PELÉ DIGA QUE SE SIENTE, ESCRIBIR EN LA CASA DE PAPÁ VIDELA

O maior jogador de todos os tempos dentro dos gramados também é um dos grandes fenômenos de marketing do século XX. Garoto propaganda de diversas empresas nacionais e multinacionais durante a sua carreira e com grande destaque após sua aposentadoria, Pelé se transformou em um dos ícones publicitários do planeta. Como destaca o pesquisador Euclides Couto em sua recente obra: Da ditadura à ditadura: uma história política do futebol brasileiro (1930-1978)
É importante mencionar que a partir da Copa de 1958, quando suas jogadas extraordinárias foram aplaudidas pelas plateias europeias , Pelé também iniciou sua trajetória de pop star fora dos gramados – consideravelmente ampliado, nos anos seguintes, com a conquista do bicampeonato mundial pelo Santos (1962-1963) – foi estrategicamente canalizado pela indústria de propaganda de massa. Nos anos de 1960, sua figura representa a própria imagem do futebol brasileiro e confundia-se com a representação (estereotipada construída pelos estrangeiros) da identidade nacional brasileira como sinaliza o antropólogo Luiz Henrique de Toledo. (COUTO:156,2014)

O jogador brasileiro também era venerado na Argentina. Se atualmente existe certa animosidade nas gerações mais novas com relação ao ídolo internacional, até os anos oitenta e a explosão de Maradona no cenário futebolístico mundial, Pelé era idolatrado no país vizinho.
Conforme assinalam os sociólogos Ronaldo Helal (Brasil) e Pablo Alabarces (Argentina), a rivalidade entre as duas potências, intensamente vivida nos estádios e cidades-sede do mundial disputado este ano no país, é um fenômeno recente que está diretamente associado não apenas ao surgimento do craque Maradona e seu incrível desempenho no campeonato mundial de 1986, disputado na Argentina. Intermináveis disputas geracionais envolvendo Maradona x Pelé pela internet e novas mídias, o surgimento do diário esportivo Olé na Argentina, bem como uma certa decadência no final dos anos 90 do futebol uruguaio, o grande rival até então de ambos os países, são algumas das hipóteses levantadas para o acirramento da rivalidade futebolística entre as duas nações no final do século passado
No ano de 1978, Dieguito, jovem revelação do Argentino Juniors com 17 anos sofria a decepção de ser cortado pelo técnico César Menotti da seleção que representaria a seu país na Copa da Argentina,ainda no início de uma carreira que seria brilhante.
Enquanto isso Édson Arantes do Nascimento que havia definitivamente se aposentado dos gramados após amistoso festivo entre o Cosmos e o Santos no dia 01 de outubro de 1977 nos Estados Unidos, assume durante o mundial da Argentina o papel de “senhor da memória” como caracteriza os jornalistas o historiador Jacques Le Goff.
Pelé aceita convite do ultraoficialista periódico Clarín para integrar a equipe de cronistas do suplemento especial do jornal. Junto com o próprio técnico da equipe argentina Menotti, o ex-craque Di Stéfano e jornalistas como Heleno Herrera e Juan di Biasi, as crônicas do ex-jogador são praticamente diárias durante o torneio e têm destaque no que diz respeito ao próprio discurso de autoridade conferido por Pelé a cobertura do evento esportivo.

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Se o ex-jogador Romário, atualmente desbravador dos campos políticos, cunhou a célebre frase “Pelé calado é um poeta”, como será que ele foi escrevendo durante o Mundial disputado na Argentina.
Analisando as crônicas, pode-se verificar que Pelé estava bem alinhado com o discurso nacionalista sobre a realização do mundial no país “hermano”. Escreve como um diplomata que representa seu país respeitando a cultura local e legitimando a estrutura de poder vigente. Durante o torneio, suas crônicas emitem opiniões sobre as questões dos gramados e é possível identificar a propagação de estereótipos nacionais a partir dos supostos estilos de jogo, além de um cuidado enorme em não comentar assuntos polêmicos. Na crônica “Menotti produjo el cambio” por exemplo Pelé afirma:
“Tienpos atrás lós argentinos eran famosos tanto por su juego de pases cortos como por el poder físico: que diferencia há operdo en ellos la preparacíon que les brindo mi viejo amigo César Menotti. Ahora el juego argentino tiene algo de europeu. Los jugadores locales manejaron con pericia la pelota, trabajaron duro, corrieron, concretaron los passescon velocidad, patearon el arco cada vez que fue posible y sobre todo, pese su temperamento latino supieran mantener la disciplina para evitar las confrontaciones que un fútbol arduo,como este se juega a este nível”. (Clarín N.11589, Pg. 4 Suplemento Mundial)

A reverência constante aos argentinos, inclusive ao seu “velho amigo” que era técnico da seleção anfitriã e a posição específica que ocupa como ídolo do futebol internacional, transformam Pelé, durante o mundial de 1978, em um aliado simbólico do regime ditatorial comandado pelo general Videla, junto com figuras como João Havelange, Henry Kissinger e o ditador boliviano Hugo Banzer.

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O silêncio nas suas crônicas sobre questões mais políticas é compreensível pela própria trajetória ideológica do Edson e também pela censura existente no país, mas algumas declarações de gratidão e o próprio comportamento do ex-atleta durante o torneio sugerem que sua pobre contribuição literária transcendeu a análise esportiva do evento.
Talvez o caso mais curioso envolvendo Pelé durante o torneio tenha sido a declaração de que daria o nome a filha recém-nascida de Argentina na reportagem “Se fue Pelé, pero vuelve el padre de una nena que llamará Argentina”:
“Lo mejor que haya pasado es que mi hija haya nacido durante la disputa del campeonato mundial. Siempre fui un agradecido por todo ló que brindó la Argentina en mi época de jugador y estoy deslumbrado por las atenciones y el afecto que recibo a cada momento em esta estada. Por eso como homenaje a este país y al excelente mundial que están realizando, mi hija se llamará Argentina” (CLARIN. N:11.593, PG 11)

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Quando retornou de Nova York o cronista Édson teve que dar constrangedoras explicações para informar que a neném se chamaria Jennifer e não Argentina como tinha sido anunciado. Coincidência ou não, o primeiro casamento do “rei do futebol” terminaria neste próprio ano.
Pelas crônicas e reportagens com Pelé durante o mundial pode-se perceber que o brasileiro estabeleceu uma relação muito fraterna com os argentinos, de grande cumplicidade e carinho, justamente em um momento que Papá Videla buscava colher os louros da organização do torneio com a campanha publicitária “La fiesta de todos”. Pelé seguramente aproveitou esta festa e foi convidado para retornar como colunista do Clarín na Copa do mundo da Espanha quatro anos depois.

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