O dia em que o Brasil vai parar para ver tevê

Faltando 45 dias para o início do campeonato mundial que será realizado no Brasil, o título do presente post poderia ser uma referência à estreia do Brasil na Copa do Mundo contra a Croácia no próximo dia 12 de junho. Mas trata-se na realidade de curiosa matéria publicada na Revista Placar no dia 14 de maio de 1982, um mês antes  do Mundial realizado na Espanha.

A expectativa e o clima de euforia no país antes do torneio era  contagiante. Sobre a primeira partida contra a U.R.S.S a referida reportagem afirma:

Bilhões de quilovats de energia elétrica adicionais serão gastos ao longo dos 90 minutos que durar a partida, para alimentar os milhões de televisores e rádios que naquele momento estarão sincronizados no jogo. Nessa hora e meia, incontáveis hectolitros de bebidas alcóolicas extras serão consumidas, assim como inumeráveis tranquilizantes (Placar:625, 14)

 

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As exibições da equipe de Telê Santana que chegava a ser chamada de “seleção da abertura”, os ventos democráticos do período de transição política da ditadura militar para a redemocratização, a espetacularização do evento , o crescimento das propagandas e o intenso consumo como as camisas do mascote Naranjito, o jogo de futebol “Escrete” criado por Chico Buarque de Holanda , as chuteiras Pênalty , os filmes da Kodak cujo garoto-propaganda era o próprio Telê e a enorme venda  de televisores de diferente marcas  simbolizavam um ufanismo exacerbado com a empolgação pela eminente participação brasileira no evento. Grande parte da população, inclusive as personalidades políticas estavam ansiosas com o início do torneio.

Com esquemas previamente preparadas ou não, a verdade é que quase ninguém deixará de ver a Copa. E isso inclui até o mais alto mandatário da Nação. O presidente João Figueiredo já avisou ao seu ministério e assessores que nos dias de jogo da seleção ele não despachará  nem receberá ninguém. A nova rotina no Palácio do Planalto começará dia 14 quando o presidente encerrará seu expediente ao fim do último despacho matutino, que normalmente acontece pouco depois do meio-dia. Depois disso, Figueiredo deixará a sede do governo e se retirará para a Granja do Torto, sua residência oficial, de onde só sairá na manhã do dia seguinte…

Outros chefes do Executivo seguirão o exemplo do presidente e se desligarão das questões de Estado para sintonizar a Copa. Na Bahia, o Governador Antônio Carlos Magalhães já mandou instalar um telão no Palácio de Ondina, sede do governo, e avisou que não despachará nas tardes em que a seleção de Telê estive em campo…

E não é preciso ser um torcedor fanático para isso. Até mesmo o austero Golbery de couto e Silva, ex-chefe da Casa Civil e considerado o artífice da abertura política do governo Figueiredo reservará um tempinho para espiar na tevê as jogadas de Zico e sua turma contra a URSS, no dia 14. Ele estará no seu sítio, no município goiano de Luzitânia ao lado da sua mulher Esmeralda, uma torcedora fanática do Fluminense e da seleção brasileira. Mas Golbery, com algum pudor sustenta que olhará para a “televisão” apenas nos lances mais importantes. A maior parte do tempo, diz passará tentando ler um livro. Dificilmente conseguirá. (Placar: 625, 12-14)

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Além das citadas figuras políticas que exerciam papel central na gestão do executivo do estado brasileiro naquela conjuntura histórica, as expectativas de diversas outras personalidades também são relatadas na Revista na seção “Gente”  (625, 16-18) que tem como título: “A Copa do Mundo mobiliza todas as estrelas da constelação brasileira. Além das 22 que lutarão diretamente pelo título nos gramados espanhóis, inúmeros outros permanecerão no Brasil não menos tensos, à espera da vitória. Torcer, manter as superstições e rezar, são algumas das muitas maneiras de participar de uma Copa do Mundo”. Dentre essas “estrelas” gostaria de destacar algumas afirmações polêmicas ou ao menos curiosas:

– Pretendo ver todos os jogos e beber muita cerveja. O PT não terá programação nos dias de jogos da seleção, porque gostamos de futebol. Ao contrário do que se pensa o futebol não aliena. O povo já sabe que título mundial não enche barriga. (Lula – Presidente do PT)

