Uma trama policial sobre os Jogos de 1992

Rafael Fortes

Conheci os romances policiais de Manuel Vázquez Montalbán através de uma coleção com capa preta que a Companhia das Letras publicava anos atrás, e que incluía Luiz Alfredo Garcia-Roza, Tony Bellotto e Joaquim Nogueira – só para citar os brasileiros cujos livros li e recomendo pra quem gosta desse tipo de literatura.

FutbolPara quem não o conhece, Montalbán foi um jornalista, ficcionista e ativista catalão, admirado por muitos leitores mundo afora. Por exemplo, Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, é dedicado a ele (e a Pilar, claro). Torcedor do Barcelona, teve algumas de suas crônicas e textos jornalísticos sobre o clube reunidas em Fútbol: una religión en busca de un Dios (deste, confesso, não gostei, embora adore crônicas de futebol). Uma seleção de seus escritos jornalísticos foi publicada em três volumes entre 2010-2012.

*  *  *

Meses atrás, entrei numa livraria de Barcelona. Perguntei ao vendedor o que tinha de Montalbán. Enquanto caminhávamos até a estante, ele tentou me convencer a ler em catalão:

– Muito mais parecido com o português que o castelhano! Olha só!

Disse, enquanto abria um livro no idioma para comprovar o que dizia. Respondi:

– É uma língua interessante, mas vou ficar com o castelhano mesmo, que eu já consigo entender.

Enquanto o vendedor chutava – e acertava – os títulos que eu lera, mostrou-me onde estavam. Escolhi Sabotaje Olímpico, curioso por tomar conhecimento de uma história do detetive Pepe Carvalho relativa à Olimpíada de 92.

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Lançado em 1993, o livro tem enredo e narrativa bem estranhos. A maior parte da trama se desenvolve durante os jogos de 1992. Uma série de acontecimentos  sugerem um movimento de sabotagem do megaevento esportivo, o que leva as autoridades – há uma profusão delas, estabelecendo entre si relações às vezes bizarras e inusitadas – à convocação de Carvalho para auxiliar as investigações. Entre as ocorrências, um sequestro do então presidente do Comitê Olímpico Internacional, o catalão Juan Antonio Samaranch.Sabotaje

O leitor se depara com trecho como este: “Durante dezessete dias a cidade estaria ocupada por uma ampla minoria de desportistas praticantes e por uma imensa maioria de esportistas por palavra, pensamento e omissão.”

Rapidamente aparecem muitos suspeitos para a sabotagem: empresas que não conseguiram comprar os direitos exclusivos para patrocinar os jogos; um político italiano desacreditado; setores das cidades de Madri e Sevilha, com grandes rivalidades em relação a Barcelona (Sevilha sediou um megaevento no mesmo ano: a Expo 92); setores da sociedade espanhola antipáticos às intenções independentistas catalãs, canais de televisão dos Estados Unidos, a Ku Klux Klan e a princesa Caroline de Mônaco, entre outros.

Mesmo as ironias mordazes e os absurdos se relacionam a elementos econômicos, políticos e culturais do contexto em que a obra foi escrita – que coincide com aquele em que se passa a trama. Sitiando Barcelona estão “submarinos errantes” cujos tripulantes se negam a aceitar o fim da União Soviética; a gastronomia catalã aparece em vários momentos como elemento identitário da região.

A obra pode ser lida como um contraponto ao senso comum que até hoje apresenta a Olimpíada de Barcelona como uma espécie de exemplo para o mundo de como uma competição esportiva de grande envergadura pode mudar positivamente uma cidade. Não é difícil encontrar este ponto de vista edulcorado sobre aqueles jogos na imprensa esportiva brasileira.

Assim como outras fontes de arte mencionadas neste blogue (por exemplo, do cinema, da pintura e da literatura), pode ser analisada historicamente, o que significaria ter em conta tanto o conteúdo quanto a forma. No caso desta, destaco a reflexividade, que se manifesta, por exemplo, nas menções a outras obras – como Os Mares do Sul – e na descrição de Carvalho em dado momento como um importante personagem literário do pós-franquismo.

O desfecho do sequestro? Não vou contar, claro.

Referência bibliográfica

MONTALBÁN, Manuel Vázquez. Sabotaje olímpico. Barcelona: Planeta, 2011.

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