1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil (José Carlos Asberg, 2007)

CARTAZ 1958

Tudo o que aconteceu depois (…) tinha importância, mas não convencia

(Moacir Claudino, reserva de Didi)

O trecho acima, de imediato um pouco nebuloso, veio a ganhar um contorno mais nítido (ao menos para mim) quando me lembrei de um texto lido num dia qualquer: uma crônica, acho. Tratava-se de uma discussão jocosa, mas pertinente, sobre a vida de um dos pouquíssimos homens a pisar na lua (foram 12 e somente 12, até hoje – ver http://noticias.terra.com.br/ciencia/conheca-os-12-homens-que-pisaram-na-lua,b5c884bb948ea310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html). Frente às comezinhas e tediosas atividades do dia a dia, o ex-astronauta interpelava a si mesmo: porra, eu já fui à lua!

Essa sensação, a de pressentir ou mesmo saber que nada do que se fará adiante alcançará o mesmo patamar anterior, não é exclusiva aos idosos tripulantes das missões Apollo. Tendo-se isso em mente é que é possível bem compreender o meia Moacir. Outras aventuras e desventuras certamente se assomaram a trajetória do jogador (ver http://esporte.uol.com.br/futebol/copa58/selecaobrasileira/moacir.jhtm), mas como superar a participação vitoriosa em uma Copa do Mundo, a primeira do Brasil?

Esse é um tipo de conquista, ademais, que não se espraia apenas entre seus realizadores. É essa dimensão (maior, coletiva, nacional) que vai permear a condução da direção de José Carlos Asberg. Utilizando-se dos recursos de filmes de época, provocação de depoimentos memorialísticos e dramatização, Asberg nos conta a história de uma mini epopeia premonitória. Sim, porque 1958 nos é apresentado com um duplo significado. Um interno e outro externo.

Para “os brasileiros” teria significado o rompimento com o “complexo de vira latas” (reafirmado em 1962, 1970, 1994 e 2002), definido textualmente no filme com o apoio de uma dramatização de Nelson Rodrigues à máquina de escrever. Externamente, mas articuladamente, teria implicado nosso début (positivo) internacional: “o ano em que o mundo descobriu o Brasil”. Um Brasil vitorioso, altivo, talentoso e admirável.

Nesse sentido, a fita de Asberg re-escreve, cinematograficamente, parte substancial da crônica sobre os sentidos atribuídos ao futebol no Brasil; à sua associação a uma construção de uma identidade nacional positiva (a literatura acadêmica já ponderou razoavelmente sobre essas operações; ver, por exemplo, ANTUNES, Fatima M. R. Ferreira. “Com brasileiro, não há quem possa!” – Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário filho e Nelson Rodrigues. São Paulo, Editora UNESP, 2004 &  GUEDES, Simoni Lahud. Futebol e identidade nacional: reflexões sobre o Brasil. In: PRIORE, Mary Del & MELO, Victor A. de. História do Esporte no Brasil. São Paulo, Ed. UNESP, 2009).

Particularmente, eu destacaria a boa presença do futebol na fita de Asberg (de futebol filmado e de futebol comentado). Esse é um mérito dessa película. Todos os jogos do Brasil na Copa são passados em revista, com suas vicissitudes intra e extra campo e com o recurso às imagens disponíveis. Alguns jogadores como Djalma Santos, Vavá e, principalmente, Didi, Garrincha e Pelé são devidamente destacados. Só esses três já valiam uma série fílmica inteira. Os depoimentos de ex-futebolistas estrangeiros que disputaram o certame e enfrentaram esse trio é um ponto forte da obra.

O Escrete de 1958

Por fim, e retomando a estrutura narrativa, o que parece ficar evidenciado (provavelmente à revelia dos autores) é não tanto o fim da pretensa viralatice nacional, mas sim um percurso que vai desta a uma hiperbólica auto-avaliação. Isso pode ser vislumbrado desde o título do filme até uma garrafal manchete de jornal (O Globo?) devidamente enquadrada e destacada na parte final do filme: “Curvou-se o mundo diante do maior futebol do Universo”.

Um fosso abissal teria sido atravessado. Da condição de cão sem dono a de soberania mundial e… universal (ok, Didi, Garrincha e Pelé até pareciam ser de outro mundo, mas daí a isso…).

Essa imensa oscilação autoavaliativa foi acionada historicamente outras tantas vezes (e não somente em termos futebolísticos, é claro; ver uma discussão pertinente em FICO, Carlos. Reinventando o Otimismo. Rio de Janeiro, FGV, 1997).

1958, então, parece menos a cura do complexo de “inferioridade em que o brasileiro colocava-se voluntariamente face ao resto do mundo” do que uma imersão ciclitímica da nação (de uma certa forma de se imaginar a nação) que mais parece corresponder a uma espécie de bipolaridade tupiniquim. Mas isso eu acho que já fica para um próximo post.

Abraços cívicos (a eleição está próxima)!

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