 

– De maneira alguma deixarei de participar deste plebiscito nacional. Este momento de união supera todas as formas de avaliação democrática dos anseios populares. A vitória na Copa será a oportunidade para a redemocratização do país. ( Alceu Amoroso Lima – Escritor e líder católico)

 

– Se índio participasse da Copa, eu até assistiria. Seria muito gozado. Como não participa estou preocupado com o que pode acontecer nas Malvinas. Torço pelo Brasil, mas não saio da minha rotina. Não verei televisão, nem escutarei rádio ( Orlando Villas Boas – Sertanista e indigenista)

 

– Sei que o futebol anestesia o povo, mas meu lado masculino ama o futebol. Vou torcer muito, apesar dos males que a conquista do título possa trazer ao país. Mas, afinal é com a seleção que o país melhora a imagem no exterior.  (Rogéria – Travesti).

 

– A Copa do Mundo é instante de apaziguamento dos espíritos, um momento singular na vida dos povos. Para nós brasileiros, é a hora ecumênica da vida nacional, e a unificação de todos em torno do objetivo de vitória. A Copa unifica, consolida e fortalece o espírito de união nacional. Onde quer que eu esteja vou parar para ver os jogos e torcer pela televisão. (Tancredo Neves – Político)

 

–  Acho que desta vez, ao contrário das duas últimas Copas, o técnico está respeitando a criatividade do jogador brasileiro. Telê restituiu a malícia e a improvisação no nosso futebol. (Jorge Amado – Romancista)

 

– Os dias de jogos são dias de festa, de união entre os brasileiros. O arcebispo de São Paulo tem a mesma história dos homens das ruas, que já participou de rachas e peladas. Por isso já pedia a irmã secretária que ajeite os compromissos para que eu não incomode ninguém nem seja incomodado durante os jogos. O Brasil precisa de nossa torcida e orações. (Dom Paulo Evaristo Arns – Cardeal de São Paulo)

 

– Não verei Copa do Mundo, não verei seleção, não verei futebol. Índio tem coisas mais importantes para resolver. Índio está preocupado com a terra, com fome, com sobrevivência. Copa do Mundo e futebol são maneiras de governo distrair o povo. Juruna vai fazer campanha para deputado. Juruna não faz demagogia. Só não gosta de futebol. (Cacique e candidato a deputado pelo PDT)

 

– Não sei se na hora do jogo, serei eu, o Pantaleão ou o Coalhada que ficará em frente da teve, porque meu ritmo de trabalho é intenso. ( Chico Anísio – Humorista)

 

Apesar da natureza caricata de algumas declarações, elas espelham debates importantes sobrea relação entre o futebol e a Nação naquele momento histórico. A discussão muito presente no período sobre o futebol como ópio do povo ou elemento de integração pode ser percebida entre àqueles que defendem veementemente o esporte como Lula, Tancredo Neves, Alceu de Amoroso Lima e o próprio Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, ou em comentários negativos como o do cacique Juruna ou do travesti Rogéria. A questão do estilo de jogo do futebol brasileiro é levantada por Jorge Amado  e a onipresença da televisão percebida nos comentários de Chico Anísio e Osvaldo Vilas Boas.

E toda esta comoção e ansiedade em virtude da estreia brasileira era para torcer pela equipe composta por: Babão, Favela, Belo, Dorminhoco e Capacete. Tereza, Cabelo de Anjo, Tziu, Monstro, Coxinha, Dentão, Chulapa, Pé Murcho e Pateta entre outros.

Segundo a reportagem do jornalista Marcelo Rezende (Placar: 615, 4-8) diretamente da Toca da Raposa, esses eram os apelidos dos jogadores brasileiros da famosa seleção “canarinho”. Talvez hoje, o discurso “politicamente correto” esbravejaria caracterizando as brincadeiras em bullyng ou até mesmo injúria racial no caso de Tziu.

Porém, conforme o que foi relatado na matéria acima, os atletas da seleção conviviam harmonicamente jogando sinuca, escutando música nos 18 walkman disponibilizados, lendo desde gibis, a clássicos como Pablo Neruda e Carlos Castañeda,  e  assistindo filmes com Bruce Lee, Sônia Braga ou até mesmo, o então polêmico  “Gaiola das Loucas”.

 

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