Debates sobre práticas corporais e Educação Física na história, na Bahia

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

    Na atualidade, muito se discute sobre a Educação Física como disciplina escolar. São muitas as interpretações de seu papel social, de sua ordenação legal e sobre suas formas de atuação.
    Esse debate sempre esteve presente na área, desde que se fundou o primeiro curso civil de formação na área, o da Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD), na Universidade do Brasil (UB) e isso, 1939.
As práticas corporais são um tipo de conteúdo/tema que sempre fizeram parte do cotidiano escolar, mesmo antes da instalação da disciplina Educação Física e isto, no Brasil e em países do exterior. Várias foram e são às atividades utilizadas, mas a ginástica e os esportes sempre estiveram no centro das ações.
     As atividades que lidam com o corpo no espaço da escola sempre estiveram atreladas a argumentos externos a elas próprias, de maneira a tentar lhes atribuir sentido e valor. Os discursos tratavam e tratam da questão da saúde, da educação corporal, da construção de valores morais, da capacitação física, da formação de atletas, ou seja, percepções diferentes para um mesmo quadro de atividades.
     Na base das elaborações teóricas para a justificativa e caracterização da Educação Física; várias foram às áreas de conhecimento e vários foram os profissionais que atuaram, dentre estes, percebemos a presença de militares, médicos, pedagogos, atletas e ex-atletas, práticos, além de políticos e gestores públicos e privados. Neste caso, pela própria diferença de perfil de formação, podemos então ver que também são diferentes as formas de se ver e se propor a atuação na Educação Física. Assim, ao longo dos tempos e ainda hoje, esta disciplina pena com variadas formas de se enxergar e propor como ela deve se dar na escola, provocando debates intensos e prolongados, sendo elemento de produções acadêmicas, políticas e jornalísticas.
     Como foi dito, este debate acerca da presença e da forma de lidar com a Educação Física e as práticas corporais na escola, se dá desde longo tempo e assim também tem sido na Bahia. Neste estado, desde o século XIX identificamos este assunto como pauta dos jornais diários. Exemplos disso são os textos publicados no Diário do Povo, Correio Mercantil e O Monitor. Também revistas especializadas como a Gazeta Médica da Bahia trataram deste assunto.
     Em diferentes edições, estas fontes abordaram temas relativos à prática corporal, atividade física, atividade esportiva, como um elemento educativo, formador de um povo, de uma nação. Estas matérias procuravam dialogar com referências internacionais, como forma de referendar seus argumentos e atribuir aos mesmos, peso, uma forma de se mostrar em contato com o que se dava no exterior, uma maneira de se apresentar como moderno.
     As matérias da Gazeta Médica da Bahia(1) procuravam abordar aspectos da prática ginástica, trazendo dados de experiências estrangeiras, procurando mostrar o valor das atividades corporais como elemento da saúde, construtor da nação e da moral nacional. Abordagem semelhante era apresentada pelo Correio Mercantil (2). Este jornal, a partir do que se conhecia da prática ginástica na Grécia, apresentava esta atividade como uma forma de se aperfeiçoar não apenas o corpo, mas a alma de um povo.
      Já em O Monitor(3) , o que vimos é uma discussão acerca da Educação Física e sua experiência formativa, refletindo o que se dava em terras inglesas, onde o esporte era tratado como elemento central, um conteúdo que servia para moldar e educar novos espíritos que adiante ocupariam os melhores espaços e a liderança inglesa e mesmo mundo afora.
       O jornal Diário do Povo(4) abordava esta questão, procurando relacionar as características nacionais, mostrando as formas que se devia usar para lidar com as peculiaridades do país, do brasileiro, não devendo ser apenas uma cópia do que se dava na Europa. Sua interpretação se pautava na importância das atividades corporais para o país e seu povo.
      Se corrermos o tempo e chegarmos aos atuais, vamos também encontrar debates semelhantes, onde ainda se discute o conteúdo, a metodologia e mais, o valor e a importância de se ter ou não a Educação Física como disciplina na escola e as práticas corporais como basilares da formação do estudante. Várias são as interpretações e proposições, todas diferentes entre si, com argumentos teóricos diversos, propostas de temas e métodos variados.
     Com isso, podemos perceber que muita das vezes, o que se dá em tempos atuais, não é exatamente uma articulação do momento, mas sim, ainda vemos repercutir debates antigos e várias vezes, repetidos, mesmo que se queira dar a eles ares de novidade, no que podemos chamar de “síndrome do ineditismo”. Ou seja, se tenta “criar” uma história, para fazer dar valor àquilo que se defende, sem entender que os mesmos assuntos, debates e proposições já estão colocados, cabendo aos autores atuais, saber dialogar com o que já se produziu, para aí sim, construirmos o presente, sem esquecer o passado.

 

Notas:

1.Gazeta Médica da Bahia, v.23, julho, 1891, p.301 e Gazeta Médica da Bahia, v.28, Julho, p.407.
2. Correio Mercantil, 02/06/1838, p.2.

3. O Monitor, 27/01/1878, p.1.
4. Diário do Povo, 23/01/1889, p.1.

 

   

 

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