São Cristóvão x Alemanha

por Alvaro do Cabo

O mundo da ficção futebolística é pouco conhecido e debatido pelos pesquisadores e amantes do esporte mais popular em nosso país.

Apesar de adorar literatura, sou mais um admirador do que especialista, não tenho tido muito tempo para me dedicar a leituras de romances, contos e poesias ultimamente. Neste blog temos a ilustre presença de um desbravador literário oriundo das terras paraibanas, o gigante Edônio.

Sem querer me aventurar na seara analítica do príncipe de João Pessoa, gostaria neste post de compartilhar uma indicação literária e uma divagação reflexiva.

Gozando de merecidas férias com a família, me dediquei a leitura de uma antologia de contos de ficção futebolística organizado pelos pesquisadores da área de Letras do Washington College Shawn Stein e Nícolas Campistí “Por amor a la Pelota: once cracks de la ficcíon futeboléra”.

Primeiramente gostaria de destacar a iniciativa de valorizar a literatura sobre futebol na América Latina escolhendo o idioma espanhol e o gênero de contos. Os autores selecionaram 11 contos que representam os 10 países associados da CONMEBOL, além do tradicional futebol mexicano buscando estabelecer uma conexão identitária e geopolítica através de narrativas em que a paixão pelo futebol é o grande fio condutor.

Relatos de torcedores, disputas amadoras e colegiais, a mercantilização do futebol, e até mesmo um homicídio em pleno gramado em uma partida de veteranos são alguns dos temas presentes entre os autores escolhidos.

Ademais, cada escritor respondeu a um interessante questionário que aborda desde a importância do futebol na sua juventude até a possível relação do esporte com a política, os míticos estilos de jogo o significado da realização da Copa do Mundo de 2014 para o continente.

Curiosamente, o acionamento da memória da Copa ficou presente na minha mente justamente no conto brasileiro de Sergio Sant’ana “a boca do túnel” que foi publicado pela primeira vez em 1982 e confesso que desconhecia sua existência.

O excepcional texto tem como protagonista o veterano técnico da modesta equipe carioca do São Cristóvão, que relata os acontecimentos de uma partida realizada no Maracanã contra uma grande equipe de qualidade técnica muito superior.

Paralelamente aos lances do jogo, o treinador em sua inigualável solidão existencial na boca do túnel divaga sobre a vida e as possibilidades táticas, estéticas e metafísicas do jogo de bola.

A qualidade literária é fascinante e as referências à craques como Pelé, Garrincha, Afonsinho, Sócrates, Reinaldo, Zico, etc, criam um contexto nostálgico do futebol brasileiro que se acentua com a construção mítica do próprio São Cristóvão.

Temas acadêmicos recorrentes como o futebol-espetáculo, a paixão e a ideia de comunidade clubística, a relação entre política e esporte e até a atualmente superada discussão do futebol como ópio do povo aparecem ao longo do texto.

E, no resultado final, qualquer semelhança é mera coincidência. O São Cristóvão apanhou de 7 a 1. O jovem ponta Evilásio marcou o gol de honra da equipe alvinegra. O treinador foi demitido, porém era modesto e sensível. Os moradores do tradicional bairro continuaram sua bucólica rotina: bares abertos, estudantes namorando, o comércio fervilhando em uma paisagem cinza e modorrenta.

A equipe de Figueira de Melo talvez ainda seja conhecida hoje devido ao slogan “aqui nasceu o fenômeno” em referência a breve passagem nos juniores de Ronaldo Nazário ou pelo mais tradicional bar temático de futebol de São Paulo que leva seu nome. O solitário título carioca de 1926 está perdido nas brumas da memória das antigas gerações ou nos livros de estatísticas futebolísticas.

A vida continua, mas como recuperar a honra depois de um 7 a 1. Se para o modesto São Cristóvão é muito difícil, imagina para a soberba seleção da C.B.F.

– REFERÊNCIA

STEIN, Shawn e CAMPISI, Nícolas (orgs). Por amor a la pelota:once cracks de la ficcíon futbolera. Santiago,  Editorial Cuarto Próprio: 2014.

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