada!” (11 de março de 1877, p. 1).

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O resultado parece não ter decepcionado, pelo menos aos entusiastas da Gazeta de Notícias. Para o jornal, os jovens participantes tinham mesmo surpreendido

Brincava um sorriso de complacente ironia nos lábios de quase toda a gente quando se falava de touradas; poucos acreditavam que aqueles rapazes fossem para frente de um boi sem recuar; esse sorriso desapareceu em presença dos aplausos entusiásticos [com] que o público aplaudiu a tourada de ontem (12 de março de 1877, p. 1).

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Para alguns, essa nova conformação das corridas de touros as colocavam em um patamar superior. Para um colunista, ainda que desprovidos de boa técnica, deveria se louvar a atitude dos envolvidos: “Um punhado de mancebos destemidos e generosos, com o intuito de enxugarem as lágrimas de muitos desgraçados, resolveram expor-se aos perigos de uma tourada, para adquirirem os meios para realizarem o seu intento” (6 de março de 1877, p. 1).

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Para ele, tratava-se de uma demonstração do valor desses jovens: “uma prova de que em face d’um animal embora furioso, a presença de espírito do homem, auxiliada pelas regras da ginástica, deve fazer este sempre vencedor”. Nessa apresentação, as atividades tauromáquicas eram mesmo tidas como exercícios ginásticos, como uma forma de preparação do corpo e do espírito.

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O evento fortaleceu a posição dos que defendiam as touradas. Mesmo O Mosquito não deixou de, ainda que com tom irônico, observar que esse foi o principal assunto da semana:

Por toda a parte, no café, na rua, na secretaria dos estrangeiros, no lar doméstico, em Paquetá, nos bondes, nos folhetins, no largo do Rocio, nos camarins, no chalé campestre, nas publicações a pedido, na sociedade Amor da Glória, nos estabelecimentos comerciais, nas irmandades, nas ilhas adjacentes, na barca de banhos e nos hotéis, de dia, de noite, de manhã e de tarde, às ave-maria e ao romper da aurora, sempre, sempre, sempre a tourada foi o primeiro assunto do momento e a caridade o segundo (17 de março de 1877, p. 7).

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A própria capa dessa edição do periódico, de autoria de Bordallo Pinheiro, faz referência ao evento. Com o subtítulo de “Festa de caridade – A caridade da festa”, apresenta-se uma mãe, com crianças à saia e no colo, farpeando um touro bravo.

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Mais ainda, com a verve cômica de sempre, apresenta o desenvolvimento do evento em quadrinhos, ironizando a dinâmica das touradas e as ocorrências do evento, aproveitando a ocasião para chacotar da política nacional.

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A despeito dos elogios ao clube, nem tudo foi um mar de rosas. Não faltou quem questionasse os reais intuitos e as contradições das ações da agremiação. Para Sir Mask: “Não podemos aplaudir, não podemos compreender sequer que para uma festa de amor, de caridade, se busque um espectaculo perigoso, bárbaro, contrário à nossa civilização, e particularmente à nossa índole, tão paciente e passiva” (11 de março de 1877, p. 1).

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Um dos mais contundentes foi Nemo: “O Club Tauromáquico, o promotor do divertimento bárbaro das touradas, convidou no domingo passado o povo desta capital para dar largas aos instintos maus e carniceiros que ele, o Club, alimenta e supõe alimentados pelo fluminense pacato” (Gazeta de Notícias, 8 de novembro de 1877, p. 1). Para ele, tratava-se de uma diversão brutal, que traía os princípios dos cidadãos da capital.

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Em 1878, o clube reduziu suas atividades; passou a somente se fazer presente em algumas corridas de touros promovidas pela companhia profissional. Em junho, uma pá de cal é lançada sobre o Clube Tauromáquico: o Ministério do Império indefere o pedido de aprovação dos estatutos. A agremiação se extingue, mesmo que alguns contestassem a decisão governamental: parecia incoerente permitir a atuação das companhias profissionais e proibir os amadores. O debate foi fervoroso.

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Não havia jeito: a agremiação não foi mesmo autorizada a funcionar. Mas as touradas seguiriam ocorrendo e empolgando uma parte da sociedade carioca. Aliás, alguns anos mais tarde houve uma nova tentativa de manter um Clube Tauromáquico. Esse, contudo, é tema para outro post.

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Para mais informações:

MELO, Victor Andrade de. Uma diversão adequada?: As touradas no Rio de Janeiro do século XIX (1870-1884). História [online]. 2013, vol.32, n.2, pp. 163-188. ISSN 1980-4369. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/his/v32n2/a09v32n2.pdf

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