As elites, as classes populares e o esporte em Salvador

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

Em Salvador, os esportes tiveram início entre fins do século XIX e início do século XX, período no qual a cidade começava a ganhar novos ares e hábitos. Nesse momento, crescia uma elite urbana, burguesa, formada por profissionais liberais, comerciantes e industriais, diferenciando-se da tradicional elite brasileira, que tinha por base as atividades agrícolas.
Essa nova elite assumia hábitos que a faziam mais próxima dos projetos de modernização que se instalaram na cidade de Salvador. Dessa forma, incorporar novas práticas culturais era um meio de estabelecer uma distinção social. Dentre essas práticas estava o esporte, justamente por associar-se aos ideários da modernidade.
O esporte apareceu como uma prática de relevo na constituição desses novos comportamentos, dessa nova forma de se portar, de ser e estar em sociedade. Na Bahia, as primeiras experiências esportivas contaram com a forte presença e influência dos ingleses residentes em Salvador. Em sua chegada pelos portos, os ingleses, que se tornaram importantes para as ações comerciais e financeiras, trouxeram os sports e seu pretenso papel de fortalecimento espiritual e corporal.
Nessa fase inicial dos esportes em terras brasileiras, os próprios ingleses que aqui residiam ou passavam procuravam manter seus hábitos, dentre eles o da vivência esportiva. Na falta de espaços próprios, iam para as praças, parques e ruas praticar as modalidades de seu interesse, despertando curiosidade e espanto – afinal, a população ainda não estava habituada àquelas atividades, ainda mais em espaços públicos.
A forte presença inglesa na constituição dos esportes se observou também na criação dos primeiros clubes. As agremiações assumiam nomes em inglês e guardavam o uso da terminologia esportiva, também na língua inglesa, fatores que se mantiveram mesmo quando os fundadores e praticantes passaram a ser brasileiros que tinham vivido no exterior, ou que simplesmente queriam adotar a lógica inglesa.
Com o passar dos tempos, o esporte, visto em seu início com estranhamento, foi incorporado pela elite como um símbolo útil para um processo de distinção social e uma forma de manter um distanciamento das classes populares. Segundo desejo dessas elites, as atividades esportivas, da mesma forma que a modernidade, deveriam ser algo exclusivo delas.
Dessa forma, estabelecer experiências de prática cultural distintas das populares era um mecanismo usado pela elite para afastar-se do real cotidiano das cidades. Importava que suas atividades fossem diferenciadas das da população em geral, e ao máximo, semelhantes às vividas pelos povos a serem copiados. Afinal, construir a modernidade significava, dentre outras coisas, viver sob uma nova dinâmica sociocultural, pois para ser ou parecer civilizado era adequado ser e ter hábitos semelhantes aos estrangeiros.
Nesse sentido, por reconhecer que os esportes tinham formas de sociabilidade e condutas desconhecidas aos populares é que a elite buscou adotá-lo como um elemento de simbolização de seu status, a representação de sua fidalguia e altivez, onde a noção de fair-play era a máxima expressão do sportsman.
Entendemos que também no esporte se representou uma relação de confronto e de adesão entre as elites e os populares, onde ambos buscaram meios de participar do cenário da chamada febre esportiva. Além dessas dificuldades, os projetos modernizadores, dentre outras coisas, procuraram afastar as cidades de seu passado e ainda procuraram fazer com que a cultura popular, por ser considerada inferior, fosse expurgada do cenário urbano.
De toda forma, as classes populares acabaram incorporando a prática dos esportes em seu cotidiano. Tal fato foi possível a partir de um processo de reinterpretação das práticas e de seus sentidos, já que entre as classes se estabelece uma distinção entre padrões e valores culturais e econômicos.
Dessa forma, justamente por ser uma produção cultural humana é que o esporte permitiu aos praticantes a possibilidade de uma ressignificação, ou seja, a atribuição a ele de características que fossem peculiares a cada realidade, fazendo com que sua prática ganhasse sentidos diversos. De toda maneira, se a princípio os esportes e os clubes foram espaços tipicamente importados, a partir de uma adequação às culturas locais eles foram assumidos pelas classes populares, que trataram de dar outro sentido a sua prática e a sua organização.
Dessa forma, a diletante atividade esportiva de bases inglesas, pautada no amadorismo e no fair-play, passou também a ser encarada como uma atividade de aspecto popular. Para tanto, elementos como os materiais e os espaços foram adaptados e a competição e a paixão se tornaram mais presentes.
Além disso, foram criadas pelos populares agremiações e entidades e ainda, algumas modalidades experimentaram maior sucesso que outras. Acima de tudo, o esporte percorreu uma trajetória que o levou a ser uma atividade de imenso interesse em todas as camadas da população.

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