2 de dezembro, Dia Nacional do Samba: O Trem do samba e o subúrbio carioca como novas atrações turísticas

Por Valeria Guimarães

Olá, no post de hoje venho falar de lazer, na forma de uma festa muito peculiar e de um tipo diferente de turismo que está se consolidando na cidade do Rio de Janeiro: conhecer o subúrbio carioca. Já escrevi aqui antes sobre a presença de turistas, especialmente afro-americanos, no Mercadão de Madureira (https://historiadoesporte.wordpress.com/2011/10/01/as-antigas-e-as-novas-faces-do-rio-turistico/). Outra motivação da ida de turistas ao subúrbio carioca, sem dúvida, são as festas e feijoadas nas quadras das escolas de samba suburbanas. Mas de longe a principal atração de forasteiros (de outras nacionalidades, de outros estados, e por que não dizer de outras partes dessa cidade partida?) é o Trem do Samba, um evento anual que reúne multidões no subúrbio de Oswaldo Cruz.

Todos os anos, no dia 2 de dezembro, comemora-se o Dia Nacional do Samba. A data foi instituída em 1940 pela Câmara dos Vereadores de Salvador, em homenagem ao compositor Ary Barroso. Hoje, por todo o país registram-se várias festas populares para celebrar o mais brasileiro dos ritmos num dia dedicado a ele. Por aqui, no Rio de Janeiro, além da tradicional festa organizada pela Liga das Escolas de Samba, ganhou força nos últimos anos um evento bastante interessante, chamado Trem do Samba.

Com o nome inicial de Pagode do Trem, começou nos idos dos anos 1990 como uma tímida ação de um grupo de ativistas de Oswaldo Cruz, bairro do subúrbio carioca, onde está sediada a escola de samba Portela, dentro do trem que liga o bairro à gare Central do Brasil. O grupo, liderado pelo sambista Marquinhos de Oswaldo Cruz, buscava a elevação da auto-estima de seus moradores a partir da invenção de uma tradição que remonta à memória e resistência operárias com o batuque no trem no início do século XX, cujo protagonista, como conta-se, era Paulo Benjamim de Oliveira, o notável Paulo da Portela.

O Pagode do Trem envolvia alguns rituais cuidadosamente repetidos a cada edição, como a festiva acolhida das Velhas Guardas do Império Serrano e da Mangueira nos vagões dos trens, em alusão às práticas de hospitalidade dos antigos sambistas dessas agremiações, e o canto de sambas tradicionais de ilustres moradores de Oswaldo Cruz e de outros bairros do subúrbio, incluindo-se Paulo da Portela, Cartola e Silas de Oliveira.

O que era uma ação pontual de um grupo de ativistas do bairro suburbano rapidamente caiu no gosto popular e transformou-se num grande evento da cidade, incluído no calendário oficial, tendo recebido também o apoio do Ministério do Turismo. Hoje, chamado de Trem do Samba, o evento mobiliza vários trens que partem da Central do Brasil com destino a Oswaldo Cruz . Em cada vagão uma roda de samba é comandada por grupos musicais da cidade ou da região metropolitana, algo de encher os olhos de turistas e cariocas, que sambam no sacolejo do trem e no embalo do samba.

Ao chegarem ao destino, em Oswaldo Cruz, a 16ª estação do ramal da Central do Brasil, os participantes são recebidos com queima de fogos e existem várias rodas de samba espalhadas pelo bairro com renomados artistas populares. A cada ano, o evento ganha novas atrações. Nas últimas edições, foram criadas as “tendas do conhecimento”, com debates acadêmicos sobre o samba, o subúrbio e sua história e foi criado um tour pelo bairro, organizado por agência de turismo especializada em atrativos histórico-culturais.

A expressão cultural identitária de um grupo suburbano é hoje, 20 anos depois, um evento de massas conhecido internacionalmente e organizado com os sofisticados recursos da indústria cultural. Por iniciativa do prefeito de Nice, o Trem do Samba desembarcará também na França.

http://www.tremdosamba.com/2014/

A festa popular, que reivindicou tradições de um passado histórico apropriado às suas demandas do presente (e aqui é uma leitura própria a partir da ideia de Hobsbawn e Ranger (1990)), foi ressignificada, ganhou o mundo, mas não perdeu, no íntimo, o charme do samba e da alma suburbana, os seus principais atrativos.

Axé!

 

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