Imaginando a Copa

Por André Schetino

Olá amigos do História(s) do Sport.

A Copa do Mundo de Futebol é o assunto do momento, e não poderia ficar de fora nesse post. O andamento (ou não) das obras de infra-estrutura, os protestos e articulações políticas, as sedes dos jogos, as namoradas do Neymar, são apenas alguns elementos que povoam nossa imaginação.

Ah, a imaginação!

A tão falada frase que ganhou os comerciais de tv, as redes sociais e as conversas de botequim sobreviveu à repetição exaustiva e ao cansaço de alguns: “imagina na copa?

Imagina?

Imagina?

A frase se repete sempre que vemos alguma notícia ou fato, geralmente ligados aos problemas ainda por serem resolvidos (será?) até o Mundial. E assim todos nós imaginamos. Ontem entrei em um táxi e o assunto não podia ser outro. Me disse o motorista: “como você acha que vai ser durante a copa?”. E assim tem sido desde que o Brasil foi escolhido como sede para a Copa do Mundo de 2014.

Pois bem. A boa notícia é que nossas indagações estão com os dias contados. No próximo dia 12 de junho, vamos parar de imaginar e ver como realmente será.

Mas se você partilha comigo de certa ansiedade sobre esses dias vindouros de muito futebol e “sabe-se-lá-mais-o-que”, vou dividir com o amigo leitor um exercício que fiz nos últimos dias.

Cansado de imaginar como será na Copa, eu fui aos arquivos da Biblioteca Nacional, e no intuito de aplacar um pouco da minha angústia, resolvi ler um pouco sobre como foi a Copa no Brasil. Então voltei ao ano de 1950, pelas páginas da Revista O Cruzeiro. Lá eu encontrei um pouco de tudo: toda euforia pelo evento, a cobertura dos jogos, a alegria do torcedor, o orgulho pelo Maracanã, o maior estádio de futebol do mundo.

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Mas quem acompanha minhas postagens aqui no blog sabe que, o que me salta aos olhos é o que me parece diferente, curioso ou inusitado. Confesso que nunca fui profundo estudioso do futebol (daquele de ir à biblioteca e mergulhar nos arquivos), mas uma notícia específica me chamou a atenção.

Sem mais delongas, segue a reportagem de David Nasser, na edição de 15 de julho de 1950 da Revista O Cruzeiro

A Copa Errada

Rio de Janeiro – Da cadeira numerada 2, letra G, setor 25, 140 cruzeiros, debaixo de goteira, especial para O CRUZEIRO, junho de 1950 – Aqui, senhores, está a reportagem feita sem a menos facilidade da CBD ou da inepta e inexistente Comissão de Imprensa criada para a Taça Jules Rimet. Do reduzido espaço de uma cadeira numerada, tendo a vizinhança do ilustra brigadeiro Eduardo Gomes e do teatrólogo Luís Iglezias. Sobre a nossa cabeça uma goteira que não parava nunca, conseguimos trazer a agradável impressão de uma vitória do Brasil, no terreno esportivo, mas de fracasso da CBD na parte administrativa. 880 jornalistas e pseudojornalistas assistiram à peleja, enquanto a alguns profissionais em serviço se procurava dificultar a missão. Nesta véspera de jogo deve ser comum o diálogo entre a cozinheira e o motorista:

– Durvalina, você quer ir ao jogo do Brasil?

– Mas, como, Manuel? De arquibancada?

-De arquibancada ta difícil. O jeito é a gente ir mesmo de Tribuna de Imprensa.

Certos paredros esportivos são como elefantes de circo: vivem a glória apenas na hora do espetáculo. Depois, volta à obscuridade e à vida monótona de todos os dias. Procure, amigo, uma dessas eminências atualmente e encontrará fechada todas as portas: a de casa, a do escritório e a da confederação. Os respeitáveis e altíssimos governantes dos esportes nacionais, dirigentes das grandes rendas, colocam-se em pedestal cuja base não se forma de sabedoria ou cultura, mas de maleabilidade, de jeito, de tato em lidar com os torcedores, com os jogadores e principalmente com a igrejinha que é a própria alma da entidade. Só se trata do esporte, no Brasil, em função do lucro. O atletismo está abandonado, o tênis foi posto à margem, o basquete atravessa uma fase ruim, a natação já não interessa. Só o futebol, porque o futebol dá renda. Essa história de cultura física, de aprimoramento racial, não passa de bobagem sem nexo para os mentores esportivos do Brasil. Por essas e outras razões, a Copa do Mundo só não se transformou em fracasso técnico graças às próprias equipes. No que dependeu da CBD, da Comissão de Imprensa e de todas as outras comissões ineptas, o fracasso é absoluto, completo e desolador.

(…)

Sua Excelência, o paredro, analisou, há alguns meses, o problema do turismo. Antes de tudo, a CBD teria de gastar dinheiro com a propaganda do Brasil no exterior e a CBD se recusou a imprimir cartazes e a divulgar as nossas coisas na Europa e noutros continentes. Mário Provenzano [repórter da revista], Fernando Bruce e Geraldo Romualdo da Silva, três honestos e competentes cronistas esportivos, voltaram impressionados de uma longa viagem ao estrangeiro: quase não haviam lido um artigo, uma reportagem, uma apreciação sobre o campeonato do mundo a realizar-se no Brasil. Em nossa permanência na Europa nem os jornais especializados falavam sobre o assunto.

Um rapaz do ‘Match’, a maior revista da França, explicou o desinteresse:

“- Temos a impressão de que não será realizada a disputa da Taça Jules Rimet no Brasil em 1950. Nada sabemos a respeito da construção do novo estádio e só se propala, aqui, a falta de hotéis e acomodações para turistas.

A CBD não se importava, na realidade, com a parte turística. A CBD sabia, tinha plena convicção, de que as grandes rendas seriam produzidas pela torcida brasileira. Aos elefantes esportivos pouco importava a contribuição de dólares, de dinheiro, de benefícios que os 90 mil turistas trariam ao Brasil durante a Copa do Mundo. “- Daremos a festa com a prata da casa”, raciocinaram, e se deixaram orientar sempre e sempre por esse principio egoístico e antinacionalista.

Dos noventa mil, apenas uns dois mil turistas apareceram por aqui. No cais do porto ou no aeroporto, ninguém para recebê-los. Desde o primeiro minuto, sentiram-se deslocados, sem informações, sem guias, sem facilidades. Para um polonês ou letão ir ao Estádio, imaginem as dificuldades. Tivemos, assim, o fracasso turístico.

Os grifos na reportagem foram feitos por mim. Infelizmente não tenho as fotos dessa e de outras edições para ilustrar esse post. As fotos mostram um estádio do Maracanã incompleto, com vergalhões e resto de obra à mostra, fotos da confusão e descontrole para entrar no estádio e dos feridos sendo atendidos. Há inclusive a menção de uma morte durante um dos jogos da seleção brasileira (isso na edição de 29/07 de 1950).

Voltar à primeira Copa do Mundo no Brasil através das reportagens da Revista O Cruzeiro não me mostrou que alguns problemas parecem os mesmos. Também não me mostrou que, em alguns aspectos, podemos até ter melhorado. Pensei que fosse aplacar um pouco da minha ansiedade em saber como será, mas isso também não aconteceu. Mas posso dizer após esse exercício de ida aos arquivos, que conhecer o passado pode nos ajudar sim a compreender o presente. Além de ser algo fantástico.

Então me resta agora aproveitar os últimos meses em que posso imaginar, antes de saber como será. Te aconselho a fazer o mesmo:

Imagina na Copa?

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