Mulheres nas águas (Rio de Janeiro, século XIX)

Por Victor Andrade de Melo

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Não sendo exatamente um especialista nas questões de gênero (como o é minha querida amiga e irmã Silvana Goellner, com a qual temos a honra e o prazer de contar na equipe desse blog), sempre procurei, no âmbito de minhas investigações sobre o esporte no Rio de Janeiro do século XIX, registrar a participação feminina. Tratava-se de uma constatação explícita: a presença de mulheres nas iniciativas esportivas era anterior do que a princípio pensávamos, claro indício de uma posição protagonista, dentro dos limites do tempo (tratei um pouco do tema aqui, num artigo publicado na Revista Brasileira de História).

Os novos estudos que tenho procedido sobre as práticas corporais no Rio de Janeiro do século XIX, alguns deles em conjunto com o amigo e irmão Fábio Peres (que também integra a equipe desse blog), têm mostrado que o envolvimento das mulheres brasileiras com o esporte é ainda mais anterior. No post de hoje, tratarei brevemente da participação feminina nas iniciativas ligadas à natação. Será mesmo uma abordagem bem breve, dado que há muitos outros indícios que aqui não serão abordados por uma questão de espaço.

Para o memorialista Luiz Edmundo (1957), assim se trajavam as mulheres para os banhos de mar em determinado momento:

“calças muito largas de baeta tão áspera que mesmo molhada não lhe pode cingir o corpo. Do mesmo tecido, um blusão com gola larguíssima, à marinheira, obrigada a laço, um laço amplo que serve de enfeite e, ao mesmo tempo, de tapume a uma possível manifestação de qualquer linha capaz de sugerir o feitio vago de um seio. As calças vão até tocar o tornozelo quando não caem num babado largo, cobrindo o peito do pé. Toda a roupa é sempre azul-marinho e encadarçada de branco. Sapatos de lona e corda, amarrados no pé e na perna, à romana. Na cabeça, vastas toucas de oleado, com franzido à Maria Antonieta, ou exagerados chapelões de aba larga, tornando disformes as cabeças, por uma época em que os cabelos são uma longa, escura e pesada massa”.

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Nas duas últimas décadas do século, contudo, os jornais já veiculam algumas mudanças. Pelos números de A Estação, periódico que tinha a moda como assunto principal, podemos acompanhar as sugestões para as mulheres que procuravam os banhos de mar e a natação. Em 1879, apresentou-se o seguinte modelo: “A blusa e a calça são abotoadas, uma à outra, no cinto sofrivelmente largo, pregado de modo a correr com facilidade. Este modelo, de baetilha branca, é apertado por uma faixa, e enfeitado de bordado à ponto de marca”.

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Quase um ano depois, na coluna Crônica da Moda, Antonina Aubé observa a possibilidade de uso de uma vestimenta menos rigorosa para as que praticavam a modalidade: “As senhoras que aprenderem a nadar ou conhecerem a natação, a farão mais curta e com mais roda, para que não pareça repuxada, o que é extremamente feio e incômodo”.

A longa matéria descreve todos os detalhes da vestimenta, ainda bastante rigorosa se compararmos aos parâmetros atuais. Todavia, há que se destacar que a abordagem enfatiza mais a elegância e o conforto do que o pudor, embora essa seja uma dimensão que não deve ser negligenciada.

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No decorrer do século, sempre às vésperas do verão, o tema voltava à baila, com abordagem semelhante a essa já comentada. Além das vestimentas, comentavam-se comportamentos adequados e cuidados com a saúde e beleza a serem observados. Sempre se faziam ressalvas às distensões aceitáveis para as “nadadoras”.

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Já mais para o fim do século, a colunista Paula Cândida, é ainda mais enfática no que tange à participação feminina. Ao observar que as mulheres já tomam parte ativa em jogos e diversões públicas (“As senhoras idosas ficam admiradas diante dos jogos aos quais tomam parte as suas descendentes”), entre os quais duas novidades, o tênis e o ciclismo (rechaçado pela cronista por ser deselegante e sem função), Cândida sugere que a natação se encontraria entre os mais graciosos gêneros de diversão. Para ela, “a natação é indispensável para todas as senhoras e devia fazer parte da educação”.

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A ideia de que mulheres podiam praticar a natação não foi rapidamente aceita pela sociedade fluminense. Contribuíram para uma maior aceitabilidade não somente as ações de médicos e pedagogos, mas também a própria conformação de um mercado de entretenimentos e a circulação de notícias de nadadoras que se destacavam por proezas no exterior realizadas, especialmente recordes batidos por Miss Agnes Beckwith, chamada de “a primeira nadadora do mundo”. Logo também surgem notícias de mulheres nadando na cidade, especialmente na Praia do Boqueirão do Passeio.

Entre tantas, vale registrar o nome de duas pioneiras: Adélia Cardoso Silva, “uma elegante moça de 20 anos” que, em 1882, realizou com “admirável coragem a travessia da praia do Boqueirão à Ilha de Villegagnon”; e Ignez Victoria de S. e Souza, vencedora do páreo feminino de uma competição de natação organizada pelo Grêmio Filhos de Thetis, em 1886.

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